
Vista aérea dos currais de confinamento da Blackshirt Feeders no Condado de Dundy, Nebraska. Crédito: Sonya Doctorian/Inside Climate News
09 ago 2026
[Nota do Website: Matéria que nos traz aquilo que representa o ‘sonho’ dos que praticam o agronegócio brasileiro. Ele está completamente fundado na ideologia, criada pelos estadunidenses, do ‘agribusiness’. Nela a vida, em todas as suas formas, está, pura e simplesmente, a serviço do capital. Mesmo que isso leve à trágica situação que vivem hoje, as populações do icônico ‘Corn Belt’ (Cinturão do Milho) onde o câncer e muitíssimas outras síndromes atacam tanto o povo do campo como da cidade. O centro-oeste, a Amazônia, o Cerrado, o sudeste e agora o sul do Brasil, estão sendo, paulatina e inexoravelmente, contaminados, envenenados, por essa visão de mundo. Mesmo com a recusa da União Europeia de receber a carne brasileira, pela contaminação irresponsável de antibióticos, todos os encandilados supremacistas brancos que invadiram, a partir da ditadura militar, todos os espaços antes livres da doença do lucro, nem se abalam em refazerem suas crenças nessa doutrina estadunidense. Mas infelizes somos nós, o povo em geral, que, por ignorância, fica com os rejeitos dos portentosos do Hemisfério Norte].
No Nebraska, a Blackshirt Feeders LP está construindo o maior confinamento de gado do país, com capacidade para 200.000 cabeças de gado bovino, em uma área de concreto de uma milha quadrada.
Alimentando a Fera: Primeiro de uma série sobre regulamentação frouxa, influência corporativa e a indústria de carne americana, altamente poluente, porém praticamente intocável.

HAIGLER, Nebraska — O extremo sudoeste deste estado se estende como um mar ondulante de pradaria verde-escura, onde o gado supera em número os habitantes há gerações.
Uma placa ao longo da rodovia US 34, pouco antes da estrada cruzar para o condado de Dundy vindo do Colorado, diz: “Bem-vindo à terra da pecuária”. Outra, na rodovia estadual 27, que serpenteia para o norte desde as colinas de grama curta do noroeste do Kansas, declara Dundy um “condado amigo da pecuária”.
Quase tudo aqui — as lojas de suprimentos agrícolas, os campos de milho, os postos de gasolina, os hotéis, as escolas, os bares — funciona, de uma forma ou de outra, a serviço da grande máquina americana da carne bovina. Cada caminhão semirreboque carregado de gado, cada rajada de vento impregnada de esterco, é um lembrete de que esta vasta planície, além da compreensão da maioria dos americanos, alimenta seus apetites mesmo assim.
Décadas atrás, a maior parte do gado criado nos Estados Unidos pastava em pastagens como estas, levando vários anos para atingir o peso ideal para o abate, ou seja, a circunferência mais lucrativa. Mas, na década de 1950, os pecuaristas descobriram que, se o gado passasse seus últimos meses em currais e fosse alimentado com uma dieta rica em grãos para ganho de peso, esse período seria reduzido.
Este foi o início de um conceito que gerou seu próprio termo técnico regulatório: Operação Concentrada de Alimentação Animal (CAFO/Concentrated animal feeding operations, na sigla em inglês), onde bovinos de corte, vacas leiteiras, suínos e aves são criados em confinamento e alimentados com grãos de alta energia antes do abate. No caso dos bovinos de corte, essas instalações são coloquialmente chamadas de confinamento ou piquetes de engorda.
Esse sistema de confinamento intensificado fez com que a indústria de carne americana fosse amplamente e cada vez mais imitada. Dá lucro. Atendeu abundantemente à crescente demanda global por hambúrgueres, cachorros-quentes e asas de frango baratos.
Mas aqui, numa parte do país onde muitas pessoas podem traçar suas raízes até os primórdios da pecuária e onde criar gado é praticamente um direito de nascença, chega um ponto em que até elas dizem que esse conceito vai longe demais.
Dentro de um ou dois anos, quase 350 hectares deste condado — uma extensão maior que um quilômetro quadrado e duas vezes o tamanho do maior estacionamento contínuo asfaltado do país, no Astrodome, em Houston — estarão cobertos de concreto, e nele, 200.000 cabeças de gado viverão seus últimos meses antes de serem transportadas para o abate. Elas comerão cerca de 9 kg de grãos por dia, chegando a pesar 635 kg ou mais cada uma. Consumirão, segundo algumas estimativas, 75 litros de água por dia ou mais — quase 5,7 bilhões de litros por ano, coletivamente. Sofrerão com o calor intenso do sol do Nebraska durante o dia e passarão as noites iluminadas por uma série de luzes potentes tão brilhantes que pessoas a 24 quilômetros de distância confundirão a iluminação com a de uma cidade.
Eles terão a distinção de serem criados no maior confinamento de gado em um único local do país.
