
Vacas leiteiras descansam do lado de fora da casa de Fred e Laura Stone na Fazenda Stoneridge, na quinta-feira, 15 de agosto de 2019, em Arundel, Maine. Foto de Robert F. Bukaty/AP.
11 mai 2026
[Nota do Website: O mais importante para entendermos essa matéria, é sabermos o que aconteceu no estado do Maine, o mais contaminado com os PFAS, nos EUA. Pelo menos pelo que se sabe até agora. Para isso, acessar os textos do link de busca do nosso website. Se os leitores acessaram as matérias indicadas pelo link há pouco destacado, agora vamos pensar sobre o Brasil. É essa realidade minimamente conhecida entre nós? É evidente que não porque muitos do que agora leem essa matéria, talvez não tenham a mínima noção sobre isso. E são os pouquíssimos que estão acessando nosso website. Alguém sabe que hoje essas moléculas, quando são são o princípio ativo de um herbicida como a trifluralina -PERMITIDO NO BRASIL -, podem ser agregados a outros agrotóxicos para impedirem do veneno não ser carregado facilmente pela chuva? Ah! E quem sabe que os PFAS são disruptores endócrinos e que podem provocar retardo mental de todos os embriões, incluindo os humanos? E assim vai…].
Um novo livro narra como a contaminação por PFAS veio à tona no Maine e a resposta do estado, que gastou US$ 200 milhões. A jornalista ambiental Marina Schauffler conta no novo livro, “Inescapable: Facing Up to forever chemicals” (Inescapável: Enfrentando os Produtos químicos eternos).
Os Stones, fazendeiros de Maine, descobriram PFAS em seu leite em 2016 e têm defendido o uso de recursos estaduais para apoiarem agricultores e moradores na remediação de PFAS.
Após anos de debates sobre como investir recursos para combater a contaminação por PFAS, o estado liberou recentemente US$ 133 milhões para ajudar comunidades em Wisconsin a lidar com a poluição generalizada por esses “químicos eternos/forever chemicals“.
O financiamento ajudará nos testes de PFAS e nos esforços de remediação em todo o estado, incluindo verbas para novos poços e uma provisão para proteger os “proprietários de terras inocentes” que têm poluição em suas propriedades sem culpa própria.
O estado do Maine já trilhou esse caminho. Em 2021, os legisladores aprovaram um conjunto de leis com o objetivo de solucionar a crise de PFAS no estado — impulsionada, em parte, pela disseminação de lodo de esgoto em campos agrícolas — e investiram mais de US$ 200 milhões nesse esforço.
Qual é a situação atual do problema dos PFAS no Maine, cinco anos depois? Esse é o tema do livro “Inescapable: Facing Up to Forever Chemicals”, da jornalista ambiental Marina Schauffler.
“Um dos desafios do PFAS é a sua persistência, e a recuperação é demorada”, disse Schauffler ao programa “Wisconsin Today” da WPR. “E não é uma recuperação completa, porque esses produtos químicos permeiam o nosso meio ambiente, e a ameaça à saúde vai persistir por gerações.”
Schauffler conversou com o programa “Wisconsin Today” sobre a experiência do Maine com PFAS e as lições para o Wisconsin, à medida que o estado implementa políticas e aloca fundos para a limpeza da área contaminada por PFAS.
A entrevista a seguir foi editada para maior brevidade e clareza.
Kate Archer Kent: Seu livro começa com a história de Fred Stone, um produtor de leite de terceira geração que descobriu altos níveis de PFAS em seu leite. Você pode falar sobre a sequência de eventos que desencadeou isso?
Marina Schauffler: Quando ele soube que havia esses produtos químicos na água do poço e que o leite também havia sido testado para eles, ficou inicialmente perplexo, sem realmente entender a origem da contaminação. O estado realizou muitos testes no local e, aos poucos, tudo ficou claro.
Nas décadas anteriores, o estado havia incentivado os agricultores a espalhar lodo, tanto municipal quanto industrial, em suas terras, e os altos níveis de PFAS (Stone) encontrados estavam diretamente relacionados à aplicação do lodo. Inicialmente, o estado não estava disposto a reconhecer que esse poderia ser um problema mais amplo, então ele teve que se manifestar repetidamente e pressionar a Assembleia Legislativa (do Maine) para que realizasse mais testes. E quando o estado realizou mais testes em fazendas leiteiras e outras fazendas onde o uso de lodo havia sido permitido no passado, encontrou problemas recorrentes.
KAK: Então ele tinha licença para espalhar esse lodo de esgoto em seus campos, sem saber que também estava espalhando PFAS. E aí ele teve que sacrificar a maior parte do seu rebanho para conter a contaminação. O negócio deles foi arruinado. Os órgãos públicos do Maine ajudaram?
MS: Nos primeiros anos, Fred e Laura Stone não receberam muito apoio, o que foi devastador para eles. Já começavam a enfrentar problemas de saúde. Seus negócios foram dizimados. O valor da fazenda, que era seu principal patrimônio, diminuiu drasticamente. Foi uma situação muito difícil, e ele finalmente se manifestou publicamente para pressionar o estado e conseguir mais apoio para a comunidade agrícola.
A participação dos agricultores perante a Assembleia Legislativa foi fundamental para a mudança de políticas e para um apoio estatal muito maior à comunidade agrícola e a outros afetados pela disseminação de lodo no passado.

