feixe de varas Momento do Norte aprender com o Sul

 

O fundador do CES, Boaventura Sousa Santos, há décadas dedica-se à formulação de uma sociologia que supere a visão colonialista que domina a produção científica, cultural e política do mundo. Mas, a crise econômica que assolou os países do norte a partir de 2008 parece ter confirmado as reflexões do sociólogo. Não se trata apenas da crise mais recente provocada pelo mercado financeiro, mas dos resultados que agora se evidenciam dos séculos de produção de exclusão e destruição ambiental em nome de uma suposta objetividade. Como bem lembrou o antropólogo colombiano Arturo Escobar, enfrentamos hoje problemas que criamos e para os quais a modernidade não tem soluções.

É neste contexto que o colóquio se propôs a criar um espaço de compartilhamento das experiências de emancipação social que são muito mais amplas do que a compreensão ocidental do mundo. Experiências radicais que podem ser organizadas em quatro principais frentes de ação: de democratização da democracia via participação direta; de novas economias que não se pautam pela égide do lucro; de ampliação do espectro dos direitos humanos a partir dos diálogos interculturais sobre dignidade; e de refundação do Estado por um novo constitucionalismo.

A proposta foi possibilitar aprendizagens que apontem para um futuro em que o mundo não seja mais dividido entre Norte e Sul.

Pensamento integral

Partindo de uma instituição acadêmica, é muito importante a afirmação de que o saber universitário só será útil ao mundo se reconhecer a si próprio como um saber entre vários, não como o saber universal. No centro do palco do Teatro Gil Vicente, onde aconteceu a abertura do colóquio, estava o feixe de varas que simboliza a luta dos povos de Roraima pela garantia de seus direitos. Assim como as varas que, unidas, não podem ser facilmente quebradas, o conhecimento resultante da integração do saber acadêmico aos saberes produzidos pela vasta experiência da resistência à dominação, aos saberes das experiências alternativas, será o conhecimento capaz de criar um mundo melhor.

Pablo Gentili, Secretário Executivo do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (CLACSO), ressaltou que o movimento social pelo direito humano ao conhecimento não é a simples luta pelo acesso universal à escola, mas sim a luta pela disponibilização universal da multiplicidade de saberes produzidos no mundo. É preciso superar o totalitarismo da fragmentação por um pensamento holístico, integral, que não separa o indivíduo da natureza, o vivo do não vivo, o presente do futuro. Nisso, as culturas dos povos indígenas da América Latina, a cultura hinduísta ou a cultura budista têm muito a ensinar ao ocidente.

coloquio Momento do Norte aprender com o Sul

 

Bem Viver

O movimento social pela democracia denuncia que as pessoas e grupos sociais não estão todos submetidos às mesmas regras do jogo. É preciso democratizar a democracia fortalecendo os espaços de participação, a energia das ruas, que formam o espaço público não institucionalizado, as lutas étnico-territoriais que parecem locais, mas que de fato beneficiam toda a humanidade porque têm a integralidade como princípio.

O colombiano César Rodriguez-Garavito lembrou a importância de se ampliar as fronteiras dos direitos humanos, incluindo os direitos à participação e até os direitos da natureza, que exigem a formulação de uma biopolítica.

A ativista boliviana, de ascendência aymará, Silvia Rivera Cusicanqui, que falou sobre a micropolítica nos Andes, chama atenção para os valores e racionalidades próprios das comunidades que se comunicam pela força das tradições orais e dos rituais e assim produzem alternativas de forma permanente. O desafio para estas comunidades é viver sob uma estrutura política, econômica, social e cultural concebida a partir de uma realidade completamente diferente, com língua, valores, conceitos e significados próprios. Nem sempre é simples fazer a tradução das demandas, anseios e projetos indígenas para um arsenal conceitual e linguístico eurocentrado. Um exemplo é a concepção de desenvolvimento que não existe nas culturas indígenas. O que existe é a ideia de “bem viver”, que remete à possibilidade de “caminhar e falar como gente”, escutando antes de falar, falando sobre o que se sabe, referendando suas palavras em ações concretas.

bolivia Momento do Norte aprender com o Sul

 

Experiências de transformação social

As sessões paralelas possibilitaram conhecer a diversidade das experiências e saberes produzidos no mundo. Esta diversidade apresentada em uma estrutura bem consistente produziu o mosaico das possibilidades de emancipação social hoje.

No campo da educação, o mosaico apresentado inclui políticas públicas, experiências universitárias e de organizações da sociedade civil. Entre as políticas públicas, mereceram destaque iniciativas voltadas para a democratização do acesso à escola, em cidades como Luanda; e ao ensino superior, como no Brasil; políticas afirmativas; políticas de igualdade de gêneros na formação de professores em Moçambique; e a inclusão curricular da história e da cultura africana no Brasil.

A sociedade civil organizada se fez representar por projetos que promovem o direito ao brincar, outros que fortalecem as instâncias democráticas de gestão escolar, iniciativas de valorização das tradições culturais e da interculturalidade, a criação de territórios educativos para a educação integral no Brasil.

No campo dos movimentos sociais, as experiências transformadoras debatidas incluíram as manifestações de rua e os movimentos pelo direito à cidade em Portugal, Brasil e Espanha; as ações coletivas para o enfrentamento da crise habitacional na Espanha; a força política das redes sociais entre a juventude; a resistência dos quilombos brasileiros; o Movimento dos Sem Terra; o Fórum Social Mundial; e o movimento estudantil no Chile.

Teve especial destaque no encontro o rap, sobretudo aquele produzido em Cabo Verde, no Brasil e em Portugal no contexto da afirmação de uma cultura da periferia das grandes cidades. Ficamos sabendo que o próprio Boaventura é autor de vários raps, sob a alcunha de Queni N.S.L. Oeste.

As questões subjacentes a esta gama de experiências são muitas e complexas, configurando um fértil campo para a pesquisa e a reinvenção da política. O Congresso mostrou que há um considerável número de universidades, organizações da sociedade civil e até governos dedicados a isso. Uma boa nova em tempos bicudos.

Helena Singer é socióloga e diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz. Ajudou a fundar o Instituto de Educação Democrática Politeia e o Núcleo de Psicopatologia, Políticas Públicas de Saúde Mental e Ações Comunicativas em Saúde Pública da Universidade de São Pauo (NUPSI-USP). É autora de “República de Crianças: Sobre Experiências Escolares de Resistência” e “Discursos Desconcertados”.

** Publicado originalmente no site Portal Aprendiz.