PLANETA PLÁSTICO

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Recycling Company, SKM, Declared Bankrupt In Melbourne

Jason South / A Era / Getty Image

https://www.rollingstone.com/culture/culture-features/plastic-problem-recycling-myth-big-oil-950957

03 DE MARÇO DE 2020

Como o imenso esquema do petróleo tratado como Big Oil e o imenso esquema das corporações dos refrigerantes tratado como Big Soda mantiveram em segredo uma calamidade ambiental global por décadas

Todo ser humano na Terra está ingerindo quase 2.000 partículas de plástico por semana (nt.: destaque dado pela tradução). Essas minúsculas peças entram em nossos corpos involuntariamente a partir da água da torneira, da alimentação e até pelo ar, de acordo com um alarmante estudo acadêmico patrocinado pelo World Wildlife Fund for Nature, fornecendo a cada um de nós cinco gramas de todo tipo de plásticos. E estes, muitos agregados com produtos químicos ligados a cânceres, a e àquelas substâncias que geram retardos no desenvolvimento de todos os seres. Desde a publicação deste trabalho no ano passado, o senador Tom Udall, um democrata com claro sotaque do Novo México que gosta de chapéus de caubói brancos e gravatas turquesa, vem anunciando o risco: “Estamos consumindo quantidade de plástico equivalente ao tamanho de um cartão de crédito, toda semana”, Udall diz. Em eventos com eleitores, ele mostrará seu cartão de crédito Visa e clamará: “Todos estamos comendo isso aqui, pessoal!”

Com a nova legislação, a Lei de Libertação da Plástica (Break Free From Plastic Pollution Act) de 2020, o senador Udall está tentando organizar os moradores da cidade de Washington em um confronto com a indústria de plásticos para se forçar as empresas que lucram com o plástico, a assumirem a responsabilidade pelos descartes que criam e promovem. Apresentado em fevereiro último, o projeto proibiria muitos plásticos descartáveis, obrigando que as corporações financiem projetos de “fim da vida dos plásticos” para mantê-los fora dos ambientes. “Estamos voltando a este princípio”, diz o senador à Rolling Stone: “de que é o poluidor quem paga.”

A batalha coloca Udall e seus aliados no Congresso, contra alguns dos interesses corporativos mais poderosos do planeta, incluindo as principais empresas do e as gigantes petroquímicos que produzem as bases para nosso mundo plástico moderno. Para isso, pensemos na Exxon, Dow e Shell, e os gigantes consumidores como Coca-Cola, Nestlé e Unilever (nt.: destaques dados pela tradução), que embalam seus produtos. 

A Big Plastic não é uma entidade única. 

É mais como um supergrupo corporativo: a Big Oil encontra a Big Soda – com uma baforada de Big Tobacco, responsável por trilhões de bitucas de cigarro feito com plásticos e lançadas ao meio ambiente todos os anos. 

E no mundo concreto o que se vê? A dramática combinação do poder tanto de lobby como dos setores de relações públicas de todos os três.

Ocasionalmente, os norte americanos lutam contra certos “plásticos problemáticos” – bodes expiatórios – saquinhos de amendoins, sacolas de supermercado ou canudos vistos como os pecados de nossa insustentável de consumo. Temos demorado a reconhecer que estamos realmente no meio de uma pandemia de plástico. Nos últimos 70 anos, ficamos viciados em produtos descartáveis e mercadorias embaladas ​​- o plástico se tornou a alma da cultura norte americana da velocidade, da conveniência e dos descartáveis que acabou conquistando todo o mundo. O plástico vai do nosso café quente até os jantares congelados. É o material que envolve nossa infância, com brinquedos que vão desde as marcas Pampers à Playmobil até à PlayStation 4. Ele se imiscui em nossas compras do comércio eletrônico e é o tecido de nossos tênis, da moda rápida e dos negócios das roupas feitas com o calor do fleece (nt.: ou seja, baseadas na resina plástica poliéster). Agora, os seres humanos estão usando um milhão de garrafas de plástico por minuto e 500 bilhões de sacos de plástico por ano – incluindo aqueles usados para empacotar o carregado de plástico.

Mas o lixo plástico do mundo não é tão facilmente mantido num lugar ‘seguro'. Quantidades maciças desse material vivo para sempre (nt.: em inglês os célebres ‘forever chemicals') estão chegando nos – o equivalente a uma carga de caminhão basculante a cada minuto. O plástico também está se incrustando em nossas montanhas, imiscuindo-se em nossas terras agrícolas e se transformando em um desastre ambiental inegável. John Hocevar é um biólogo marinho que lidera a Campanha Oceans da ong Greenpeace e liderou a resposta do grupo ao derramamento de óleo da BP (nt.: British Petroleum) no Golfo do México em 2010. Cada vez mais, seu trabalho se concentra em plásticos. “Esse é um problema muito maior do que ‘apenas' uma questão oceânica ou mesmo uma questão de poluição”, diz ele. “Encontramos plástico em todos os lugares que já vimos. É no Ártico e na Antártica bem como no meio do Pacífico. Está nos Pirineus e nas Montanhas Rochosas. Está flutuando pelo ar. Está chovendo sobre nós.”

Mais da metade do plástico atualmente existente na Terra foi criado desde 2002, e a poluição do plástico está prestes a dobrar até 2030. Na sua origem, a crise global do plástico é um produto do nosso vício em combustíveis fósseis. O lucro privado e os danos públicos da indústria petrolífera são bem compreendidos: o petróleo é refinado e distribuído aos consumidores, que se beneficiam da vida útil e curta da gasolina em um motor de combustão, deixando para trás a por gerações. Mas este mesmo padrão – e esta mesma tragédia comunitária – está se desenrolando com outro presente dos gigantes de petróleo e gás, cuja perfuração atrai os precursores do petróleo para plásticos. Eles são refinados em complexos industriais que se transformam em garrafas, sacolas, embalagens, tecidos e brinquedos voltados todos para consumidores que se beneficiam de seu uso transitório – antes de jogá-los fora.

“O plástico é apenas uma maneira deles produzirem combustível fóssil”, diz Jim Puckett, diretor executivo da Basel Action Network/BAN. O BAN dedica-se à aplicação da Convenção de Basileia, um tratado internacional que impede o mundo desenvolvido de despachar seus resíduos tóxicos para o mundo em desenvolvimento. Ela foi recentemente ampliada para que a partir do próximo ano, inclua-se também os plásticos. Para os norte americanos que religiosamente classificam sua , é preocupante ouvir sobre o plástico ser misturado e considerado lixo tóxico. Mas esta correlação a ser um material venenoso é pertinente. 

Quando se trata de plásticos, o conceito de é impróprio. “Eles realmente venderam às pessoas a ideia de que os plásticos podem ser reciclados. No entanto, há sim uma fração deles que são, mas o restante não é”, diz Puckett. “É um embuste, uma fraude. Quando você estuda a reciclagem dos plásticos, percebe que é um mito.”