KAK: O Maine foi um dos primeiros estados a começar a lidar com a contaminação por PFAS — investindo dinheiro e elaborando políticas para isso. Como o Maine conseguiu conscientizar as pessoas sobre esses “químicos eternos/forever chemicals” invisíveis que estão persistentemente presentes nas águas, no solo e em outros lugares?
MS: Muitas pessoas no Maine têm um profundo apego ao local e valorizam a saúde e o bem-estar do nosso meio ambiente natural. A forma como o PFAS prejudicou isso foi devastadora para muitas pessoas, e a maneira como afetou as comunidades rurais tornou o assunto um ponto de convergência na Assembleia Legislativa. O apoio inicial foi bipartidário, e a presença desse tipo de contaminação onipresente e persistente em um lugar que desejamos que seja saudável foi vista como uma afronta à população do estado.
KAK: Um médico que você entrevistou chamou a contaminação por PFAS de “um desastre ambiental de evolução lenta” que está “destruindo a vida das pessoas”. Há esse impacto psicológico, além dos riscos à saúde da exposição ao PFAS. O que você ouviu de pessoas que lidam com a contaminação por PFAS em suas propriedades?
MS: Essa é uma boa descrição, porque a situação fica ainda mais preocupante para as pessoas. Elas vivem com essa incerteza em relação a possíveis problemas de saúde no futuro, e há uma ampla gama de impactos potenciais na saúde. Um agricultor descreveu a situação como uma espécie de bomba-relógio com fiação defeituosa — a simples consciência de que provavelmente haverá impactos, e a necessidade de esperar e observar, já que não há muito o que se possa fazer.
Além disso, houve a desvalorização de suas propriedades e a impossibilidade de praticar muitas paixões — as pessoas não podiam caçar ou pescar onde tradicionalmente o faziam. Quem tinha hortas não podia mais consumir seus próprios produtos (nt.: destaque em negrito para mostrar até onde ficou a trágica presença dos PFAS!). Havia incerteza sobre o que era seguro comprar localmente… porque os testes de PFAS são muito escassos. Isso gerou muita incerteza e estresse na vida das pessoas.
KAK: Que medidas o Maine tomou para resolver o problema do lodo nos campos agrícolas?
MS: O Maine foi o primeiro estado a proibir a aplicação de lodo em campos agrícolas e o uso de lodo contendo composto, porque parte desse lodo também era destinada a instalações de compostagem e, posteriormente, redistribuída para jardins, campos esportivos e uma ampla gama de outros locais. Isso foi fundamental para impedir a disseminação de PFAS em ambientes de cultivo de alimentos, mas logo em seguida, a Assembleia Legislativa percebeu que precisava agir na origem do problema e interromper o fluxo, então o Maine esteve entre os primeiros estados a começar a impor proibições a várias categorias de produtos de consumo (nt.: destaque em negrito dado pela tradução PARA SE VER O ABSURDO DE SE PROIBIR OS PRODUTOS DE CONSUMO, MAS NÃO A PRODUÇÃO E O USO DOS PFAS!).
Inicialmente, o estado foi muito ambicioso com a proibição do produto e descobriu rapidamente que era realmente difícil para as pessoas rastrearem a cadeia de suprimentos e descobrirem onde o PFAS estava presente em seus produtos. E o Maine é um estado pequeno — tem 1,3 milhão de habitantes — então isso dificultou a influência necessária para mudanças nas práticas da indústria.

KAK: O PFAS já foi um tema que unia legisladores e comunidades no Maine — algo sobre o qual as pessoas podiam concordar e trabalhar juntas, superando as divisões políticas. Você diz que esse não é mais o caso. O que mudou?
MS: Algumas leis importantes sobre PFAS foram aprovadas na última sessão legislativa aqui, com apoio bipartidário. Mas acho que as tensões ficaram evidentes quando as regulamentações e leis sobre PFAS entraram em conflito com as práticas da indústria, o que representou um grande desafio para muitos setores aqui. Eles não conseguem se adaptar rapidamente para remover os PFAS da produção de produtos, principalmente daqueles que não são fabricados aqui. E, claro, o setor de gestão de resíduos valorizava um meio de descarte de lodo de baixo custo (nt.: AQUI ESTÁ ESCRACHADO DE QUE A POPULAÇÃO E SUA SAÚDE ESTÃO MUITÍSSIMO MAIS ABAIXO DO QUE OS INTERESSES DA INDÚSTRIA ATÉ DE SEU DESCARTE DE SEUS RESÍDUOS! É MUITO CINISMO!).
Este é um problema que remonta à Lei da Água Limpa, quando inicialmente tentaram despejar o material no oceano e perceberam que não era uma boa ideia. Depois, passaram para a dispersão em terra, e agora que os efeitos tóxicos disso são evidentes… atualmente, o material está indo para aterros sanitários aqui, o que não é uma solução ideal. E como o PFAS persiste, ele se infiltra nos aterros, e esse lixiviado também precisa ser tratado.
O aspecto realmente insidioso dos PFAS é a sua tendência a permanecerem circulando no organismo. Isso reforça a importância de eliminá-los logo no início.
KAK: Há um tema recorrente em seu livro sobre a lacuna regulatória no nível federal, que resulta em uma colcha de retalhos de políticas e regulamentações estaduais sobre PFAS. Com base na experiência do Maine, você acha que a questão dos PFAS pode ser resolvida em nível estadual?
MS: Absolutamente não. Precisamos de liderança federal. Precisamos mesmo de liderança internacional, porque este é um problema global agora, e é tão ubíquo: está circulando pela atmosfera. Está caindo na chuva. Portanto, realmente precisa de liderança em uma escala muito maior.

Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, maio de 2026