Em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente, Homero Santos* fala ao Centro Sebrae de sobre a exploração da brasileira e as oportunidades para micro e pequenas empresas

118 Os pequenos negócios e a biodiversidade brasileira

As constantes explorações e perdas desta riqueza natural conduziram a uma questão: não é mais possível fazer negócios sem considerar o meio ambiente como essencial, finito e escasso. Em entrevista ao Centro Sebrae de , Homero Santos fala sobre oportunidades para micro e pequenas empresas desenvolverem o uso sustentável da .

O Brasil possui características particulares que definem sua identidade e cultura, e esta “brasilidade” é vista como uma tendência em para os pequenos negócios. A imagem dos negócios brasileiros aliada à é uma vantagem competitiva perante o cenário mundial?

Primeiramente, devemos considerar que o Brasil é conhecido mundialmente como um país megadiverso. E, de fato, ele possui uma das últimas reservas de intocadas no mundo, ao lado de países como Canadá, Austrália, Madagascar e Argentina. Dentro deste quadro, sobressai-se de forma notável a região amazônica, que o mundo inteiro contempla com certa reverência emblemática, mas também somos ricos em outras áreas, como cerrado e pantanal. A extensão vertical do Brasil cobre várias faixas com diferentes características de clima, e uma dominante, nos trópicos, que apresenta notável taxa de incidência solar todo o ano. Esta é uma característica marcante, com grande potencial. Associar negócios a nossa pode constituir-se em uma grandiosa alavanca de promoção de produtos, atraentes especificamente por seu exotismo e pelo vínculo com o que o Brasil representa no imaginário da comunidade internacional.

Podemos dizer que o fortalecimento das “regionalidades” pode favorecer a melhor exploração da ?

Sim, os negócios que melhor aproveitam estas oportunidades são os de nicho, especialmente para pequenos empreendedores cooperados. Isto devido ao seu caráter artesanal. Eles são capazes de manter a característica local e fazer o vínculo com ícones e valores do homem em sua simplicidade e individualidade. Têm o valor de corresponder a uma tradição, diferentemente de produtos industrializados, padronizados e fabricados em série.

O homem desenvolveu, historicamente, uma grande dependência da precificação para valorar bens e serviços. A dificuldade em visualizar e atribuir valor econômico aos recursos da natureza contribuiu para a perda da ?

O homem precificou os recursos naturais de acordo com os padrões de utilidade daquilo que ele extraiu, da utilidade em um processo alheio ao da natureza. A bauxita, por exemplo, retirada para fazer lata de alumínio, é precificada como uma commodity pelo mercado. Ninguém precificou anteriormente o impacto da exploração, do espaço aberto na terra ou do ecossistema que deixou de existir para que ela fosse retirada. Não é habitual fazer a conta de quanto vale uma árvore em pé ao invés de derrubada. O interessado em um determinado ativo natural volta seu olhar para o valor desse ativo fora da natureza e dentro de um processo econômico. A pergunta comum é “quanto vale uma árvore transformada em mesa ou outros móveis”, e não “quanto vale uma árvore em termos de produção, alimentação e manutenção da vida”. A economia se constituiu excluindo recursos naturais dos custos das empresas. Isto contribuiu e continua contribuindo para a perda da .

Reverter este processo implicaria na revisão dos modelos de negócios atuais e adoção de inovação?

Decorre mais da disposição da quebra do paradigma de exploração predatória dos recursos naturais. Em partes, dependemos de madeira, terra, minerais e outros recursos. Faz parte do modelo econômico. Mas quando quebramos o paradigma e abrimos o olhar para novas oportunidades, visualizamos outras até mais vantajosas.

Ao invés de derrubar a floresta para plantar soja, pode-se fazer ecoturismo neste mesmo local. É o processo de visualização de novas oportunidades de negócios, que não são percebidas porque nos aproximamos da natureza sempre com o olhar de “retirar” ao invés de “conservar”. É preciso ampliar horizontes, pensar em novas alternativas.

Qual setor econômico é mais beneficiado pela brasileira em termos de oportunidades de negócios?

O turismo, especialmente o ecológico, de aventura e de contemplação. Dependendo da região, há formas diferentes de aproveitar o que está disponível e fazer com que o grande atrativo seja a : flores, plantas, animais, floresta ou água. Podem-se criar trilhas, caminhos para observações, arvorismo, tirolesa, rapel, até mesmo avistamentos de animais. É muito comum no exterior o safári fotográfico de animais. Ao invés de capturar, desenvolve-se um novo negócio. Os acordos com agências de turismo podem auxiliar. Mas, é preciso ter uma grande , mata rica e diversa, sempre disponibilizando um guia e mantendo regras claras com sistema de vigilância das pessoas para atribuição de responsabilidades.