Desde 1950, o mundo criou 6,3 trilhões de quilos de lixo plástico – e 91% nunca foi reciclado uma única vez, de acordo com um estudo de 2017 publicado na revista Science Advances . Ao contrário do alumínio, que pode ser reciclado repetidamente, o plástico é degradado no reprocessamento e quase nunca é reciclado mais de uma vez. Uma garrafa de refrigerante de plástico, por exemplo, pode ser reciclada em um carpete (nt.: no caso, garrafa pet que é poliéster como o fio que tece o carpete). A tecnologia moderna quase não melhorou as coisas: dos 78 bilhões de quilos de materiais de embalagem de plástico produzidos em 2013, apenas 14% foram coletados para reciclagem e apenas 2% foram efetivamente reciclados para competir com o plástico virgem. “A reciclagem somente posterga, em vez de evitar a disposição final”, escrevem os autores da Science . E a maioria dos plásticos persiste por séculos.

À medida que a economia globalizada cresceu, a realidade tóxica foi escondida lá no exterior dos . Os plásticos jogados aqui fora foram recolhidos em instalações domésticas de reciclagem, que visavam garrafas de plástico transparentes mais fáceis de classificar e reprocessar, jarras de leite e recipientes de detergente. No entanto, o que sobrou, foi amarrado em fardos sujos e enviadas para a Ásia. “A China os levou porque havia um alto valor deste material por lá”, disse um ex-executivo de gerenciamento de resíduos à Rolling Stone. Muitas vezes, diz ele, os recicladores chineses “jogavam esses fardos no rio para separarem os materiais e escolherem as melhores coisas. E então eles simplesmente deixam o resto ir rio abaixo”. Os plásticos-alvo não eram reciclados em instalações de última geração, eram triturados e derretidos em fábricas rudimentares – muitas vezes cuidadas por famílias inteiras, incluindo crianças -, que viviam uma vida tóxica em meio a montanhas de lixo importado.

Vendo o perigo político em sua crescente crise de poluição, a China bloqueou a maioria das importações de plástico em 2018, e essa política chamada de “Espada Nacional” (nt.: em inglês – “National Sword”) abalou os mercados internacionais de reciclagem. Tentativas de recriar o modelo da China em economias menos autoritárias do sudeste da Ásia saíram pela culatra em poluição e protesto – afastando a cortina do que um executivo de resíduos descreve à Rolling Stone como “nosso pequeno segredo sujo”: os norte americanos que acreditavam que estavam desviando o plástico do lixo estavam, ironicamente, alimentando uma crise de resíduos a meio mundo de distância. “É fácil encontrar embalagens americanas e europeias poluindo o interior do sudeste da Ásia”, afirma um relatório de 2019 da coalizão Break Free From Plastics, que coordena uma auditoria global anual de resíduos plásticos. “Quando as pessoas no norte global jogam algo ‘fora', muito disso acaba no sul global porque não existe algo que possa ser jogado ‘fora'.”

O pior de nossa crise global de plásticos é suportado pelos oceanos. Aproximadamente 8 bilhões de quilos de plástico entram nas águas do mundo todos os anos e o problema é mais grave nas economias costeiras emergentes. O volume que entra nos oceanos pode ser difícil de entender, admite Jenna Jambeck, professora de engenharia da Universidade da Geórgia que publicou uma ciência pioneira que quantifica o “vazamento” de plástico para os oceanos. “É igual a cinco sacolas do tamanho de uma de supermercado, cheias de plástico para cada metro de costa do mundo”, diz ela. “Se você nos imaginar em pé, lado a lado, cobrindo a costa do mundo inteiro, é isso que está diante de cada um de nós.”

Os plásticos marinhos apanhados pelas correntes se acumulam em enormes “giros” oceânicos – o Great Pacific Garbage Patch agora tem o dobro do tamanho do Texas. São derrames petroquímicos em turbilhão, mas, diferentemente do petróleo bruto, as longas cadeias moleculares dos plásticos não existem na natureza e não são significativamente biodegradáveis (nt.: destaque feito pela tradução). “As mesmas propriedades que tornam o plástico tão versátil” , escrevem os autores da Science Advances , incluindo Jambeck, “tornam esses materiais difíceis ou impossíveis de serem assimilados pela natureza” (nt.: destaque feito pela tradução). Em vez disso, os plásticos a granel se desgastam em microplásticos – uma categoria para partículas menores que 5 milímetros, ou aproximadamente a largura da unha do seu dedo mindinho – se deteriorando ainda mais em partículas nanoplásticas.

Em águas abertas, os plásticos são consumidos por peixes, aves marinhas e mamíferos – que estão desaparecendo mortos em grande número. No ano passado, as baleias na Itália e nas Filipinas morreram com apenas algumas semanas de intervalo, com o estômago cheio de sacos de plástico não digeríveis. Em dezembro, um cachalote desembarcou na Escócia com mais ou menso 100 quilos de plásticos em seu intestino. A poluição visível na superfície do oceano representa apenas 1% do que os seres humanos jogaram nos oceanos. O resto fica embaixo, incluindo 11 quilômetros de profundidade na Fossa das Marianas, onde os pesquisadores avistaram e mediram microplásticos em concentrações de 2.000 peças por litro. Sem mudanças drásticas, a quantidade de plástico que entra nos oceanos todos os anos, já intolerável, é projetada para mais do que o dobro até 2025.

LHOKSEUMAWE, ACEH, INDONÉSIA - 2020/01/14: Vacas e garças procuram comida em um aterro sanitário em Lhokseumawe, província de Aceh.O relatório do Banco Mundial mostra que cerca de 105 mil toneladas de lixo municipal são produzidas diariamente na Indonésia.  Espera-se que esse número aumente em 150 mil toneladas até 2025. Os resíduos municipais mal administrados entrarão nos cursos de água e acabarão se tornando um problema para os oceanos da Indonésia.  A análise realizada pelo Banco Mundial em 2018 em 15 cidades do centro e oeste da Indonésia mostra que a composição dos resíduos municipais varia, 44% de resíduos orgânicos, 21% de fraldas e 16% de sacos plásticos.  (Foto de Zikri Maulana / SOPA Images / LightRocket via Getty Images)
Gado pastando na Indonésia. Por décadas, a América do Norte exporta resíduos plásticos. “Nosso pequeno segredo sujo”, um executivo chama. Crédito da foto: Zikri Maulana / SOPA Images / LightRocket / Getty Images

A história em terra firme é dificilmente mais reconfortante. O plástico é amplamente utilizado na e “a poluição microplástica é algo entre quatro e 23 vezes maior no solo do que no mar”, diz Lili Fuhr, editora do Plastic Atlas, que documenta o alcance da poluição plástica global. Microplásticos, supostamente carregados pelos ventos, foram encontrados em ambientes terrestres primitivos, incluindo as calotas polares. No Colorado, microfibras plásticas foram descobertas na precipitação. “Está na chuva, está na neve”, lamentou o pesquisador da Pesquisa Geológica dos Estados Unidos (nt.: em inglês – United States Geological Survey), Greg Wetherbee. “Agora é um dos componentes do nosso ambiente”. Até aterros sanitários podem estar criando riscos a longo prazo. Um estudo de 2019 em Pesquisa sobre Água (nt.: Water Research) constataram contaminação microplástica de até 24 partes por litro no escoamento de aterros, oferecendo “evidências preliminares … de que o aterro não é o sumidouro final de plástico”, escreveram os pesquisadores, “mas uma fonte potencial de microplásticos”.

