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13 abr 2026
[Nota do Website: Colocação do autor fundamental para que a sociedade não se deixe dominar por preguiça, negligência ou ignorância por essa tecnologia que deve estar a serviço das pessoas e não submetê-las. Um alerta importantíssimo de que devemos estar sempre alerta para não ficarmos fascinados e submissos ao poder da IA].
O debate público sobre o impacto da IA na sociedade concentra-se amplamente no potencial deslocamento de trabalhadores e na perda de empregos. Mas um risco ainda maior é o deslocamento do pensamento humano e dos processos que produzem a base de conhecimento na qual os próprios modelos de IA se baseiam.
CAMBRIDGE — Há poucos anos, a IA parecia apenas um brinquedo interessante: um chatbot que simulava inteligência ao montar frases completas em resposta às perguntas dos usuários, mas que, no fim das contas, não era muito mais sofisticado do que um mecanismo de busca avançado. Agora, porém, ela se provou uma ferramenta incrível, capaz de realizar tarefas que eu jamais imaginei serem possíveis em minha vida.
Por exemplo, utilizei IA para localizar conjuntos de dados online, manipulá-los, realizar testes estatísticos e produzir tabelas e gráficos refinados, com comentários pertinentes sobre o significado dos resultados, sua relação com a literatura acadêmica e os pontos fortes e fracos da análise. Em menos de meia hora, a IA consegue realizar um trabalho que levaria vários dias para um assistente de pesquisa.
Às vezes, os modelos de IA atuais parecem quase capazes de ler sua mente. Ao contrário da programação ou da escrita de código, você não precisa especificar com muita precisão o que está procurando, o que elimina a possibilidade de interpretações errôneas. O modelo “intuirá” o que você deseja e preencherá os detalhes faltantes (embora seja sempre recomendável verificá-los, como podem atestar escritórios de advocacia que já apresentaram petições geradas por IA com citações fictícias). Ou, na falta disso, a interface solicitará informações até que você esclareça sua dúvida.
É reconfortante pensar que a IA pode ser uma ferramenta que nos ajudará a todos a sermos mais produtivos e melhores no que fazemos. Certamente, ela me tornou mais eficiente em pesquisa. Reduz os custos dos empreendedores, fornecendo serviços de marketing e consultoria a baixo custo. Permite que agentes de atendimento ao cliente juniores se beneficiem das habilidades e da experiência de funcionários mais experientes. E possibilita que trabalhadores autônomos ou artesãos ofereçam serviços mais sofisticados e tecnicamente exigentes.
Diferentemente de muitas tecnologias anteriores, a IA está em uma posição única para ajudar aqueles com menos habilidades e menos escolaridade — trabalhadores que ocupam os níveis mais baixos da economia. Ao dotar cada um de nós com maiores capacidades, ela oferece vantagens que são potencialmente mais significativas para aqueles com as maiores desvantagens iniciais. Isso significa que ela pode funcionar de maneira muito diferente, por exemplo, da automação, cujo principal objetivo é substituir trabalhadores na linha de montagem ou em funções administrativas/de vendas.
A preocupação, claro, é que a IA faça muito mais do que isso, com consequências incertas. Por ora, considero a escolha e a formulação das perguntas de pesquisa como minha prerrogativa e a principal fonte da minha vantagem competitiva. Mas, em algum momento, imagino-me tentado a pedir à IA que gere as próprias perguntas. Aliás, as ferramentas de IA que utilizo já me incentivam a fazer isso. Ao final de um exercício como o que descrevi acima, elas sugerem, de forma sutil, outras vias de investigação proveitosas que eu poderia explorar.
A IA substitui o pensamento de outras maneiras, mais sutis. Ela já está moldando a forma como penso sobre as pesquisas existentes. Não apenas resume o que já foi publicado, como também me mostra como pesquisas adjacentes se relacionam com o meu trabalho e como devo abordá-las. Ela estabelece conexões entre diferentes partes da literatura que eu não havia percebido.
Aí reside o maior perigo. O debate público sobre o impacto da IA na sociedade concentra-se amplamente no potencial deslocamento de trabalhadores e na perda de empregos. Mas um risco ainda maior é o deslocamento do pensamento humano (nt.: destaque em negrito dado pela tradução). Quando permitimos que a IA pense por nós, cruzamos um limiar importante. Nossa capacidade coletiva de pensar se degrada, assim como nosso incentivo para aprender a pensar. E como a linha que separa a aplicação do pensamento a um problema do pensamento em si já é tênue, ela é facilmente ultrapassada.
Em um artigo recente interessante, Daron Acemoglu , Dingwen Kong e Asuman Ozdaglar, do MIT, formalizam uma intuição sobre como essa terceirização cognitiva pode produzir resultados catastróficos. Eles questionam o que acontece quando os modelos de IA se tornam muito bons em fornecer o tipo de conhecimento específico ao contexto que pode ajudar as pessoas a executar quaisquer tarefas específicas em que estejam envolvidas. Tais resultados permitiriam que as pessoas alcançassem melhores resultados, mesmo com menos aprendizado.
Mas há um problema aqui, porque o conhecimento tem uma externalidade importante. Ao pensar em como resolver meu problema, também contribuo para o acervo geral de conhecimento sobre como os outros podem resolver os seus. Quando invisto menos no meu próprio aprendizado, o acervo geral de conhecimento sofre. No caso extremo e distópico, o conhecimento geral desaparece completamente.
É verdade que, por enquanto, isso é apenas uma possibilidade teórica e, dependendo do que se presume sobre a intensidade dos efeitos concorrentes, resultados melhores também são possíveis. Mas o perigo é real. Quando permitimos que a IA aprenda e pense por nós, degradamos nossas próprias capacidades humanas — e corremos o risco de, eventualmente, destruir a base de conhecimento da qual a própria IA depende.
Abordar essas questões exigirá o desenvolvimento de normas sociais e profissionais sobre o uso apropriado da IA. Por exemplo, os pesquisadores podem precisar incluir divulgações detalhadas sobre como utilizaram a IA — um processo que poderia ser automatizado pelas próprias ferramentas de IA — com as decisões de publicação e promoção priorizando os produtos da mente humana. Organizações como a Partnership on AI podem ajudar a desenvolver e disseminar princípios gerais. Também precisaremos de novas formas de regulamentação governamental, como praticamente toda nova tecnologia já exigiu.
Uma condição necessária para tais soluções é uma nova forma de pensar sobre a IA. Acima de tudo, o discurso público precisa de uma abordagem diferente. A questão que devemos discutir não é o que a IA fará conosco, mas o que queremos que ela faça por nós.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, abril de 2026