
Juan Sanchez, de 68 anos, arranca brotos de milho doce sob nuvens de tempestade na Sierra Farms em Yorba Linda, Califórnia. (Crédito da foto: Al Schaben/Los Angeles Times via Getty Images)
https://civileats.com/2026/08/20/why-crops-are-becoming-less-nutritious/
20 ago 2026
[Nota do Website: Mais uma matéria que mostra que nossos alimentos já estão tão nutritivos como foram antes da revolução verde/modernização da agricultura do pós IIª Guerra. Mas o que se destaca é que os alimentos orgânicos sempre estão a frente. Ou seja, além de não serem envenenados também apresentam outras condições nutricionais que os chamados convencionais ou envenenados não têm. Assim, quem tem filhos e quer alimentá-los verdadeiramente não basta só não lhes dar alimentos ultraprocessados -SEMPRE ENVENENADOS-, mas sim buscar a qualquer custo, os orgânicos se realmente querem fornecer saúde a seus descendentes. Pura e simplesmente isso!].
O aumento do CO2 é o provável culpado pela diminuição de nutrientes como zinco, proteína e ferro em nossos alimentos, mas especialistas afirmam que mais pesquisas são necessárias.
Hoje, quando os agricultores colhem culturas comuns americanas como trigo, arroz e vegetais, as plantações têm a mesma aparência de 100 anos atrás. Mas pesquisas mostram que essas mesmas culturas estão perdendo seu valor nutricional. Em outras palavras, não são os mesmos grãos-de-bico que seus avós conheciam.
Um estudo de 2004 que analisou dados federais sobre o conteúdo nutricional de frutas e vegetais constatou que nutrientes como proteína, cálcio, ferro e outros diminuíram em até 38% desde 1950. Desde então, pesquisadores descobriram que taxas mais elevadas de dióxido de carbono na atmosfera contribuíram para essa tendência — e espera-se que a queda continue.
Apesar de seus impactos abrangentes, os pesquisadores observam que pouco se sabe ao certo sobre essa tendência.
“Este é um problema que afetará absolutamente todos”, disse Kristie Ebi, professora do Centro de Saúde e Meio Ambiente Global da Universidade de Washington. “E afetará principalmente os pobres e marginalizados.”
Mais carbono, menos nutrientes
Desde 1970, o CO2 atmosférico aumentou 30%. As plantas absorvem o carbono adicional e o utilizam para produzir certos nutrientes, como lignina ou vitamina E. Mas o solo ao redor da planta não está experimentando um aumento semelhante de carbono, fósforo, cálcio ou outros compostos necessários para a produção de nutrientes pela planta.
Por meio desse processo, o carbono atua como um fertilizante aéreo, auxiliando no crescimento das plantas, enquanto o solo abaixo delas fica diluído em nutrientes, explicou Lewis Ziska, biólogo vegetal da Universidade Columbia e ex-pesquisador do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Isso resulta em maiores colheitas de culturas menos ricas em nutrientes.
Por exemplo, com mais carbono na atmosfera, as plantas de arroz podem produzir mais grãos, mas o teor de proteína, zinco e ferro nesses grãos diminui.
Essa tendência é ainda mais crítica em escala global e em países onde o acesso e a segurança alimentar representam um desafio. Nos Estados Unidos, existe uma grande diversidade de opções alimentares e várias maneiras de obter nutrientes e vitaminas.
Em 2018, pesquisadores da Escola de Saúde Pública TH Chan de Harvard analisaram a dieta de pessoas de 150 países e descobriram que, até 2050, mais 175 milhões de pessoas em todo o mundo poderiam apresentar deficiência de zinco e outras 122 milhões poderiam apresentar deficiência de proteína, supondo que os níveis de carbono na atmosfera atinjam as projeções.