Essa poluição é global, impossível de remediar completamente e ameaça perturbar os sistemas naturais – incluindo aqueles que permitem que os oceanos removem carbono da atmosfera. “Os seres humanos estão conduzindo um experimento sem controle e singular em escala global”, escrevem os pesquisadores da Science Advances, “nos quais bilhões de toneladas métricas de material se acumularão em todos os principais ecossistemas terrestres e aquáticos do planeta”.

Todos somos cobaias neste experimento, pois os plásticos se acumulam na cadeia alimentar, aparecendo em frutos do mar, sal de cozinha e, ironicamente, mesmo em água engarrafada. Muitos plásticos são misturados com uma mistura tóxica de corantes, retardadores de chama (nt.: ver o link e este também) e plastificantes

Joe Vaillancourt é o CEO de uma empresa que refina resíduos plásticos em combustível – um processo que requer a remoção de tais contaminantes da reciclagem na calçada. “Em um pequeno lote de menos do que 5 quilos”, diz ele, “encontramos mil produtos químicos diferentes”. Alguns desses estão ligados ao e a graves problemas de saúde. À medida que os plásticos se decompõem com o tempo, eles também podem absorver toxinas do ambiente, incluindo PCBs.

A ameaça à saúde humana é complexa e pouco compreendida. “Há muito mais perguntas do que respostas neste momento”, diz Mark Hahn, toxicologista da Instituição Woods Hole Oceanographic que estuda microplásticos. Provavelmente, algum plástico passa pelo intestino humano como muita areia, diz ele. Mas os cientistas descobriram que pequenas partículas de plástico podem se insinuar na corrente sanguínea dos mexilhões e nos órgãos dos peixes. Os nanoplásticos transportados pelo ar também podem ser inalados pelos pulmões. “Eles estão se alojando em algum lugar e fisicamente bloqueando alguma coisa, ou causando uma reação inflamatória ou estão carregando seus aditivos e contaminantes e estão se dirigindo a algum lugar – será que não é no cérebro?” pergunta Hahn. Ele é um cientista sóbrio e cético e está preocupado com a crescente maré de plástico no meio ambiente. “Se é um problema agora”, diz ele, “imagina como vai se tornando no futuro? Cada vez pior.”

A história de como entramos neste imbróglio é curta, moderna e insidiosamente norte americana. Isto é, no final da década de 1860, um inventor barbudo de Nova York procurou reivindicar um prêmio de US $ 10.000 desenvolvendo uma alternativa ao marfim. Com um polímero primitivo, John Wesley Hyatt criou – e depois vendeu para o público consumidor – bolas de bilhar de plástico, teclas de piano e dentes falsos.

Estas moléculas que eram artificiais e plásticas foram industrializados no início de 1900 por Leo Baekeland, um imigrante belga cujo polímero chamado de baquelite (nt.: honrando o sobrenome do industrial) resistia a altas temperaturas e isolante contra eletricidade. 

Apresentado como “o material de mil usos” – seu logotipo, um “B”, flutuando acima do símbolo matemático do infinito – a baquelite se tornou parte integrante das indústrias automotiva e elétrica, bem como de bens de consumo como dominó, receptores de telefone e discos com velocidade de 78 rpm.

Os plásticos entraram na vida norte americana com a invenção do nylon na década de 1930. E sua versatilidade os tornou indispensáveis ​​para os militares na Segunda Guerra Mundial, por seu uso em pára-quedas, pneus e janelas de acrílico. O plástico cresceu como uma marca registrada da cultura de consumo dos EUA no pós-guerra, mas este material da abundância também se tornou um marcador de excesso sem alma que horrorizou o personagem de Dustin Hoffman no filme The Graduate (nt.: chamado em português de “A primeira noite de um homem”), quando alinhou suas perspectivas de carreira futura em uma festa – e lançando seu paradigma: “Plásticos… Há um grande futuro neles.”

As virtudes do plástico são tão reais agora quanto eram antes. “O plástico nos permite fazer mais com menos”, insiste Steve Russell, vice-presidente da Divisão de Plásticos do Conselho Americano de Química (nt.: em inglês – Plastics Division junto ao American Chemistry Council), que representa empresas petroquímicas. (Russell anunciou sua aposentadoria no início de 2020.) “Seja para tornar os carros mais leves, para que usem menos ou os edifícios, mais eficientes. Eles nos permitem fornecer água potável e sanitária através de tubos de plástico que não corroem”. Apontando para o uso generalizado de plásticos na medicina, ele destaca seus inigualáveis “benefícios de higiene, saúde e segurança”.

No entanto, além desta lista de casos essenciais, duráveis ​​ou tecnicamente exigentes, o plástico também se uniu à cultura descartável moderna. Até 40% dos plásticos produzidos hoje são utilizados em embalagens. O filme The graduate estreou em 1967, e esta época marca um ponto de alavancagem para a indústria. Na Primeira Conferência Nacional de Resíduos de Embalagens, em 1969, o gerente ambiental da Dow Chemical apresentou um artigo sobre o crescimento explosivo de plásticos descartáveis em “cafeterias … universidades, hospitais, companhias aéreas, restaurantes, etc”. Ao elogiar o desempenho destes “materiais duráveis ​​que podem permanecer para sempre“, ele fez soar um alarme sobre os “problemas de descarte”. Ele previu um dilúvio iminente de resíduos plásticos e insta para que a indústria feche os olhos – “e há aqueles que optaram por fazerem exatamente isso”. Mas insiste de que a incineração seria a “solução definitiva”. No entanto, confessa: “Vai custar um monte de dinheiro para alguém”.

Longe de financiar uma solução para o de plástico, a resposta corporativa mais ampla foi financiar setores de relações públicas para criarem a imagem de que os culpados pela poluição dos plásticos são, nada menos, do que os consumidores. 

