embarcacoes As grandes represas e sua relação com a má qualidade da água

Embarcações de pescadores no rio Mekong, norte do Laos. O rio já tem 30 represas e se prevê a construção de mais 134 obras hidrelétricas. Foto: Irwin Loy/IPS

Washington, Estados Unidos, 4/9/2014 – Os pesquisadores constataram, em 80% das vezes, que a presença de represas de grande porte, em geral superiores a 15 metros de altura, implica má qualidade da água, com altos níveis de mercúrio e sedimentação presa. Também apontam que as correlações não indicam necessariamente relações causais, mas sugerem um padrão mundial claro. A IR solicita agora que uma comissão intergovernamental de especialistas elabore um método sistêmico para avaliar e monitorar a saúde das bacias fluviais do planeta.

“A fragmentação dos rios devido às décadas de construção de represas está altamente correlacionada com a má qualidade da água e a baixa biodiversidade”, afirmou a IR ao apresentar O Estado dos Rios do Mundo, uma base de dados na internet com as conclusões do estudo. “Em muitas das grandes bacias fluviais do mundo, foram construídas represas até o ponto de provocar sua grave deterioração”, segundo a investigação.

A bacia dos rios Tigre e Eufrates tem 39 represas e é um dos sistemas mais “fragmentados”, segundo a IR. A consequência é uma grande redução nos pântanos tradicionais da região, incluída a flora tolerante ao sal que ajuda a manter as zonas costeiras, bem como a redução na fertilidade da terra. A pesquisa monitorou a construção das represas junto com indicadores sobre a biodiversidade e a qualidade da água nas bacias fluviais afetadas.

“A maioria dos governos, em particular no mundo em desenvolvimento, não tem a capacidade de realizar um acompanhamento deste tipo de dados, por isso, nesse sentido, estão às cegas quando adotam políticas relativas à construção de represas”, afirmou à IPS Zachary Hurwitz, o coordenador do estudo.

Quatro dos cinco sistemas fluviais mais fragmentados estão na Ásia meridional e oriental, segundo o estudo. E quatro dos dez mais afetados se encontram na Europa e na América do Norte, que tem a maior quantidade de represas, especialmente nos Estados Unidos. A construção destas obras afeta relativamente menos dois dos continentes mais pobres, África e América do Sul. Mas as duas regiões têm enorme potencial hidrelétrico e uma demanda energética crescente, por isso muitos de seus países pretendem tirar proveito dessa energia.

Segundo a IR, o Brasil prevê construir mais de 650 represas de todos os tamanhos. O país também abriga uma grande quantidade de espécies que seriam ameaçadas por este tipo de obras. Brasil, China e Índia, não constroem represas apenas em seus territórios, mas suas companhias também vendem cada vez mais este tipo de construção para outras nações em desenvolvimento.

As “bacias menos fragmentadas são alvo atualmente de uma grande expansão da construção de represas”, apontou Hurwitz. “Mas, se nos fixarmos na experiência e nos dados das áreas com uma construção historicamente alta de represas, como a bacia do Mississippi, nos Estados Unidos, e a do Danúbio, na Europa, é provável que essas tendências preocupantes se repitam nas bacias menos fragmentadas se continuar essa proliferação de construções”, acrescentou.

Os ativistas expressam uma inquietação especial diante da confluência da construção das represas e o impacto potencial da mudança climática na biodiversidade de água doce. A IR pede que uma comissão intergovernamental de especialistas avalie o estado das bacias fluviais do planeta, a fim de elaborar indicadores para uma avaliação sistêmica e melhores práticas de conservação dos rios.

“A evidência que recopilamos dos impactos em escala mundial da alteração dos rios é suficientemente forte para justificar maior atenção internacional com a finalidade de compreender os limites da modificação fluvial nas principais bacias do mundo”, disse Jason Rainey, diretor-executivo da IR, em um comunicado.

Em particular para os países em desenvolvimento com uma crescente demanda por energia, as preocupações sobre a construção de represas de grande volume transcendem as considerações de caráter ambiental ou mesmo social.

O acesso a energia continua sendo um fator central para o desenvolvimento e sua escassez repercute em temas tão variados como a educação e a industrialização. Além disso, a preocupação pela mudança climática revitalizou o interesse pelas represas de grande porte, como ficou claro na decisão do Banco Mundial de 2013, de retornar a este tipo de projeto.

Entretanto, a discussão se mantém quanto ser a melhor solução, especialmente para os países em desenvolvimento. As grandes represas custam, em geral, vários milhares de milhões de dólares e exigem intenso planejamento que, em obras passadas, chegaram a superar a capacidade de economias frágeis.

Em março deste ano, um influente estudo da Universidade de Oxford, da Grã-Bretanha, investigou 250 represas grandes construídas a partir de 1920 e constatou uma onipresença de sobrecustos e descumprimento de prazos de construção. “Encontramos evidência esmagadora de que os orçamentos têm sistematicamente um viés inferior aos custos reais das grandes represas hidrelétricas”, escreveram os autores no resumo do estudo.

“Na maioria dos países, as grandes hidrelétricas terão um custo muito alto e levará muito tempo para gerar uma rentabilidade positiva, a menos que sejam proporcionadas medidas de gestão de riscos adequadas a um custo acessível”, acrescentaram os autores do estudo. Por outro lado, recomendaram às autoridades dos países em desenvolvimento que adotem “alternativas energéticas ágeis” que possam ser construídas com maior rapidez.

Do outro lado da discussão, a Comissão Internacional de Grandes Represas, uma organização com sede em Paris, criticou as conclusões do estudo porque este se centrou em um conjunto pouco representativo de represas extremamente grandes. Seu presidente, Adama Nombre, também questionou o impacto climático das opções alternativas recomendadas pelos investigadores da Universidades de Oxford.

“Quais seriam essas alternativas?”, perguntou Nombre. “As usinas de combustíveis fósseis que consomem carvão ou gás. Sem dizer explicitamente, os autores utilizam um arrazoamento puramente financeiro para nos levar a um sistema elétrico que emite carbono”, acrescentou.