O estudo, publicado na revista Nature Climate Change, analisou a projeção da redução de nutrientes, à medida que o CO2 na atmosfera continua a aumentar nos próximos 50 a 60 anos. Ao estudar culturas em experimentos controlados a céu aberto, também conhecidos como enriquecimento de dióxido de carbono em ar livre (FACE, na sigla em inglês), os pesquisadores conseguiram quantificar a redução de nutrientes essenciais nessas culturas, explicou Sam Myers, um dos autores do estudo e professor da Universidade Johns Hopkins.
Em seguida, os pesquisadores utilizaram um banco de dados global para estimar a ingestão per capita de nutrientes em 150 países, a fim de compreender a disponibilidade desses nutrientes para a população local. Isso os ajudou a entender, por exemplo, quanto ferro uma criança de 10 anos do Mali obtinha de uma banana. Dessa forma, os pesquisadores puderam compreender melhor o impacto da escassez de nutrientes em regiões específicas.
“Descobrimos que muitas pessoas em todo o mundo dependem de fontes vegetais para obter nutrientes essenciais à sua saúde e provavelmente sofrerão de insuficiência nutricional nas próximas décadas, à medida que essas culturas alimentares se tornarem nutricionalmente empobrecidas como resultado das emissões antropogênicas de CO2”, escreveram os autores.
Diversos outros estudos se basearam nessa ideia para analisar o declínio de nutrientes em culturas específicas, como trigo e arroz, que representam uma grande parcela das calorias globais. Um dos estudos mais recentes, publicado em novembro de 2025, apresenta a maior metanálise de plantas comestíveis já realizada.
O estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Leiden, na Holanda, descobriu que a maioria dos nutrientes diminuiu com o aumento do carbono, o que sugere que, no geral, as plantações estão se tornando menos nutritivas à medida que esses níveis aumentam. A média é de uma redução de 3,2% para todos os nutrientes, mas é mais acentuada em algumas culturas e nutrientes.
Por exemplo, o estudo constatou uma redução de 37,5% no teor de zinco do grão-de-bico. Também foram observadas reduções significativas nos teores de proteína, zinco e ferro em culturas como o trigo e o arroz, que são alimentos básicos e principal fonte de calorias para bilhões de pessoas em todo o mundo.
A tendência para uma menor qualidade nutricional e de proteínas também ocorre à medida que os carboidratos nos alimentos aumentam, disse Ebi.
“Se as pessoas continuarem comendo o mesmo que comeram nas últimas décadas, terão uma dieta com ainda mais carboidratos”, disse Ebi. Isso tem implicações preocupantes para a saúde em geral, acrescentou.
Mais do que carbono
A saúde do solo também é considerada um possível fator que impacta os nutrientes das plantações nos EUA. Líderes do movimento Make America Healthy Again (MAHA), incluindo o Secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., abraçaram a ideia de que a saúde do solo pode influenciar a saúde humana e também promoveram práticas de agricultura regenerativa.
Mas essa ideia não é compartilhada por todos os pesquisadores científicos. Embora Myers afirme apoiar a agricultura orgânica, ele considera que não há dados suficientes para comprovar uma ligação entre essas práticas, o solo e os nutrientes. Em escala global, onde a segurança alimentar continua sendo uma preocupação para muitos países, o aumento da produtividade ainda é mais importante, disse ele.
Nos Estados Unidos, porém, algumas pesquisas se concentram na nutrição e sua relação com as práticas agrícolas.
O Instituto Rodale, uma organização sem fins lucrativos que apoia a agricultura orgânica, mantém desde 1981 um estudo sobre sistemas agrícolas que compara a saúde do solo e outros fatores na agricultura convencional com a agricultura orgânica.
Este estudo de longo prazo descobriu que as práticas orgânicas aumentam a matéria orgânica do solo, a produtividade durante condições climáticas extremas e a infiltração de água, ou seja, a quantidade de água que entra no solo.