Ao longo dos últimos 50 anos, a indústria pecuária, nos Estados Unidos e em todo o mundo, consolidou-se, com um número menor de empresas proprietárias de instalações cada vez maiores e com mais animais. Essa invenção tipicamente americana (nt.: destaque dado pela tradução), a FAZENDA INDUSTRIAL(nt.: destaque em caixa alta e negrito dado pela tradução), tornou-se o padrão global. Hoje, mais de 90% dos animais consumidos como alimento nos EUA são criados em confinamento industrial, incluindo o gado que começa a vida no pasto, mas é engordado em confinamento. Globalmente, esse número é de cerca de 75%.
Essa gigantificação teve um preço. Comunidades por todo o país, como a pequena vila de Haigler, localizada a cerca de 10 quilômetros do confinamento de gado Blackshirt, tornaram-se zonas de sacrifício em busca de uma produção de carne eficiente. Em muitos lugares próximos aos confinamentos, a água se tornou imprópria para consumo. O mau cheiro torna impossível ficar ao ar livre. O ar está deixando as pessoas doentes.

Ter um grande confinamento intensivo de animais (CAFO/Concentrated animal feeding operations) no quintal de casa é como morar ao lado de uma usina elétrica ou de uma estação de tratamento de esgoto, especialmente se for uma única e enorme instalação ou várias agrupadas em uma mesma área. Na Carolina do Norte e em Iowa, os epicentros da indústria suína americana, odores nauseabundos viajam quilômetros e o excesso de esterco, quando aplicado nos campos, contamina a água potável. Em algumas áreas da Califórnia, o principal estado produtor de laticínios do país, famílias precisam de equipamentos médicos especiais para respirarem. Nos estados do sudeste, conhecidos como o “Cinturão dos Frangos de Corte”, misturas tóxicas de esterco, urina, cama e penas são levadas para os cursos d’água, sufocando o oxigênio e criando “zonas mortas” aquáticas (nt.: IMPORTANTE! Nesse parágrafo temos a realidade nua e crua do que é o agribusiness estadunidense. Uma calamidade com relação à contaminação com estercos e outros resíduos orgânicos que pela alta presença de nitratos, acabam gerando cânceres e outras síndromes. AQUI SE PODE LEVAR EM CONTA A TOXICOLOGIA CLÁSSICA DA IDADE MÉDIA DE PARACELSUS. Sim, nesse caso a dose está relacionada com os efeitos. Diferente das moléculas sintéticas, disruptoras endócrinas, que agem a nível infinitesimal por imitarem ou bloquearem hormônios naturais e assim atuam como eles, em doses mínimas).
As consequências, quando multiplicadas, atingem uma escala global.
À medida que a indústria (nt.: OU MELHOR, NO MOMENTO EM QUE A AGRICULTURA SE FAZ NOS MOLDES DA INDÚSTRIA QUE LIGA COM ‘COISAS MORTAS’ E NÃO VIVAS, ESSE É O RESULTADO) replicou o modelo de criação intensiva de animais em todo o mundo, o número de cabeças de gado aumentou consideravelmente, levando a um aumento nas emissões de gases de efeito estufa relacionadas à pecuária. A produção pecuária global é responsável por algo entre 16,5% e pouco menos de 20% do total de emissões de gases de efeito estufa. Pesquisadores determinaram que, mesmo que o mundo parasse de usar combustíveis fósseis, a maior fonte de gases de efeito estufa, não há como atingir as metas climáticas globais sem reduzir as emissões do sistema alimentar, incluindo as provenientes da pecuária.
A pecuária leiteira e de corte é a maior fonte de emissões da agricultura, sendo responsável por mais de um terço das emissões mundiais de metano, um gás de efeito estufa particularmente potente. Nos EUA, mesmo com um número menor de cabeças de gado do que no auge da década de 1970, as emissões de metano aumentaram. Estima-se que as emissões de gases de efeito estufa provenientes da pecuária de corte nos EUA representem cerca de 4% do total do país, o que pode parecer pouco, mas coloca as emissões do setor no mesmo patamar das emissões totais de alguns países desenvolvidos, aproximando-se das da Espanha.
A principal fonte de metano proveniente do gado são as emissões entéricas — seus arrotos (nt.: reação natural já que são animais ruminantes. Ou seja, tem dois sistemas digestivos por regurgitarem o que comem/pastam). Mais animais significam mais arrotos. Mas o principal fator do aumento de metano em sistemas de confinamento intensivo é a forma como o esterco é manejado: quando misturado com líquidos e armazenado, torna-se uma bomba de metano. Desde 1990, o metano proveniente de sistemas de manejo de esterco aumentou mais de 65%. As emissões entéricas representam a maior parcela de qualquer setor, incluindo estimativas oficiais, mas provavelmente subestimadas, das emissões da indústria de petróleo e gás, e aumentaram 5%.
Apesar de gerar uma quantidade significativa de gases de efeito estufa, a indústria pecuária é pouco regulamentada nos EUA, o maior produtor mundial de carne bovina e o segundo maior produtor de laticínios. O poderoso lobby do agronegócio e seus aliados no Congresso continuam a barrar qualquer tentativa de monitorar as emissões de gases de efeito estufa provenientes da pecuária, muito menos de reduzi-las. O setor de carne bovina está ciente há muito tempo de seus impactos sobre os gases de efeito estufa e, assim como a indústria de petróleo e gás, tem se esforçado para minimizar seu papel e confundir o público.