A Keep America Beautiful – uma organização sem fins lucrativos financiada, na surdina, pela indústria – começou a exibir famosos anúncios de serviço público em 1971 com a presença de uma caricata figura de um “índio” (na verdade, um ator hollywoodiano típico de filmes de bang-bang tipo espaguete italiano) remando em águas repletas de lixo como copos de isopor, sacos e outros onde aparecia o slogan “Pessoas começam com a poluição. Pessoas podem parar com isso.”

De fato, a KAB foi fundada para impedir as proibições estaduais sobre as embalagens descartáveis, de acordo com arquivos revisados por nossa publicação Rolling Stone

E os empreendedores industriais da época conclamavam o fim das garrafas de vidro de cerveja e refrigerantes retornáveis por ser uma “barreira para o crescimento”, porque cada garrafa reutilizável retirada de circulação “significa a venda de 20 embalagens descartáveis”. 

Em 1978, a Coca-Cola adotou sua primeira garrafa de refrigerante de plástico – provocando uma mudança que conquistou o planeta. Quatro décadas depois, o mundo está usando meio trilhão de garrafas de plástico por ano.

Para ajudar a manter a poluição fora da vista, as principais empresas das corporações do mundo do Big Plastic continuaram a financiar a KAB, que passa a organizar trabalho voluntário de coleta de lixo em terra, assim como a Ocean Conservancy, patrocina limpezas costeiras das praias do planeta. Desde 2017, as 10 principais categorias de lixo coletadas nas limpezas de praia são compostas por um material: plástico.

A Ocean Conservancy diz que se dedica a “acabar com o fluxo de lixo na fonte”, mas os críticos acusam o grupo de um pecado de omissão. As limpezas registram até a última garrafa de plástico (1.754.908 no esforço mais recente), mas não vinculam o lixo às empresas que o produziram. Somente nos últimos anos a Break Free From Plastics lançou uma rede concorrente de limpeza, registrando as marcas comerciais dos produtos que descobriam. Em 2019, sua auditoria apontou um trio das marcas de consumo mais ricas do mundo como os principais poluidores de plástico: Coca-Cola, PepsiCo e Nestlé (nt.: destaque dado pela tradução). 

“Fiquei pessoalmente triste com isso”, diz Bea Perez, diretora de da Coca-Cola (nt.: destaque dado pela tradução), do ranking número um da empresa. “Não queremos ser este número.”

Tanto a KAB como a Ocean Conservancy insistem que seu trabalho não é comprometido pelo financiamento corporativo. Um representante da KAB – cujos diretores incluem executivos da Keurig, Dr. Pepper, Mars Wrigley, Coca-Cola, PepsiCo, Nestlé Waters, Dow Chemicals, Philip Morris e American Chemistry Council (nt.: destaques dados pela tradução)- rejeita a “narrativa” de que a KAB é uma frente corporativa grupo: “Nós não somos. Somos uma organização independente”. Um vice-presidente da Ocean Conservancy – que colocou executivos da Coca-Cola, Dow e do American Chemistry Council no comitê de direção de um relatório recente sobre plásticos oceânicos – disse à Rolling Stone que os problemas dos resíduos de plástico são tão sistêmicos e complexos e que “precisamos de todos – incluindo as empresas – na mesa”.

Olho de cima da cadeira de um operador de guindaste no terceiro andar de uma usina de lixo para produção de energia – o que parece é uma versão real do compactador de lixo do satélite Death Star da série Star Wars.

Bem abaixo, encontra-se um fosso retangular, com 10 metros de profundidade, onde caminhões de lixo municipais dando uma ré e encostando suas traseiras basculam e despejam suas cargas de lixo coletado nos centros urbanos. O lixo aguarda então que “a garra” do guindaste – uma estrutura de 1.500 quilos com seis garras de aço retráteis que recolhe até duas toneladas e meia de lixo em cada elevador – lhe dê o destino final da usina. O operador ao meu lado movimenta a garra, baixando até onde foi depositado o material, carrega o lixo para fora do fosso, solta-o em uma pilha como uma montanha e “afofa-o” para formar uma mistura destinada à queima que deve ser uniforme. Com seu movimento, a garra acaba rompendo sacos grandes de materiais, saindo dali pedaços disformes onde tudo está misturado, como se fossem pústulas de lixo, deixando para trás serpentinas de plástico esfarrapadas.

A melhor alternativa para se encaminhar o plástico em um aterro sanitário não é a reciclagem. É o fogo. Nas últimas seis décadas, muito mais plástico foi incinerado do que coletado para reutilização. Um exemplo é o caso do incinerador que atua fora da cidade de Salem, capital do estado de Oregon, que é operado por um firma privada chamada Covanta. É ela que administra usinas de incineração de lixo similares também na costa leste dos EUA. Ela é encarregada de incinerar o lixo de Nova York e Filadélfia. Por meses, depois que a China se afastou dos mercados de importação de lixo para reciclagem, no ano de 2018, a Filadélfia passou a encarregar a empresa Covanta de incinerar metade do material da “reciclagem” da cidade que não tinha mais para onde ir.

Aproximadamente um terço do lixo total é de plástico. Recentemente, as famílias atendidas por esta usina foram orientadas a jogar fora plásticos de difícil reciclagem (recipientes de iogurte, copos de cerveja e outros). Estes itens agora vão para a incineração. Quando o operador está satisfeito com a mistura na montanha de lixo que fez com a garra, ele eleva uma carga com sua garra a uma altura de 30 metros e a despeja na tremonha do incinerador, alimentando a fornalha que irá gerar eletricidade com a queima deste lixo. A energia gerada será enviada para a rede local. A temperatura extrema do queimador, 2.000 graus, cria uma combustão quase completa que neutraliza a maioria dos compostos tóxicos do plástico (nt: sempre houve muita controvérsia porque os plásticos que são ricos, por exemplo de cloro, como os pvcs, acabam gerando a malfadada dioxina). Mas a incineração retorna o plástico às suas origens como combustível fóssil, criando uma poluição de carbono que escapa através de uma fumaça, por uma chaminé listrada que lembra um pirulito, em um fio branco visível por quilômetros.

O perfil dos gases de efeito estufa dos plásticos é simplesmente insustentável. À medida que o mundo começa a se afastar do combustível fóssil para transporte, os grandes gigantes do petróleo do Texas à Arábia Saudita estão se voltando para o plástico para incrementar seu crescimento futuro. A Agência Internacional de Energia prevê que “a demanda de petróleo relacionada ao consumo de plástico ultrapasse a do transporte rodoviário de passageiros até 2050” e seu alto executivo alerta que o plástico é “um dos pontos cegos principais no debate global sobre energia”.

A indústria está contando com uma onda de novas demandas das economias emergentes. Um relatório da AIE de 2018 destaca que as economias avançadas usam até 20 vezes mais plástico per capita do que os consumidores na Índia ou na Indonésia. E adverte que o aumento da proibição de reciclagem e descartáveis em lugares como Europa e Japão “será superado por economias em desenvolvimento, aumentando drasticamente suas participações no consumo de plástico (assim como seu descarte)”.