Há cerca de 10 anos, a organização também se baseou nisso e iniciou um projeto-piloto de sistemas de cultivo de hortaliças com o objetivo de relacionar a saúde do solo à saúde humana, disse Andrew Smith, diretor científico do instituto.
Smith juntou-se à organização para liderar este estudo, que, segundo ele, difere de outras pesquisas por controlar fatores como tipo de solo e condições ambientais, focando-se apenas no impacto de diferentes práticas agrícolas.
O estudo ainda aguarda revisão por pares e não foi publicado. Mas Smith afirmou que as descobertas iniciais mostram uma ligação entre níveis mais elevados de nutrientes no solo e a agricultura orgânica, quando comparada à agricultura convencional.
Smith afirmou que as evidências são claras de que a melhoria da saúde do solo e a agricultura orgânica podem promover uma saúde humana melhor, além da qualidade nutricional, portanto, deve haver um esforço para ajudar os agricultores a adotarem essas práticas.
Outro estudo, publicado em 2022 com pesquisadores da Universidade de Washington, examinou as diferenças nutricionais entre culturas convencionais e regenerativas. O estudo constatou um aumento de nutrientes nas culturas regenerativas, que incluíam trigo, repolho, ervilha, soja, milho e gado.
No entanto, o estudo observa que os resultados são preliminares e baseados em uma pequena amostra. Também destaca que a relação entre a saúde do solo e a saúde humana é complexa e que essa área de pesquisa merece mais atenção.
É necessária mais pesquisa.
Na verdade, pouco se sabe ao certo sobre a diminuição de nutrientes nas plantações, e especialistas afirmam que mais pesquisas são necessárias. Em 2021, pesquisadores, incluindo Ebi e Ziska, publicaram uma carta aberta com uma agenda de pesquisas necessárias para melhor compreender a relação entre CO2 e nutrientes.
Especificamente, Ebi afirmou que não existem pesquisas alimentares suficientes para entendermos o que há em nossos alimentos ou onde as pessoas apresentam deficiências nutricionais. Também faltam dados sobre nutrientes essenciais, e são necessárias mais pesquisas em uma gama maior de variedades de culturas para entendermos se existem opções que forneçam melhores nutrientes.
Realizar essa pesquisa e encontrar soluções é um desafio por vários motivos, agravado pelos recentes cortes de financiamento para pesquisas relacionadas ao clima. Além disso, esse tipo de pesquisa não é o foco de nenhuma agência federal específica, o que resulta em sua despriorização, afirmou Ebi.
Independentemente das pesquisas, existem soluções para o problema da nutrição. Uma delas, observaram Ziska e Ebi, seria mudar o foco dos incentivos agrícolas, priorizando o conteúdo nutricional das culturas em vez da produtividade. Mas isso exigiria uma reformulação profunda das políticas agrícolas, o que seria politicamente difícil.
Embora os especialistas afirmem que a tendência de declínio de nutrientes é importante de se compreender e deve receber mais atenção, eles observam que é apenas um elemento em um ambiente global em rápida transformação.
De modo geral, a correlação entre carbono e nutrientes das plantações é apenas a “ponta do iceberg” quando se trata de compreender as condições em rápida mudança em todos os sistemas da Terra, disse Myers.
Os sistemas alimentares enfrentam uma série de outros problemas urgentes, incluindo o declínio dos polinizadores, a erosão do solo, a poluição e a salinização, as condições climáticas, as temperaturas oceânicas e muito mais.
Sem intervenções, estudos como o de Myers mostram que a diminuição de nutrientes pode levar a deficiências na dieta de milhões de pessoas. Mas outras mudanças no meio ambiente, como eventos climáticos extremos mais frequentes, são capazes de dizimar colheitas inteiras.
“Esses outros tipos de mudanças terão um impacto enorme na qualidade ou na quantidade de alimentos que podemos produzir e no acesso a nutrientes na dieta”, disse Myers.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, agosto de 2026