Os grandes produtores de gado são obrigados a obter licenças de acordo com a Lei da Água Limpa, mas estas são gerenciadas por agências ambientais estaduais e são notoriamente permissivas e pouco fiscalizadas. Enquanto isso, as emissões de gases de efeito estufa provenientes de CAFOs (Concentrated Animal Feeding Operations, ou Operações Concentradas de Alimentação Animal) são em grande parte não medidas e não fiscalizadas.
“A maioria das fazendas industriais do país permanece sem regulamentação pelas nossas leis ambientais fundamentais, incluindo a Lei da Água Limpa”, disse Tarah Heinzen, diretora jurídica da Food & Water Watch, um grupo de defesa que entrou com dezenas de ações judiciais, tentando pressionar os órgãos reguladores e a indústria a limitar a poluição proveniente das CAFOs (Operações Concentradas de Alimentação Animal). “Nosso sistema frouxo está transformando este país em um ímã de resíduos para essa indústria. Absorvemos todos os impactos nocivos e exportamos os produtos para o mundo todo, e agora estamos exportando o modelo.”(nt.: esta tem sido a grande TRAGÉDIA brasileira tanto no norte como no centro-oeste e mesmo também nos estados do sul e sudeste, ao imitarem esse terrível modelo agrícola).

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), que administra a Lei da Água Limpa, afirmou que apenas 36% dos CAFOs (Operações Concentradas de Alimentação Animal) do país possuem licenças de acordo com a lei — e o número total delas divulgado pela agência provavelmente representa uma subnotificação significativa, pois, em muitos estados, os órgãos reguladores sequer sabem onde essas operações estão localizadas.
Os dois primeiros governos de Trump continuaram a flexibilizar as já frágeis regulamentações sobre agricultura, isentando as fontes agrícolas da obrigação de relatar poluentes atmosféricos perigosos, reduzindo os prazos de avaliação ambiental, revertendo restrições a produtos químicos agrícolas potencialmente perigosos e restringindo a definição do que constitui uma hidrovia navegável, o que permite que as fazendas despejem o escoamento em corpos d’água e apliquem fertilizantes e agrotóxicos sem licenças.
Com a política de não intervenção dos órgãos reguladores em relação à pecuária, os CAFOs (Concentrated Animal Feeding Operations, ou Operações Concentradas de Alimentação Animal) atingiram proporções monstruosas. A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) define um CAFO de 1.000 animais como “grande” e não impõe proteções ou disposições adicionais para instalações que cresceram até 200 vezes esse tamanho.
“A lei é completamente neutra em relação ao tamanho. Ela não tem absolutamente nenhum mecanismo para dizer: Sabe de uma coisa? Produzir tanto lixo quanto uma grande cidade americana sem estação de tratamento de esgoto é um problema diferente — uma ameaça maior — do que o lixo de 1.000 vacas”, acrescentou Heinzen. “Literalmente, não há restrições contra a expansão da escala dessas instalações.”
Heinzen explicou que os órgãos reguladores estaduais poderiam, tecnicamente, impor limites ao tamanho dos CAFOs (Operações Concentradas de Alimentação Animal), mas ela não tem conhecimento de nenhum estado que o tenha feito.
Poucos políticos ou reguladores parecem dispostos a dizer que o tamanho é excessivo, ou a enfrentar empresas pecuárias com vastos recursos financeiros e advogados qualificados. Hoje, pelo menos cinco estados, além de Nebraska, possuem ou têm permissão para manter confinamento intensivo de gado bovino com 100.000 cabeças de gado ou mais: Texas, Kansas, Idaho, Arizona e Califórnia.
No Nebraska, onde as placas de veículos já exibiram a inscrição “O Estado da Carne” e onde a pecuária é a principal indústria, a cultura permissiva permeia desde o gabinete do governador até as comissões e conselhos de zoneamento dos condados, que, segundo críticos, foram dominados pelos grandes nomes do setor.
A Blackshirt Feeders, LP, fundada por um trio de investidores canadenses, iniciou as obras em 2023, prometendo construir uma instalação de última geração. Hoje, a extensa operação, escondida atrás de algumas colinas baixas e invisível da Rodovia 34, é um projeto de construção em andamento, um complexo de concreto aparentemente em constante expansão, coberto por 95.000 animais cuja carne será cortada e embalada em um dos principais matadouros estrategicamente localizados nas proximidades.
Pouquíssimas pessoas aqui estão felizes com isso. Algumas lutaram contra.
Brad Dixon, que cresceu na região e cria gado, foi direto ao ponto: “Eles estão destruindo o Condado de Dundy.”
Dixon e seus colegas críticos enumeram uma série de preocupações: odores, moscas, aumento do tráfego, investidores de fora da cidade. A maior delas, porém, é a enorme necessidade de água da operação. Grande parte do Nebraska fica acima do Aquífero Ogallala, o maior do país, uma fonte crucial de água potável para milhões de pessoas e de água para irrigação para mais de um quarto de todo o território nacional. Décadas de uso excessivo, principalmente para a agricultura, ameaçaram o abastecimento do aquífero, e uma seca persistente está acelerando o declínio.