Atualmente, a produção e incineração global de plásticos cria uma equivalente poluição de CO2 de 189 usinas de carvão. Em 2050, esse número deve triplicar, para o equivalente a 615 usinas de carvão. Nesse ritmo, os plásticos consumiriam cerca de 15% do “orçamento de carbono” restante do mundo, ou o que pode ser emitido sem ultrapassar o limiar de 2 graus Celsius no aumento da temperatura global que os cientistas alertam que pode causar calamidade.

Pássaro morto e saco de plástico flutuando no oceano;  ID da Shutterstock 1261789855;  Comentários: rs.com
Uma ave marinha sufocada por plástico. Os oceanos sofreram a pior poluição, com o plástico encontrado a 11 quilômetros de profundidade na Fossa das Marianas. Crédito da foto: Krzysztof Bargiel / Shutterstock

Os danos da indústria do plástico ao planeta são enormes, mas não incomensuráveis. De fato, o setor publicou uma contabilidade detalhada que revela que sua poluição está no ritmo certo para causar trilhões de dólares em danos ambientais em meados deste século.

O American Chemistry Council/ACC é um grupo de lobby que representa as grandes empresas petroquímicas e de petróleo que produzem resinas plásticas – a retaguarda do mundo do Big Plastic. Em 2016, o ACC encomendou um estudo da consultoria Trucost – “os principais especialistas mundiais em quantificação e avaliação dos impactos ambientais” da indústria. O ACC pagou por um estudo para demonstrar que os plásticos não são facilmente substituíveis e que muitos de seus substitutos comuns – principalmente o vidro – carregam custos ambientais mais altos ao calcular o peso do transporte.

A Trucost descobriu que o ACC não ruge? “O custo ambiental para a sociedade de produtos e embalagens plásticas de produtos de consumo foi superior a US $ 139 bilhões em 2015”, revela o relatório. Sem uma mudança drástica no curso, prevê Trucost, esse número anual chegará a “US $ 209 bilhões até 2025”.

Em uma entrevista à Rolling Stone, Steve Russell, vice-presidente de plásticos do ACC, reconheceu que os US $ 139 bilhões de dólares “são um grande número”. Advogado, Russell tem uma fala mais folclórica do que habilidosa. Mas isso está longe de ser direto. A quantia gigante, diz ele, “não é uma dívida literal para os nossos balanços”. Mas este é precisamente o ponto. Trucost mediu externalidades – ou os custos pelos quais as empresas não precisam pagar, apesar de gerados por elas, que acabam sobrecarregando a sociedade – incluindo aquelas criadas por “emissões de gases de efeito estufa; poluição do ar; poluição da terra e da água; depleção de água; [e] impactos nos oceanos.”

Trucost alerta que o modelo de negócios da indústria de plásticos seria revertido se novas regulamentações governamentais ou reações dos consumidores, obrigassem às corporações a “internalizarem” estes custos e que realmente pagassem por eles – um desenvolvimento que representaria “um sério risco à lucratividade futura das indústrias de plásticos.”

Grande parte do mundo está acordando para a crise do plástico. Quando a China fechou suas portas ao comércio global de resíduos plásticos, a União Européia, o Canadá e a Índia ampliaram a proibição de plásticos descartáveis, como talheres, pratos, canudos e cotonetes. “Como você explica as baleias mortas que aparecem nas praias de todo o mundo, com o estômago cheio de sacos de plástico?” Perguntou o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau, apresentando a iniciativa de seu país. “Como pai, é difícil tentar explicar essas coisas aos meus filhos.”

Mas sob o presidente Trump, os Estados Unidos estão caminhando na direção oposta, promovendo a expansão agressiva da indústria do plástico. “É uma guerra”, diz Puckett, do Basel Action Networ/BAN, “entre políticas que estão totalmente em desacordo entre si – de fabricar mais plástico e proibir o plástico”.

O fracking americano está literalmente alimentando o aumento global de plásticos. O excesso de gás natural barato nos EUA, provocou uma explosão na nova infraestrutura de plásticos. Desde 2010, de acordo com o ACC, as empresas americanas aumentaram “334 projetos de produtos químicos e plásticos no valor acumulado de US $ 204 bilhões”. A Europa construiu novas fábricas de plásticos alimentadas por exportações das explorações ‘fracking‘ dos EUA. Os ambientalistas alertam que essas instalações atendem à demanda por consumo de combustíveis fósseis por uma geração.

Trump é um impulsionador descarado de plásticos – de acordo com seu serviço à indústria de combustíveis fósseis. O ex-CEO da Dow liderou o conselho de fabricação de Trump. E em julho passado, o presidente visitou um novo complexo de plásticos da Shell nos arredores de Pittsburgh. “Esta instalação transformará abundante gás natural – e temos muito – do fracking dos poços da Pensilvânia – em plástico”, disse Trump. O material, ele se gabou, seria gravado com “aquela frase muito bonita: ‘Made in the USA'”.

Com o presidente defendendo seus interesses em Washington – e até acionando os seus políticos com os canudos de plástico da campanha ‘Trump 2020' – a indústria de plásticos está trabalhando para minar o ativismo popular nas cidades e estados de todo o país.

A Plastics Industry Association, ou PLASTICS, é um dos principais grupos comerciais com sede na K Street (nt.: local onde estão as sedes dos lobbies dos EUA), em Washington/DC. Escondendo sua obra como se fosse bonecas Matryoshka, uma dentro da outra, dos grupos de frente, a PLASTICS trabalhou para impedir proibições estaduais e municipais de plásticos descartáveis. Este grupo recebeu assistência do American Legislative Exchange Council/ALEC (nt.: em português – Conselho de Intercâmbio Legislativo), que pressiona as legislaturas estaduais de direita a aprovarem projetos de lei quase idênticos. Em 2013, o grupo de comércio de plásticos fez um discurso aos membros da ALEC, argumentando que a proibição do plástico “resulta na escolha de vencedores e perdedores em um mercado ‘não tão livre'”. Em 2015, a ALEC começou a advogar leis estaduais mais conhecidas por “proibir proibições” de sacolas plásticas, mas que são muito mais abrangentes, proibindo limites de isopor e “recipientes auxiliares” – um termo genérico para embalagens descartáveis.

A PLASTICS oculta seu envolvimento nestas lutas estaduais por meio de um grupo de frente de “propósito especial” chamado Progressive Bag Alliance, que se renomeou em janeiro último como a American Recyclable Plastic Bag Alliance. A organização administra relações públicas através de outro grupo de frente, o Bag the Ban, que considera o plástico como “a opção mais ecológica no caixa do vendedor”. (Esta aliança afirma que é autofinanciada, mas a PLASTICS emprega seu diretor, de acordo com os registros do IRS, e os grupos compartilham escritórios e despesas gerais.)