O mercado tem cobrado maior consciência quanto aos impactos das atividades empresariais na ?

Sim. As grandes corporações, por sua maior visibilidade e compromissos que são obrigadas a assumir por força de lei, das ONGs e dos consumidores, criam exigências que se estendem ao longo da sua cadeia produtiva. Os pequenos negócios muitas vezes precisam se ajustar sem entender o motivo, mas porque precisam vender. Esta situação acaba forçando todo o mercado a se adaptar.

A relação da empresa com o meio ambiente influencia as preferências do consumidor e suas decisões sobre produtos e marcas que irá consumir?

Influencia sim, quando vem a público através da mídia ou em alguma situação visível, e prejudica a imagem do negócio, seja pequeno ou grande. As grandes empresas estão mais atentas e vigilantes aos riscos de incorrer em comportamentos vistos como socioambientalmente danosos, porque isto pode denegrir a sua imagem. Como elas são grandes, sua visibilidade também é grande. Elas podem dispor de mais mecanismos internos de vigilância devido ao seu potencial econômico. O que não impede que esta vigilância se faça no sentido de conservação. Muitas vezes é mais para manutenção de imagem do que como atuação ética.

Para o pequeno negócio, a repercussão de uma violação causada por seu mau comportamento socioambiental pode assumir grandes proporções na medida em a opinião pública percebe a possibilidade de replicação em negócios da mesma natureza, não importando o local. Podemos citar o caso da boate Kiss, protagonista de tragédia no Rio Grande do Sul. Ela expôs uma fragilidade difusa e oculta, que estava e ainda está presente em diversos outros pequenos negócios, por isso ganhou grande repercussão.

As empresas podem influenciar a escolha dos consumidores por produtos mais sustentáveis?

Isto depende do poder de comunicação da empresa e como ela construiu seus canais de comunicação com a sociedade. As redes sociais podem ser um elemento importante para ampliar impacto e aumentar visibilidade.

Manter um relacionamento com os meios de comunicação também é muito importante, se a empresa realmente tem algo a comunicar. Se está fazendo algo diferente, vá e diga.

O que pode ser ressaltado por estas empresas?

O produto pode ter características notáveis, como o caso da Conservas Linken, de Minas Gerais, que recolhe embalagens, faz logística reversa, integra a cadeia de produtores locais, mantendo sempre vegetais frescos. Isto é importante e atrai atenção. De outro lado temos a operação, como economia de água, energia e outros processos que promovam maior eficiência. Ela é importante, deve ser feita, tem impactos significativos para a economia do negócio, mas não é tangível para o consumidor. O produto acaba tendo maior atrativo em termos de efeito. Para tornar a sua operação atrativa, a empresa precisa repartir o benefício de sua operação e criar uma utilidade para o consumidor. Por exemplo, uma empresa moderniza sua linha de produção, descobre uma nova forma de fazer o produto, adota o 5S*. Falar isto ao consumidor é pouco. Mas se ela cria um showroom, convida clientes e estudantes para conhecerem e cria uma experiência, eles compram a ideia, pois se envolveram no processo.

Como o empresário de pequeno porte pode mensurar e reduzir seus impactos no meio ambiente?

A primeira iniciativa é ter um bom conhecimento dos códigos florestais, nacional e estaduais, o que a lei permite e o que ela impede. O desconhecimento acaba resultando em ônus, mais cedo ou mais tarde. O empresário também deve sempre comparar se o que ele extrai compensa em relação ao que ele obtém do mercado, além de considerar o custo de reparação: se ele extrai uma árvore, qual o custo para plantar outra, lembrando que é preciso levar em consideração não apenas o custo direto, mas o indireto, aquela influência no meio ambiente e na manutenção das várias formas de vida.

Publicações do Sebrae sobre o tema:

• Guia Prático para a Sustentabilidade nos Pequenos Negócios

• Licenciamento Ambiental: um mecanismo de prevenção

* Homero Santos é pós-graduado em Administração pela FGV, em Profunda e Teoria do Desenvolvimento pelo Schumacher College (Inglaterra). Atuou durante três décadas no campo da educação executiva e da estratégia empresarial.

(Sebrae)