A água sempre foi um recurso muito bem guardado por aqui. Hoje em dia, com todo o condado enfrentando condições de “seca anormal” e algumas áreas entrando regularmente em “seca extrema”, isso se tornou ainda mais crucial.
“Bem, provavelmente terei que moderar um pouco o meu discurso”, disse o fazendeiro Stan Jones, ao começar a expressar seus pensamentos com uma moderação deliberada que muitas pessoas aqui parecem compartilhar. “Estou muito preocupado com a água.”
Mesmo no Nebraska, onde a criação de gado está profundamente enraizada na cultura, economia e mentalidade do estado, algumas pessoas estão fazendo as coisas de outra maneira.
Kevin Fulton, pecuarista e crítico ferrenho da tendência da indústria pecuária em direção ao confinamento e à expansão, leva seu gado para pastar em uma área a cerca de 240 quilômetros a leste do Condado de Dundy.
“Quero deixar claro que ganho a vida com a agricultura e a criação de gado, então não sou nenhum ativista maluco”, disse ele. “Mas existe uma maneira correta de fazer as coisas e existe uma maneira que é vergonhosa para o setor, e é isso que eu considero algo como a Blackshirt Feeders e outras instalações semelhantes. Elas são uma vergonha para o setor do qual faço parte.”
O melhor lugar
Quando Eric Behlke retornou ao Condado de Dundy, ele tinha uma missão.
Natural de Benkelman, sede do condado, ele acabou indo para a Universidade Estadual de Iowa para cursar veterinária e depois se mudou para o Canadá para trabalhar na Feedlot Health Management Services, uma empresa de consultoria que ajuda empresas a construirem CAFOs (Operações Concentradas de Alimentação Animal) em todo o mundo.
Agora ele estava de volta com um objetivo: construir o maior confinamento de gado do estado.

Ele e dois outros investidores batizaram sua nova empresa de Blackshirt Feeders, em referência ao apelido da linha defensiva do time de futebol americano Cornhuskers da Universidade de Nebraska.
“Procuramos por todos os Estados Unidos e chegamos à conclusão de que o Condado de Dundy era o melhor local da América para construir um confinamento de gado em grande escala”, disse Kee Jim, um dos sócios de Behlke e desenvolvedor de confinamento de longa data, destacando a proximidade de 11 grandes frigoríficos na região e a abundância de milho no condado. “O gado come milho e, para ter o menor custo possível na alimentação animal, essa é uma ótima opção.”
Jim também mencionou outro fator fundamental: a segurança regulatória.
O governador do Nebraska, Jim Pillen, que reconheceu os problemas de água potável do estado, tentou facilitar a obtenção de licenças para CAFOs (Operações Concentradas de Alimentação Animal). De acordo com uma investigação do Flatwater Free Press, a administração de Pillen esteve por trás de um projeto de lei que proibiria os condados de considerarem a potencial poluição da água em suas avaliações de CAFOs e que encerraria as audiências públicas nas comissões de zoneamento locais, frequentemente o primeiro obstáculo para a obtenção das licenças necessárias para CAFOs.
No fim, o projeto de lei foi rejeitado, mas este ano Pillen conseguiu a segunda melhor alternativa ao sancionar outra lei destinada a obrigar as juntas administrativas dos condados a tomarem decisões sobre as licenças para CAFOs (Operações Concentradas de Alimentação Animal) em até 90 dias. A lei, segundo o Instituto Platte, que desempenhou um papel fundamental em sua elaboração e aprovação, eliminará as “considerações subjetivas” dos funcionários do condado ao decidirem se concedem ou não a licença para uma CAFO.
Jim, que reside em Alberta, Canadá, declarou recentemente a uma publicação canadense especializada em comércio agrícola que o ambiente regulatório foi um dos motivos pelos quais a Blackshirt voltou suas atenções para o Nebraska.
“Posso garantir que não existe lugar em Alberta onde você consiga uma licença para um confinamento de 200.000 cabeças de gado, ponto final”, disse Jim. “Além disso, se você quiser construir um biodigestor e não quiser passar por uma batalha judicial de quatro anos, também não vai conseguir em Alberta.”
O Departamento de Água, Energia e Meio Ambiente do Nebraska (DWEE), responsável pela emissão de licenças para confinamento de animais em áreas de criação intensiva (CAFOs) no estado, aprovou a instalação de um biodigestor no local — uma estrutura que transformaria o esterco e os efluentes do confinamento em gás natural. Jim disse que espera que a construção do biodigestor comece ainda este ano.
“O ambiente regulatório é mais favorável devido à certeza que oferece quando todos os requisitos são cumpridos”, acrescentou Jim, em entrevista ao Inside Climate News. “Mesmo para quem não é advogado, é muito claro: se você cumprir os requisitos, receberá a licença.”
Ainda assim, a Blackshirt pode ter previsto resistência local.
Deb Frasier, cuja família possui terras ao norte de Benkelman desde a década de 1880, lembra-se de ter recebido um telefonema de Behlke há alguns anos. Ele disse que estava interessado em comprar cerca de mais ou menos 350 hectares dela e começou com uma frase intrigante.
