Globalização: Prêmio Nobel de Economia de 2001: “Donald Trump está dando um tiro no próprio pé da economia americana.”

Joseph Stiglitz

https://www.lemonde.fr/idees/article/2025/12/27/joseph-stiglitz-prix-nobel-d-economie-2001-donald-trump-tire-une-balle-dans-le-pied-de-l-economie-americaine_6659531_3232.html

Joseph Stiglitz

27 dez 2025

[Nota do Website: Reflexões bem marcantes do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, chamando nossa atenção, de forma dura e direta, de como o atual governo dos EUA, está criando um momento bagunçado para o país. Vale a pena ler e conhecer os pontos de vista lúcidos e embasados desse cidadão do mundo].

As políticas autoritárias, anti-imigração e protecionistas adotadas pelo presidente republicano estão enfraquecendo a economia dos EUA e já interromperam a era da globalização do pós-guerra, argumenta o professor da Universidade Columbia em um artigo de opinião no jornal “Le Monde”.

Já se tornou quase um costume encerrar cada ano falando sobre uma “policrise” e reconhecendo a dificuldade de antecipar um futuro que parece repleto de riscos de novas guerras, pandemias, crises financeiras e catástrofes climáticas. No entanto, 2025 adicionou um ingrediente particularmente tóxico a essa mistura: o retorno de Donald Trump à Casa Branca, cujas políticas erráticas e ilegais já desestabilizaram a era da globalização pós-guerra. Diante de tanto caos e incerteza, podemos afirmar com certeza para onde as economias americana e global estão caminhando?

Uma coisa é certa: a economia americana não está indo tão bem quanto Donald Trump quer que acreditemos. A criação de empregos praticamente parou, o que não é surpreendente, visto que o presidente semeou incerteza e enfraqueceu a economia a um nível sem precedentes.

Do lado da oferta, sua política mais perniciosa tem sido o ataque frontal aos trabalhadores imigrantes (e, de forma mais ampla, aos trabalhadores americanos de pele escura). As deportações em massa promovidas pelo governo — realizadas por agentes mascarados do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) que prendem pessoas nas ruas — destruíram a fonte mais importante de mão de obra complementar em um momento em que a força de trabalho nacional está diminuindo. Isso afeta a todos, porque os americanos não só dependem de imigrantes em setores que vão da agricultura e construção civil à hotelaria e cuidados com idosos, como esses imigrantes também são uma fonte de demanda. E agora, muitos afro-americanos, mesmo cidadãos dos EUA, têm medo de sair de casa por receio de serem sequestrados e brutalizados pelo ICE.

Os efeitos negativos dos cortes orçamentários indiscriminados de Donald Trump também reverberaram por toda a economia. Os cortes orçamentários têm efeitos multiplicadores e, no contexto atual, os custos foram amplificados pela natureza errática do processo. A abordagem incompetente e autoritária do governo semeou ainda mais incerteza e levou empresas e consumidores a adotarem uma postura mais cautelosa.

As tarifas — sejam elas impostas ou brandidas como ameaça — e outras políticas inconsistentes devem ser reconhecidas pelo que são: um grande choque para a oferta econômica. Elas adicionaram, desnecessariamente, incerteza aos custos de produção e aos preços pagos pelos consumidores, tornando impossível qualquer planejamento sério para as empresas.

E esses são apenas os efeitos de curto prazo. A perspectiva de longo prazo para a economia americana parece ainda mais sombria, tudo por culpa de Donald Trump. Afinal, a vantagem comparativa dos Estados Unidos sempre se baseou na tecnologia e no ensino superior sem restrições. Ao atacar a pesquisa e tentar privar as universidades de financiamento federal, a menos que elas atendam às suas exigências, o presidente está dando um tiro no próprio pé.

Alvos de extorsão

Como muitos laureados com o Prêmio Nobel de Economia já apontaram, a “riqueza das nações” reside em suas instituições, particularmente no Estado de Direito. Donald Trump está substituindo-o por um sistema de extorsão baseado em transações (e auto transações), no qual favores governamentais (como licenças de exportação para a Nvidia ou subsídios para a Intel) são concedidos em troca de participação nos lucros futuros da empresa. É claro que, com o tempo, os alvos da extorsão diminuirão. Muitos países, conscientes do perigo da dependência dos Estados Unidos, já estão buscando novos acordos comerciais.

