
Em dezembro passado, a Copa Cogeca reuniu milhares de agricultores de toda a UE para protestar em Bruxelas. Fotografia: Emile Windal/Belga/Shutterstock
Zach Boren
16 jul 2026
[Nota do Website: Essa matéria tem um aspecto extremamente perturbador. É tanto a doutrina como a ideologia que acabou por contaminar toda a chamada produção de alimentos, desde a base. Ou seja, desde o agricultor. Houve um tempo em que se fazia ‘agricultura’, ou seja, praticava-se a ‘cultura no campo’. E cultura não era só o cultivo, mas cultura no sentido mais amplo de ação do ser humano com as forças da natureza. No entanto, essa situação parece ter desaparecido dentro da doutrina e da ideologia do ‘agribusiness’, no estilo estadunidense. De cultura está-se no negócio no e do campo. Deixou-se de produzir para comer, mas sim produzir para vender. Não importa mais como. E isso domina, como uma crença transcendente, todos os espaços planetários. O ‘agribusiness’ não é só uma atividade típica das ex-colônias como as Américas. Hoje os EUA é que ‘colonizaram’ também os colonizadores do Velho Continente. E tem sido da pior espécie. Porque se ignora que a agricultura deveria produzir saúde e bem viver integrado com os espaços onde se chega para colher alimentos. Agora não mais. Hoje a visão industrialista se apossou dos locais onde existia harmonia e interação com os outros seres que habitam o mesmo Planeta. Só o que importa é o lucro, acima de tudo e de todos!].
Exclusivo: Documentos de alto nível mostram como a Copa Cogeca trabalhou para enfraquecer a legislação de proteção climática e da vida selvagem.
Documentos recentemente divulgados, provenientes do interior do lobby agrícola mais poderoso da Europa, mostram como ele atrasou, enfraqueceu e anulou algumas das reformas agrícolas mais abrangentes da história da UE, incluindo um plano para reduzir pela metade o uso de agrotóxicos.
A Copa Cogeca (nt.: é a união de duas organizações que congregam a COPA mais de 22 milhões de agricultores e a COGECA, mais de 22 mil cooperativas que envolvam atividades rurais ou pesqueiras) se descreve como a voz de 22 milhões de agricultores em todo o continente e goza de acesso inigualável aos legisladores da UE. Chegou a ser descrita como uma “parceira na formulação de políticas”.
Assim, quando a UE lançou planos para reformas agrícolas radicais em 2020, em resposta às preocupações com as alterações climáticas e a crise ambiental, a Copa Cogeca entrou em ação e, em fevereiro de 2021, definiu a sua estratégia de lobbying. Dezenas de documentos que registram reuniões internas da Copa Cogeca, obtidos pelo Grilled – um projeto de jornalismo investigativo focado em sistemas alimentares – e pelo The Guardian, oferecem um raro vislumbre do funcionamento interno da empresa de lobbying.
Produtos de origem animal controversos – como foie gras e peles – seriam defendidos, disse Pekka Pesonen, então secretário-geral da Copa Cogeca, aos membros, “da mesma forma que o tabaco”.
Uma das principais metas da UE era reduzir o uso de agrotóxicos pela metade para proteger a biodiversidade. A resposta da Copa Cogeca, segundo os documentos, foi combinar táticas de protelação com uma intensificação do lobby.
“As eleições para o Parlamento Europeu serão em 2024”, diz a nota de setembro de 2022. “Talvez valha a pena adiar até lá. Devemos forçar a Comissão [Europeia] a abandonar seus objetivos.”
Na mesma reunião, o grupo de pressão decidiu exigir uma nova avaliação de impacto para a política, que a Comissão realizou no final do ano, atrasando o processo de formulação de políticas em seis meses. Na primavera seguinte, rejeitou um relatório do Parlamento Europeu sobre a política, considerando-o “ofensivo”, e os seus membros apresentaram aos embaixadores da UE, num evento da Copa Cogeca, uma pesquisa encomendada por entidades privadas que destacava os impactos econômicos. Os Estados-Membros, segundo consta da ata, “demonstraram compreensão”.
Os documentos também registram o lobby da organização para proteger o uso de agrotóxicos prejudiciais às abelhas e o glifosato, que a Organização Mundial da Saúde, órgão de pesquisa do câncer, classificou como provavelmente cancerígeno. “Pressionem as representações permanentes para que apoiem” a renovação da licença do glifosato, disse o secretariado aos membros. “A Copa Cogeca enviará uma carta às representações permanentes.”