“Ele disse que queria salvar o Condado de Dundy”, lembrou Frasier. “Eu disse que não achava que o Condado de Dundy precisasse ser salvo.”
Frasier imediatamente disse a Behlke que o terreno não era adequado para o projeto que ele tinha em mente.
“Eu disse que aquele é o pior lugar do mundo para instalar um confinamento de gado”, disse ela, observando que a estrada que leva até lá fica intransitável no inverno e durante chuvas fortes. “Vai haver escoamento superficial. Vai escorrer na minha propriedade, vai escorrer na propriedade dos meus vizinhos. Vocês vão ter que bombear o esterco morro acima. Não há serviço ferroviário. Não há estradas.”
Frasier e um grupo de outros proprietários de terras e moradores do condado começaram a organizar uma campanha contra o confinamento de gado, baseada em uma lista de preocupações, principalmente relacionadas ao uso e à qualidade da água. Eles contaram com a ajuda de um pecuarista chamado Mike Callicrate, que administra uma criação de gado a pasto e tem sido uma pedra no sapato do setor há décadas. Na década de 1990, Callicrate processou a gigante da carne bovina e suína IBP, acusando a empresa de monopolizar o mercado de carne bovina e fixar preços. Em 2012, ele processou o Departamento de Agricultura dos EUA e a Associação Nacional de Pecuaristas (National Cattlemen’s Beef Association), o maior grupo de lobby do setor pecuário, acusando-os de usar indevidamente fundos arrecadados de pecuaristas por um programa administrado pelo governo federal para promover operações pecuárias industriais em larga escala e prejudicar pequenos ranchos familiares.


Em seus escritórios em St. Francis, Kansas, a cerca de 29 quilômetros ao sul de Haigler, Callicrate circula animadamente, apresentando seus funcionários, apontando para produtos de carne bovina em uma pequena loja no local e exibindo um produto que o ajudou a se manter à tona: sua versão de um dispositivo chamado bander, que castra touros sem cirurgia.
Na parede acima de sua mesa, está pendurada uma foto em preto e branco de 1971 de Callicrate montando um touro, de seus tempos de rodeio competitivo. Ele é em parte pecuarista-filósofo, em parte empresário e um herói para muitos pequenos pecuaristas por seus esforços para desmantelar a indústria da carne bovina, que está em constante consolidação.
Ele não poupa palavras ao falar sobre Blackshirt. “Será muito pior do que o seu pior pesadelo”, diz Callicrate. “Quem imaginaria que eles colocariam 200 mil animais em cima do concreto?”
Callicrate apontou para outro dos enormes confinamentos de gado do estado, em Broken Bow. “Falar em destruição ambiental”, disse Callicrate. “Quer dizer, eles construíram aquele curral para até 85 ou 100 mil cabeças de gado. Broken Bow era um lugar extremamente poluído. Sempre que o vento soprava do sul, era inabitável. Totalmente inabitável.”
Callicrate faz parte do conselho do Projeto de Agricultura Socialmente Responsável, que mantém uma linha direta para pessoas que tentam impedir a instalação de confinamento intensivo de animais em suas propriedades e oferece assistência jurídica para esses esforços. Com a ajuda deles, Frasier e alguns de seus colegas críticos do Blackshirt conseguiram persuadir os membros do conselho do condado a votar contra a proposta de confinamento em larga escala.


Mas, após uma série de audiências públicas controversas, os membros do conselho finalmente mudaram de ideia. Em 2022, eles afirmaram que, se a solicitação da Blackshirt atendesse a todos os requisitos de zoneamento, não teriam outra opção senão votar sim.
Os críticos do confinamento de gado dizem que os advogados da Blackshirt ameaçaram processá-los. Questionado sobre isso, Behlke disse ao Inside Climate News: “Não me lembro de nenhuma ameaça de processo ou de qualquer ação judicial.”
Outros críticos afirmam que os membros do conselho foram influenciados pelo grande aumento na arrecadação de impostos e pela promessa de novos empregos. Este ano, a Blackshirt prevê pagar quase US$ 440.000 em impostos, dos quais mais de US$ 250.000 serão destinados às escolas do condado. A Blackshirt também prometeu comprar todo o milho cultivado na região para alimentar seu gado.
“Quando atingirmos a capacidade máxima, com 200 mil cabeças de gado, utilizaremos cerca de 550 mil toneladas”, disse Behlke. “Isso equivale a cerca de 95 milhões de dólares.”
Um mês após a aprovação da proposta pelo conselho, a Blackshirt desistiu do local original, optando por transferir seus planos para uma área mais remota, com menos moradores nas proximidades. E lá, decidiram expandir ainda mais, aumentando o número de funcionários propostos de 100.000 para 150.000. No pedido para o novo local, próximo a Haigler, a Blackshirt afirmou que a nova localização resolveria as preocupações com o local original.
“Estamos nos esforçando muito para sermos bons vizinhos e criarmos oportunidades”, disse Behlke.
O conselho votou a favor da aprovação da nova localização. Em seguida, no verão de 2025, o conselho aprovou uma expansão para 200.000 animais no local. Autoridades da DWEE disseram que a agência não havia recebido o pedido de expansão da Blackshirt até meados de julho deste ano, mas Behlke afirmou que planeja submetê-lo ainda este ano.