Então, por que o produto interno bruto continua crescendo (embora não tão fortemente quanto durante a presidência de Joe Biden), com o mercado de ações atingindo novos recordes e a inflação permanecendo abaixo dos níveis previstos pelos críticos? Diversas explicações podem ser oferecidas para justificar essa aparente força. Quanto ao mercado de ações, o crescimento permanece bastante limitado, concentrado em um punhado de gigantes da tecnologia: Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla.

No entanto, as avaliações dessas empresas refletem expectativas de lucros monopolistas de longo prazo que podem nunca se concretizar (isso é especialmente verdadeiro para a Tesla, devido ao apoio de Elon Musk a Donald Trump, que alienou muitos consumidores). Estou entre os muitos comentaristas que veem as avaliações atuais como produto de uma bolha, que sustentou não apenas o mercado de ações, mas toda a economia. Os investimentos maciços em IA compensaram a fragilidade do restante da economia. Como todas as bolhas desse tipo, porém, esta também acabará estourando. Ninguém sabe exatamente quando, mas com uma economia tão dependente de um único setor, o colapso inevitavelmente será sentido em larga escala.

Pior ainda, se a IA for bem-sucedida, como preveem seus defensores, poderá ser um prenúncio de outros problemas graves, já que essa tecnologia corre o risco de substituir muitos trabalhadores e exacerbar ainda mais a desigualdade. Some-se a isso a redução do setor público exigida pelos pseudo-libertários tecnológicos do Vale do Silício, e só nos resta questionar o que sustentará a economia americana nos próximos anos.

Quanto à inflação, há uma explicação simples para o fato de ela ainda não ter aumentado significativamente. Primeiro, as tarifas impostas pelo presidente geralmente não são tão altas quanto ele anunciou inicialmente (embora as tarifas punitivas de 50% impostas à Índia, um país que os Estados Unidos consideravam um aliado antes do retorno de Donald Trump, sejam chocantemente severas). Além disso, seus efeitos costumam ser sentidos com bastante atraso. Muitas empresas evitaram aumentar os preços até verem o que seus concorrentes farão, e algumas não os aumentarão até que os estoques de mercadorias compradas antes da imposição das tarifas se esgotem. Se as tarifas que Donald Trump ameaça impor à China fossem de fato implementadas, a situação seria diferente. Nesse caso, o colapso das cadeias de suprimentos poderia levar a aumentos de preços superiores às próprias tarifas.

Caprichos de um Rei Louco

Isso me leva à questão crucial: que país se submeteria de bom grado aos caprichos de um rei louco? Não é como se os Estados Unidos tivessem o monopólio do fornecimento de minerais essenciais ou elementos de terras raras, sem os quais a era industrial moderna entraria em colapso. Não é como se não existissem outros mercados. A lei da oferta e da procura funciona tão bem sem os Estados Unidos quanto com eles.

Como nos ensinaram Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), o crescimento econômico depende da exploração de vantagens comparativas e economias de escala. No entanto, como Donald Trump (e o presidente russo Vladimir Putin) demonstraram, depender de parceiros comerciais pouco confiáveis ​​pode ser extremamente desvantajoso. Além disso, os Estados Unidos já não são tão dominantes como antes. Atualmente, representam menos de 10% das exportações globais. Enquanto os lucros de algumas empresas sofrerão em uma economia global pós-americana, outros se beneficiarão. Enquanto alguns trabalhadores terão que encontrar outros empregos, outros verão suas habilidades serem requisitadas novamente.

Certamente, no curto prazo, isso não será fácil. Na nova economia global que emergirá no longo prazo, porém, os Estados Unidos terão perdido sua hegemonia. É para esse cenário que nos encaminhamos ao entrarmos em nosso segundo ano à mercê dos caprichos de um presidente desequilibrado. A transição já começou e, embora o crescimento global sofra, o impacto pode ser menos severo do que muitos temem. Na Europa, por exemplo, os investimentos em rearmamento — outra consequência das políticas autodestrutivas de Donald Trump — impulsionarão a economia.

O momento decisivo pode chegar com as eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro de 2026. Eleições que não sejam tão livres e justas quanto se esperaria de uma verdadeira democracia (como muitos temem) marcariam uma virada sombria. Mas se o crescente descontentamento com a gestão econômica de Donald Trump e a derrocada do país rumo ao autoritarismo levarem os democratas a retomar o controle de pelo menos uma das casas do Congresso, isso marcará uma virada na direção oposta. De qualquer forma, os Estados Unidos e o mundo ainda terão que lidar com pelo menos mais dois anos de incompetência e incerteza econômica.

Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, janeiro de 2026

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