Thomas Waitz, eurodeputado austríaco do Partido Verde e membro da comissão da agricultura, afirmou: “A Copa Cogeca concentrou-se em sabotar, atrasar e, em última instância, acabar com a regulamentação do uso sustentável de agrotóxicos. Eles estão agindo em benefício das grandes multinacionais agroquímicas e contra o bem-estar dos pequenos e médios agricultores.”

A regulamentação sobre agrotóxicos foi retirada em fevereiro de 2024, apenas alguns meses antes das eleições para as quais a Copa Cogeca vinha deliberadamente protelando.
A UE está agora debatendo uma proposta que eliminaria as reavaliações periódicas de segurança exigidas para os agrotóxicos já comercializados.
Reduzir o consumo de carne vermelha também foi uma prioridade. Todos os anos, a UE gasta centenas de milhões de euros na promoção de produtos agrícolas, incluindo a campanha publicitária “Torne-se um Beefatarian” (Become a Beefatarian), de 2020, que gerou protestos entre ativistas. Quando a Comissão propôs restringir esse investimento em carne vermelha e processada como parte de seu plano de combate ao câncer, a Copa Cogeca considerou isso uma ameaça existencial.
“Não estamos falando aqui apenas de política de promoção”, disseram autoridades em uma reunião em janeiro de 2022. “Se a carne for tratada dessa forma lá, isso se estenderá a outras políticas também.”
A Copa Cogeca coordenou três comissários nomeados para contestar as novas diretrizes, trouxe os lobbies do vinho e do álcool como aliados e orientou seus membros a pressionarem seus governos nacionais para que removessem as restrições. No ano seguinte, as medidas foram atenuadas. No ano seguinte, os critérios de saúde foram discretamente abandonados. O veredicto da Copa Cogeca: “O lobby deu frutos”.
A Copa Cogeca agiu rapidamente para flexibilizar as regras sobre granjas industriais antes mesmo de o público as conhecer. Um memorando interno de 2022 afirma que cartas enviadas a comissários de alto escalão resultaram no aumento de 50% do limite para o que é considerado uma granja industrial – com base no número de animais criados – antes da divulgação da proposta. Uma análise constatou que a mudança custou ao público € 1,8 bilhão (£ 1,5 bilhão) por ano em benefícios de saúde perdidos.
Este foi apenas o começo de uma operação que durou anos. Parlamentares foram levados a visitas organizadas a fazendas na Bélgica. Campanhas na mídia foram lançadas. Cartas foram enviadas aos embaixadores da UE antes de votações cruciais no Conselho Europeu. No dia da votação parlamentar final, tratores e eurodeputados convidados se reuniram em frente ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, enquanto um telão transmitia ao vivo a votação da Diretiva de Emissões Industriais (IED).
A versão final da lei foi ainda muito mais fraca, elevando significativamente os limites para granjas de aves e suínos e excluindo completamente a pecuária bovina. Apenas cerca de 1% das fazendas de gado da Europa seriam abrangidas pela proposta original. Marco Contiero, diretor de política agrícola do Greenpeace UE, afirmou que a Copa Cogeca “optou por proteger um pequeno grupo de operadores altamente industrializados responsáveis por uma parcela desproporcional da poluição”, em vez de defender a maioria dos agricultores europeus.

Em relação ao bem-estar animal, as declarações privadas da Copa Cogeca e suas posições públicas contam histórias diferentes. Em uma reunião interna em 2021, um representante afirmou que o setor poderia abandonar imediatamente a criação em gaiolas se recebesse apoio financeiro. Mas a posição de lobby da Copa Cogeca exigia um período de transição de até 15 anos. A Comissão Europeia deve anunciar planos para eliminar gradualmente as gaiolas para galinhas poedeiras até o final de 2026, anos depois de seu compromisso inicial.
Em relação aos lobos, a Copa Cogeca passou anos tentando retirar o status de proteção do animal da legislação ambiental da UE, um objetivo que seus próprios funcionários descreveram em privado como “provavelmente ingênuo”, já que a diretiva permaneceu inalterada por 30 anos. No entanto, em setembro de 2024, o presidium declarou: “Uma grande vitória de lobby. A luta acabou”. A diretiva sobre habitats foi alterada em junho de 2025. Os documentos da Copa Cogeca mostram que a organização imediatamente começou a elaborar uma lista de outros animais e aves que gostaria de ver como alvo em seguida.
Apesar dos múltiplos pedidos de comentários, a Copa Cogeca preferiu não se manifestar.
Um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que as decisões foram tomadas “nos termos da Europa, segundo as regras da Europa e no interesse europeu”.
“O interesse do agronegócio não é simplificar o Pacto Ecológico Europeu”, disse Delara Burkhardt, eurodeputada alemã da Comissão do Meio Ambiente. “Eles querem desmantelá-lo.”
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, agosto de 2026