Hoje, pelo menos um dos membros do conselho do condado que aprovou o confinamento de gado tem alguns arrependimentos.
“Minha maior preocupação é com a degradação do solo — e eles ainda estão produzindo concreto lá”, disse Richard Bartholomew, que talvez tenha sido o crítico mais veemente do conselho. “Na época — e ainda penso assim — eu preferiria operações menores que estivessem envolvidas com a comunidade. Quer dizer, esta é uma operação enorme.”
Rezando pela chuva
Em junho deste ano, após um longo período com pouca ou nenhuma chuva, o governador, um dos maiores produtores de suínos do estado, incentivou um grupo de pessoas a se reunir e orar no Capitólio estadual.
Alguns dias depois, no X, Pillen escreveu: “em um ano em que agricultores e pecuaristas enfrentaram seca, incêndios, inundações e ventos fortes, oramos especificamente por chuva.”
Abaixo da publicação, havia uma imagem de uma tempestade varrendo o estado. “Esta é a chuva que caiu em Nebraska nos dias seguintes”, acrescentou Pillen. “A oração funciona, e precisamos orar mais.”
Mas, apesar dos poucos dias de chuva, a seca persiste. No final de julho, mais de 60% do estado sofria com seca severa e mais de 20% com seca extrema, com algumas áreas em situação de seca excepcional.
A água tem sido uma preocupação constante no Nebraska, onde o rio Ogallala e uma extensa rede de rios fornecem a força vital da economia agrícola. Por mais de 50 anos, o estado dividiu a regulamentação da água por bacias hidrográficas, concedendo o controle local a órgãos chamados Distritos de Recursos Naturais. Atualmente, existem 23 desses distritos, incluindo o Distrito de Recursos Naturais do Alto Rio Republican, que abrange o Condado de Dundy e dois condados vizinhos.
A paisagem aqui, vista do ar, parece uma espécie de colcha moderna, um padrão repetitivo de círculos dentro de quadrados, pontuado por alguns retângulos. Essa geometria não significa nada para quem não é agricultor. Mas pense da seguinte maneira: os círculos se formam ao redor de um pivô central de irrigação. É ali que o grão é cultivado. Os retângulos marrons ocasionais nesse mar de círculos são os confinamentos onde grande parte desse grão é consumida.


Este é o sistema que, em alguns lugares, consumiu as águas subterrâneas do estado. O levantamento mais recente do estado observa que, com exceção de duas pequenas áreas na região noroeste, Dundy e os condados vizinhos de Chase e Perkins sofreram os maiores níveis de esgotamento hídrico do estado, principalmente devido à irrigação. O sistema de irrigação do distrito depende quase que inteiramente de águas subterrâneas. A irrigação de cerca de 750 hectares no distrito do Alto Rio Republican provém de águas superficiais — rios e córregos —, enquanto a irrigação de 125.000 hectares provém de águas subterrâneas ligadas ao aquífero.
A falta de chuvas e a seca contínua impediram a recarga do aquífero, exigindo uma gestão rigorosa por parte das autoridades locais. Os níveis do aquífero naquela região do estado continuam a diminuir.
Quando a equipe Blackshirt defendeu a criação do confinamento, teve que abordar a projeção de consumo de água. O gado consome muita água, tanto direta quanto indiretamente. Eles bebem muita água, especialmente em temperaturas extremamente altas. Lavar o esterco exige ainda mais água. Cultivar o milho que consomem requer ainda mais.
O condado permite uma certa quantidade de água para uso em confinamentos de gado, mas se uma instalação precisar de mais do que essa quantidade, ela precisa, essencialmente, fazer uma troca. A Blackshirt comprou 13 campos com poços que abastecem sistemas de irrigação por pivô central em uma parte do condado e está desativando esses poços e restaurando a vegetação nativa ao redor para compensar o consumo de água do confinamento no novo local. Os funcionários do distrito do Alto Rio Republican aprovaram a troca. Até o momento, a Blackshirt desativou quatro desses poços e planeja desativar mais, se necessário.
“Eram boas áreas para deixar de produzir”, disse Jasper Fanning, gerente geral do distrito, observando que o terreno naquela área já estava em más condições.

Mas os pecuaristas e agricultores locais, que têm se preocupado em conservar água há gerações, desconfiaram do acordo. Eles se referem ao acordo como “água de papel” — ter o direito legal de bombear água em um local e depois transferir esse direito para outro local, podendo bombear ainda mais água lá. Muitos deles criticaram a afirmação de Blackshirt — e a aceitação por parte do distrito — de que cada animal beberia 22 litros de água por dia.
“Eles vão usar muita água, e essa área já está com recursos hídricos esgotados”, disse Dixon, o opositor local bastante crítico. “Jasper permitiu que eles fizessem uma projeção de uso de 22 litros de água. É simplesmente ridículo que tenham chegado a essa estimativa.”
A Blackshirt contratou uma empresa de engenharia para analisar os potenciais impactos futuros do uso da água no confinamento de gado, e a análise concluiu que, com base na “espessura saturada” do aquífero na área do confinamento, “é razoável inferir que existe espessura suficiente no aquífero para suportar o rebaixamento do nível da água devido à operação do confinamento por até 50 anos, possivelmente mais”.