Os sacos plásticos ficam presos nas árvores e entopem as calhas, boeiros e outros, para as cidades, eles são um alvo óbvio da regulamentação. “Eles são um lembrete visível da cultura de uso descartável feito pelo consumidor e algo que as pessoas sentem que podem fazer alguma coisa”, diz Jennie Romer, advogada ambiental que construiu o PlasticBagLaws.org e agora dirige projetos de poluição plástica para Surfrider. Proibir sacolas é frequentemente o primeiro passo em uma jornada radicalizante, diz Romer, à medida que os consumidores ficam vigilantes sobre os danos dos plásticos descartáveis ​​de maneira mais ampla. “As leis sobre sacolas plásticas têm sido uma porta de entrada para outras leis sobre plásticos”, diz ela. A cidade californiana de San Jose, por exemplo, aprovou uma proibição em 2011 de sacolas que provocou uma proibição em todo o estado da Califórnia, mais tarde defendida pelos eleitores em um referendo de 2016 que a Bag Alliance gastou mais de US $ 6 milhões nesta votação. No ano passado, a Califórnia quase aprovou a proibição de plásticos descartáveis. “Não sei se chegaremos lá”, diz Romer, “a menos que comecemos com os sacos plástico”.

O sucesso dos estados democratas, do Havaí a Nova York, na proibição de sacolas plásticas foi compensado pelo impulso liderado pela indústria. A PLASTICS diz que se separou da ALEC, mas cerca de 15 estados republicanos agora têm leis que impedem as proibições locais de plástico, com Oklahoma, Dakota do Norte e Tennessee se juntando ao grupo em 2019. (A ALEC não respondeu às perguntas da Rolling Stone .)

Por enquanto, as proibições estaduais estão suspensas no tribunal. A cidade de Coral Gables, Florida, próxima a Miami, viu um par de ordenanças derrubadas pela lei de prevenção de plásticos da Flórida, e o prefeito Raúl Valdés-Fauli está furioso. “Temos 200 milhas de costa”, ele diz à Rolling Stone . “Banimos os sacos de plástico. Também banimos isopor. Nós estamos indo para canudos de plástico. É vital que se vá para cima deles, a fim de preservar o meio ambiente.” Coral Gables está levando a luta para a Suprema Corte do estado.

A poderosa Federação de Varejo da Flórida insiste que não deveria ter que lidar com uma colcha de retalhos de regulamentos locais. Mas Romer vê uma motivação mais sombria em jogo. “É difícil mudar uma lei estadual”, diz ela, “se você não tem a capacidade de trabalhar localmente”. Ao atacar nas câmaras estaduais, ela acrescenta, “a indústria é capaz de matar os movimentos populares”.

À medida que a crise mundial do plástico cresce – e as fotos de filhotes de albatroz em decomposição em torno dos resíduos indigestos de plástico que os mataram se tornam virais -, o setor está silenciosamente agonizando com a reação dos usuários de canudos de metal e os portadores de garrafas d'água portáteis das gerações dos anos 90 e 2000. “O plástico de alguma maneira, com sua garrafa d'água descartável tornou-se como o casaco de vison ou o maço de cigarros por seus aspectos socialmente questionáveis”, confessou um gerente sênior de sustentabilidade da Nestlé Waters em uma conferência no ano passado. “Socialmente estes descartáveis não são muito aceitos pelos jovens e isso me assusta.”

Ao contrário da mudança climática, a crise do plástico não foi recebida com negação corporativa. As empresas do Big Plastic estão tentando convencer os consumidores e os legisladores – apesar de terem desencadeado esta torrente de poluição no planeta – de que eles podem confiar em soluções pioneiras que tornarão sustentável o uso do plástico. Eles estão promovendo uma “economia circular”, na qual o plástico usado não se torna lixo, mas sim uma matéria-prima para novos produtos. Um cínico pode traduzir o conceito em: Reciclagem, mas agora é real. “Existem muitos compromissos corporativos diferentes”, diz Shilpi Chhotray, líder do movimento Break Free From Plastics. Enquanto alguns são promissores, outros “apenas fazem greenwashing/lavagem verde”, ela insiste, com a intenção de dar cobertura à indústria para seu verdadeiro objetivo: “crescimento”.

Há uma divisão acentuada na seriedade da resposta da indústria entre os produtores de plásticos de retaguarda e as marcas de consumo mais próximas da explosão. Do lado do produtor, o American Chemistry Council assumiu um papel global no gerenciamento de crises. Adotou compromissos voluntários que dão a seus membros décadas para mudarem hábitos. Os membros do ACC se comprometeram a tornar todas as embalagens plásticas “recicláveis ​​ou recuperáveis” até 2030, visando que esse material seja “reutilizado, reciclado ou recuperado”, na prática, até 2040. “Eles são muito ambiciosos”, insistiu Russell do ACC sobre estas metas. “Havia muito mal estar em articulá-los, porque não sabíamos que podíamos ir tão rapidamente.”

No entanto, ao mesmo tempo em que promove “o impulso em direção a uma economia circular”, o ACC também está defendendo a tecnologia que transforma resíduos de plástico em combustíveis fósseis, incluindo diesel. O ACC chama isso de “reciclagem avançada”. Puckett, chefe do BAN, chama isso de ‘malandragem': “Eles vão tentar comercializar a queima de plástico como algum tipo de carvão verde”, alerta ele.

O ACC também ajudou a lançar a Alliance to End Plastic Waste (nt.: em português – Aliança para Acabar com o Desperdício de Plástico). Seus membros são principalmente produtores – ExxonMobil, Shell, Dow, Total, BASF – mas também incluem Procter & Gamble (nt.: destaques dados pela tradução). Como muitas marcas de consumo, a P&G está focada nas economias emergentes vendendo pacotes plásticos de sabonetes e detergentes descartáveis. Estes ‘sachets‘ não são recicláveis, sendo uma das principais formas de lixo de resíduos plásticos na Ásia. Os membros da Alliance prometem gastar US $ 1,5 bilhão em cinco anos para “minimizar e gerenciar o lixo plástico … para mantê-lo fora do meio ambiente”. Por grande que seja, esse compromisso de US $ 1,5 bilhão representa uma fração do dano que a indústria está causando aos oceanos em um único ano – US $ 13 bilhões, pelas Nações Unidas. E um projeto piloto para manter o plástico fora do rio Ganges, na Índia, depende, em parte, da distribuição de equipamentos para transformar resíduos em combustível. Ninguém da Alliance falou com o nosso periódico Rolling Stone . Mas Russell, do ACC, admitiu que “US $ 1,5 bilhão não é suficiente”, enfatizando: “É só um começo. Não é o fim.”