O relatório da empresa também reconheceu que suas estimativas eram limitadas por diversos fatores, incluindo “o fato de que o modelo usado neste relatório se baseia em conjuntos de dados climáticos, de evapotranspiração e de bombeamento anteriores e pressupõe que esses itens do balanço hídrico permanecerão os mesmos no futuro”.
Fanning disse estar ciente das reclamações e das sugestões de que teria se aproximado de Blackshirt. “Eis como nosso distrito lida com isso”, explicou. “Estabelecemos uma cota e temos a compensação — a exigência de compensação. Se você vai usar 128 milhões de litros de água, precisa compensar esse mesmo valor. … Portanto, não me importa quanta água o gado acabe consumindo em comparação com o que Blackshirt disse que consumiria. Do ponto de vista regulatório, é responsabilidade deles. Eles terão que alimentar menos gado ou encontrar mais compensação.”
De acordo com as projeções da própria empresa, a Blackshirt será a maior consumidora de água em um único local no distrito, e atualmente é a maior consumidora de água em um único local no Condado de Dundy. Em 2024, ano em que começou a engordar o gado, o confinamento consumiu cerca de 170 milhões de litros de água, segundo o distrito. Em 2025, quando o número de cabeças de gado havia crescido para 88.000, o consumo de água chegou a quase 790 milhões de litros d’água.
Isso equivale aproximadamente a 320 piscinas olímpicas, sem levar em conta a enorme quantidade de água usada para cultivar o milho que alimenta os animais. Um cálculo completo também incluiria essa água. Em maio deste ano, já haviam sido consumidos mais de 407 milhões de litros d’água, de acordo com as leituras dos poços — e isso antes do calor do verão ou da construção do biodigestor, que deverá consumir outros 615 milhões de litros d’água por ano.
Mas Behlke afirmou que não haverá perda total de água. “Áreas adicionais de terras agrícolas irrigadas serão desativadas conforme necessário para garantir que não haja aumento líquido na extração do aquífero em nenhum cenário”, explicou.
Um problema de escala
O consumo de água da Blackshirt não é a única preocupação da comunidade relacionada à água.
A Blackshirt prevê que 150.000 vacas gerarão 1 milhão e 360 mil toneladas de esterco por ano, mas que sua construção de última geração permite lidar melhor com esse enorme volume. Em sua capacidade máxima de 200.000 vacas, esse volume poderia chegar a pelo menos 2 milhões e 200 mil toneladas de esterco, com base nas estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA sobre a geração de esterco por vaca.
Conforme Behlke explicou ao conselho do condado e ao público, o confinamento seria construído em uma área de aproximadamente 2,6 km² de concreto compactado com rolo, uma superfície não reforçada usada para pavimentar aeródromos durante a Segunda Guerra Mundial. A superfície, segundo a Blackshirt, proporciona melhor tração para o gado e elimina a lama. A empresa também afirma que reduzirá a poeira, as moscas e o odor.

A empresa destacou que, segundo a empresa, essa superfície permitiria que o esterco e os resíduos fluíssem com mais eficiência para lagoas de contenção revestidas de polietileno e, daí, para o biodigestor. De acordo com a licença estadual, é permitido o depósito de resíduos adicionais em mais de 12.000 hectares de terras agrícolas adjacentes.
No ano passado, de acordo com registros fornecidos ao estado pela empresa de engenharia de Blackshirt, mais de 410 mil toneladas de resíduos foram aplicados em campos próximos e mais de 18.000 toneladas foram transferidas para fora do local.
Behlke explicou que essa aplicação de resíduos está sendo feita em “taxas agronômicas aprovadas”.
Apesar desse sistema, o estado multou Blackshirt por violações relacionadas a nitratos (nt.: comprovadamente gerador de cânceres) em um poço de água potável no início de janeiro deste ano, e medições feitas em abril mostram níveis de nitrato duas e três vezes superiores ao limite legal de 10 miligramas por litro em dois poços de monitoramento.
Os dados de amostragem no banco de dados da DWEE mostram que o nível mais alto de nitrato em Haigler em 30 anos foi de 4,1 miligramas por litro em 1996, mas as pessoas aqui temem que esse nível possa aumentar à medida que mais resíduos da Blackshirt forem parar nos campos agrícolas da região.
Assim como seus vizinhos com forte atividade agrícola no Kansas e em Iowa, o Nebraska enfrenta um problema constante de poluição por nitratos, proveniente principalmente da aplicação excessiva de esterco e do uso intensivo de fertilizantes sintéticos essenciais (nt.: é a ureia do adubo industrial NPK=nitrogênio, fósforo e potássio) para o cultivo de milho. No sudoeste do Kansas, região conhecida como o “Triângulo Dourado da Indústria de Carnes” devido à grande quantidade de confinamentos e matadouros, a concentração de nitratos na água é quatro vezes maior que o limite legal. Pesquisas mostram que a poluição por nitratos tende a se concentrar em áreas com alta densidade de CAFOs (Operações Concentradas de Alimentação Animal).