Uma iniciativa mais ambiciosa vem das marcas voltadas para o consumidor do Big Plastic. A New Plastic Economy é administrada pela Ellen MacArthur Foundation, sediada em Londres, e apoiada por gigantes corporativos como Coca-Cola, PepsiCo e Unilever, além do U.N. Environmental Program/UNEP (nt.: em português – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente/PNUMA) (nt.: destaques dados pela tradução). Notavelmente, o projeto fez com que as empresas dependentes de plástico revelassem pela primeira vez o quanto elas usam a cada ano. Os números são impressionantes, liderados pela Coca-Cola em 3 bilhões de quilos, PepsiCo em 2,3 bilhões, Nestlé em 1,7 bilhões e Unilever em 700 milhões.

Os objetivos da New Plastic Economy incluem eliminar alguns plásticos problemáticos, comprometendo-se até 2025, a um ‘nível ambicioso' de 100% de embalagens plásticas reutilizáveis, recicláveis ​​ou compostáveis. Sander Defruyt, líder do projeto, rapidamente chama de besteira as iniciativas de transformar plásticos em combustível – “isso não é reciclagem”, diz ele, “e não faz parte de uma economia circular” -. Além disso admite que os membros do projeto mostraram “uma enorme falta de visão sobre progresso” em modelos pioneiros essenciais para reutilização. Ele insiste que o mundo não pode reciclar seu atual caminho para sair deste problema. A economia circular “não se refere a manter o sistema atual e aumentar a taxa de reciclagem”, diz ele. “Trata-se de mudar fundamentalmente o sistema.”

Nenhuma empresa está tão a cavalo, montada nas correntes da crise global do plástico, como a Coca-Cola. A dependência plástica da empresa é gritante. Produziu 117 bilhões de garrafas plásticas em 2018, de acordo com seu relatório de sustentabilidade. A empresa possui uma taxa de reciclagem de 52% para essas garrafas – muito acima da média. Mas a mesma matemática indica que mais de 56 bilhões de suas garrafas se tornaram resíduos. São aproximadamente sete embalagens para cada ser humano no planeta.

A Coca-Cola terminou recentemente sua associação à Plastics Industry Association – “nossos valores não se alinharam”, disse Perez, diretora de sustentabilidade da empresa, à Rolling Stone . Também se comprometeu com sua própria iniciativa World Without Waste, prometendo “coletar e reciclar o equivalente a cada garrafa ou lata que vender globalmente” até 2030.

BROOKLYN, NY - 25 DE JULHO: Latas e garrafas coletadas por caners de rua são classificadas e ensacadas, aguardando a coleta, uma cooperativa de reciclagem em 25 de julho de 2018 em Bushwick, Brooklyn.  (Foto de Andrew Lichtenstein / Corbis via Getty Images)
Latas e garrafas coletadas por catadores de lixo nas ruas, são classificadas e ensacadas, aguardando o carregamento, em uma cooperativa de reciclagem em Bushwick, Brooklyn. Crédito da foto: Andrew Lichtenstein / Corbis / Getty Images

O resumo de Perez é amplo: ela também atua como chefe de comunicações, assuntos públicos e ativos de marketing da empresa. As iniciativas de sustentabilidade da Coca-Cola também parecem aninhadas em um contexto de marketing. Em uma recente apresentação para investidores, a empresa pressionou questionando se os jovens que adotavam garrafas recarregáveis, ​​seriam uma ameaça para os resultados: “O que é interessante”, respondeu Perez, “é que quanto mais conscientes se tornam sobre a economia circular e transformam-na noutra coisa, mais receptivos eles se tornam” ao plástico.

A Coca-Cola desviou as questões sobre a mudança para um material como o alumínio, que tem um valor intrínseco maior e é menos perigoso como resíduo. Perez destaca, em vez disso, os esforços da empresa para tornar suas garrafas plásticas mais leves e fáceis de reciclar. Deixando em aberto de que a “garrafa do futuro” pode ser feita de um material “mais responsável”. Perez insiste de que o plástico é “uma embalagem viável desde que cheguemos à economia circular”. Mas chegar lá, ela acrescenta, exigirá uma ação global coordenada. “Vamos agir e pedir aos outros que se juntem a nós. Precisamos que todos participem”, ela insiste, “porque o tempo está acabando”.

Em toda a indústria do plástico, os executivos discutem sobre o potencial da “reciclagem química” – um processo que decompõe o plástico em seus componentes moleculares, que podem ser reprocessados ​​para produzir plástico como novo. “Poderíamos realmente manter todos esses materiais em circularidade sem nenhuma degradação”, diz Kim Holmes, vice-presidente de sustentabilidade da PLASTICS. “Gosto de pensar nisso como se nos levasse a um estado infinito de polímero”.

Para avaliar a viabilidade da tecnologia, visito uma empresa do estado de Oregon chamada Agilyx, que se vende como “a única solução de economia circular do mundo para plásticos”. Quando entro no estacionamento, em uma zona industrial fora dos limites da cidade de Portland, encontro um homem de meia-idade descarregando de sua camionete, longos blocos de isopor, quase tão altos quanto ele, para uma caçamba de lixo suja com a marca “Public Polystyrene Drop Off“.

A Agilyx recicla o notório eco-vilão: isopor. As matérias-primas aqui incluem caixas para transportar peixe congelado, embalagens de espuma para TVs e tijolos de isopor usados ​​pela indústria madeireira para cultivar mudas para replantio. No dia da minha visita, estes tijolos desgastados pelo tempo estão empilhados com cerca de 6 metros de altura dentro do armazém da empresa. “Não precisamos pré-processar”, diz o CEO Joe Vaillancourt. “Não precisamos limpá-lo. Estamos voltando direto para a molécula”.

O processo começa esmagando o isopor e quebrando-o em seixos que lembram quartzo. Este material é misturado com pedaços de poliestireno não expandido – material usado para fazer os copos vermelhos de poliestireno. A mistura viaja pela correia transportadora e é despejada em um reator que transforma o plástico em gás, descompacta o polímero de plástico para produzir um óleo de estireno que é resfriado e bombeado em barris pretos para remessa a um fabricante de isopor.

A fábrica lida com 10 toneladas de material por dia. Mas não é livre de resíduos. O reator cospe um resíduo pesado de carbono preto dos contaminantes do plástico e produz um gás residual semelhante ao propano que é queimado na atmosfera. O processo de gaseificação – conhecido como pirólise – também consome muita energia, dependendo de calor e alta pressão. Mas a Agilyx insiste que seu produto cria 70% menos poluição do que começar com combustíveis fósseis.

Vaillancourt propõe a reciclagem de produtos químicos como uma redução de danos ambientais. Quem sonha com um mundo livre de plástico está fazendo exatamente isso, sonhando. “Existem 7 bilhões de pessoas no mundo cuja vida diária depende cada vez mais disso”, diz ele. “Não vai desaparecer.” O mundo está usando quase 400 bilhões de quilos de plástico por ano – e a demanda está crescendo. “Pode-se proibir o descartável quanto quiser”, diz ele. “Mas na realidade, não vai haver uma apreciável eliminação na quantidade de plásticos.”

A reciclagem química está em seus primórdios. E muitos ambientalistas a consideram uma “distração” que ainda não provou ela mesma se não outra coisa do que uma tecnologia de nicho dispendiosa – unindo bioplásticos e alternativas compostáveis ​​que há muito se destacam por oferecer um caminho para a sustentabilidade, mas falharam em reivindicar qualquer participação de mercado real . A Coca-Cola divulgou recentemente um lote de garrafas de refrigerante feitas com resíduos reciclados quimicamente do mar. Mas fabricou apenas 300 embalagens, ressaltando questões de custo e escalabilidade.

Villaincourt admite que “as indústrias de resíduos e reciclagem existentes nunca foram criadas” para abastecer empresas como a dele e que muitas empresas podem ganhar mais dinheiro em aterros sanitários. “Para que isso realmente seja muito grande”, ele diz, exigirá interrupção desta solução – inclusive pelo governo. “Algumas empresas vão esperar até que seja legalizado”, diz ele. “Por causa do lucro, não há razão para mudar.”

As ações voluntárias do setor para conter a poluição por plásticos são motivadas por dois motivos claros: um é proteger o meio ambiente e o outro é proteger os lucros das leis proibitivas. “Nenhum de nós quer viver em um mundo onde o lixo não é gerenciado”, diz Steve Russell, do ACC. “Nenhum de nós quer ter as conseqüências ambientais ou legais de um sistema não gerenciado”.

Em Washington, a indústria de plásticos está pedindo ao governo e aos contribuintes americanos que paguem a conta para revitalizarem a indústria de reciclagem moribunda. A Lei RECOVER – apoiada pelas organizações PLASTICS e ACC – ofereceria US $ 500 milhões em fundos federais correspondentes para investimento em nova infraestrutura. Neste verão, a PLASTICS exibiu um projeto de demonstração com máquinas de varredura de alta tecnologia e infravermelho próximo que podem segregar plásticos pelo tipo de polímero, melhorando os recicladores humanos que não conseguem distinguir entre dois copos de iogurte de aparência idêntica, cada um feito com diferentes plásticos .

Para o senador Tom Udall, nossa ingestão involuntária de resíduos plásticos é uma prova de que o país não pode esperar décadas para que os poluidores de plástico reformem suas próprias práticas ou conte com meias medidas para reforçar o atual sistema de reciclagem. “Estamos além do ponto de crise do lixo plástico”, diz ele, “e as pessoas estão começando a acordar”. O senador quer que haja consequências sobre uma indústria que despreza seus danos ambientais, e já vem jogando para o restante da sociedade, ou seja, nós, todo este ônus, há muito tempo.

Washington está atrasado no jogo quando se trata de regulamentação de plásticos, e a estratégia da Udall é adotar as melhores práticas de todo o mundo. A Lei de Libertação de Poluição Plástica imitaria a Europa ao proibir plásticos descartáveis ​​comumente poluidores, incluindo sacolas plásticas, copos de isopor e recipientes de ‘delivery' e ‘de viagem', além de utensílios de plástico. Canudos de plástico seriam permitidos somente mediante solicitação.

O projeto expandiria o mercado de plásticos reciclados, criando um conteúdo mínimo reciclado para recipientes de bebidas, além de impor um depósito de 10 centavos em cada recipiente vendido – levando brevemente para todo o país os modelos de Michigan e Oregon, onde os moradores devolvem para reciclar, perto de nove em cada 10 recipientes.

O projeto criaria “responsabilidade ampliada do produtor” – responsabilizando a indústria pelo desperdício que cria, exigindo que os produtores “projetem, gerenciem e financiem programas para coletar e processar resíduos que normalmente sobrecarregariam os governos estaduais e locais”. Udall enfatiza que a indústria de hoje dificilmente está desperta, muitas vezes até colocando um rótulo de não reciclável em uma garrafa reciclável. Ele insiste que a regulamentação impulsionará a inovação, para que a reciclabilidade se torne um objetivo principal do design do produto. “Estamos tentando mudar a indústria”, diz ele, “para fazer isso de uma maneira mais ambientalmente sustentável”.

A legislação proibiria formalmente os EUA de exportar resíduos plásticos para países em desenvolvimento, em alinhamento com a Convenção de Basileia. Talvez o mais controverso seja que o projeto interrompa a construção de novas instalações para a produção de plásticos, dando à EPA tempo para elaborar novos regulamentos. Udall insiste que sua lei pode devolver valor à economia e haver uma poupança de muito dinheiro para os consumidores, observando que todos os anos há uma perda pelo curto uso do plástico em até US $ 120 bilhões.

O senador não é ingênuo. Ele sabe que está enfrentando alguns dos bolsos mais profundos do mundo corporativo. “Isso não vai ser fácil”, diz ele. “Os principais players do setor vão se opor a alguns de nossos esforços.” De fato, a PLASTICS já está detonando a proibição dos descartáveis em sua norma, insistindo que “a proibição de materiais completamente recicláveis ​​não resolverá os problemas de gerenciamento de resíduos de nosso país”. Mas Udall acredita que a questão de remediar a poluição plástica tem o potencial de transcender as amargas divisões de nossa política atual. A noção de que todos nós estamos consumindo, sem nos darmos conta, um cartão de crédito por semana revira o estômago dos republicanos tanto quanto dos democratas. “Não sabemos os impactos disso tudo na saúde humana”, diz ele. “Mas podemos apenas imaginar que eles não são bons.”

O principal patrocinador do projeto na Câmara, o deputado Alan Lowenthal, da Califórnia, insiste que sua motivação não é punitiva. Ele aponta os regulamentos que ajudou a aprovar como legislador estadual para limpar a poluição do ar no porto de Los Angeles, o que melhorou a enquanto modernizava um porto que agora ganha mais dinheiro do que nunca: “Não estamos interessados ​​em destruir as pessoas que fornecem produtos para levarmos nossos bens produzidos ao mercado”, diz ele. Mas Lowenthal insiste que a mudança está chegando: “Temos que começar esse processo. Não há solução rápida, mas também sabemos que o tempo não está do nosso lado”.

As empresas do setor de plásticos, diz Lowenthal, acabarão “tendo que lidar com o choque derradeiro de que agora são reconhecidos como os responsáveis ​​e terão que pagar” para manter o plástico fora do ambiente. A alternativa, ele insiste, tornou-se insustentável: “O que temos em plástico é algo que tornou nossa vida mais conveniente e fácil. Mas, a menos que descubramos como manter isso fora do fluxo de resíduos, se não nos levará à morte”.

Tradução livre parcial de Luiz Jacques Saldanha, março de 2020.

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