Uma extensa série de reportagens do Flatwater Free Press documentou a contaminação generalizada por nitratos em todo o Nebraska, revelando grandes lacunas na fiscalização regulatória.
A poluição por nitratos tem sido associada a certos tipos de câncer, problemas reprodutivos e à “síndrome do bebê azul”, uma doença potencialmente fatal que afeta bebês.
Os órgãos reguladores estaduais exigem que as CAFOs (Concentrated Animal Feeding Operations, ou Operações Concentradas de Alimentação Animal) tenham planos de gestão de nutrientes, conforme suas licenças de uso da água. Esses planos permitem que a instalação espalhe esterco e efluentes em propriedades além da própria CAFO. No entanto, uma vez que esse esterco é aplicado em outro local, o estado deixa de fiscalizá-lo, conforme apurou o Flatwater Free Press. Os órgãos reguladores estaduais e locais divergem sobre quem, exatamente, é responsável pela supervisão da enorme quantidade de esterco gerada nas CAFOs depois que ele é enviado para fora da propriedade.
Um porta-voz do departamento disse ao Inside Climate News que a Blackshirt não violou seu plano de gestão de nutrientes. Para “transferências de esterco, a CAFO (Operação Concentrada de Alimentação Animal) deve manter registros da pessoa que recebeu o esterco, seu endereço postal, a quantidade de esterco transferida, a data da transferência e documentar que o destinatário recebeu uma análise de nutrientes do esterco”.
O departamento verifica esses registros “a cada dois ou três anos”, disse o porta-voz, acrescentando que eles não são disponibilizados online.
O estado também exige que as CAFOs (Operações Concentradas de Alimentação Animal) tenham planos para o descarte de animais mortos como parte de seu plano de gestão de nutrientes, mas não exige que a instalação compartilhe os registros de mortalidade.
Os críticos das CAFOs (Concentrated Animal Feeding Operations, ou Operações Concentradas de Alimentação Animal) afirmam que as inovações da Blackshirt no local — para descartar bilhões de quilos de esterco, controlar o uso da água ou consumir milhões de quilos de milho — são meramente soluções para um problema que ela mesma criou.
“Essas são soluções técnicas para problemas criados pela escala”, disse Andrew deCoriolis, diretor executivo da Farm Forward, um grupo de defesa que trabalha para acabar com as fazendas industriais. “A novidade de um quilômetro quadrado de concreto é a capacidade de capturar o digestato. É uma questão econômica, em última análise, mas também de poder aumentar a densidade de forma massiva.”
Ao longo da Supervia CAFO
A rodovia 34 parte de Haigler, atravessa as colinas onduladas do vale do rio Republican, depois as planícies douradas do leste do Colorado, até chegar a Greeley, onde o planalto das altas planícies termina abruptamente ao pé das Montanhas Rochosas. Greeley abriga um enorme frigorífico administrado pela maior empresa de carne bovina do mundo, a JBS (nt.: transnacional brasileira de carne), que é apenas um dos grandes frigoríficos a poucas horas de carro.
Ao longo dessa faixa de estrada de 257 quilômetros (160 milhas), encontram-se alguns das maiores CAFOs (Concentrated Animal Feeding Operations, ou Operações Concentradas de Alimentação Animal) da região, cada uma delas uma extensa área marrom repleta de gado amontoado. Quase todos os veículos que passam em alta velocidade são ou um “caminhão-tanque” — os reboques de alumínio de dois andares projetados especificamente para transportarem gado e assim chamados devido à sua câmara central profunda — ou um caminhão semirreboque, carregando ração.

Mas, ao contrário dos outros confinamentos, o Blackshirt Feeders não é visível da estrada, estando escondido por algumas colinas baixas, com apenas o topo de sua imponente e moderna fábrica de ração despontando no céu como uma espécie de antena. Para ter uma visão completa do local, é preciso contorná-lo por pequenas estradas de terra. A localização aparentemente clandestina, a escala, as caminhonetes brancas anônimas que circulam por ali, tudo contribui para a sensação de ser um campo de testes secreto do governo.
Essa obscuridade é até benéfica para algumas pessoas em Haigler.
A inauguração do confinamento de gado em outubro de 2024 atraiu centenas de pessoas, incluindo Pillen e o senador americano Pete Ricketts.
Segundo o Scoop Media News, Ricketts disse à multidão que o confinamento de gado representava um “desenvolvimento econômico fantástico” e era “muito importante para o nosso estado”.
Em Haigler, uma cidade com 145 habitantes, Behlke comprou uma casa amarela no alto da colina acima da cidade. No Haigler Country Cafe ou no Jake’s Place, o bar local repleto de objetos relacionados aos Cornhuskers (nt.: time de futebol americano de Nebraska), as pessoas reclamam dele e do enorme confinamento de gado que ele trouxe para a cidade.
É claro que aqui todo mundo se conhece. As pessoas não apenas deixam as chaves na ignição, como também deixam suas caminhonetes ligadas. No cemitério — ou no que as pessoas daqui chamam de “a colina” — as lápides trazem os nomes dos ancestrais de todos, numa trilha ininterrupta até o passado.



Numa manhã recente de junho, as mesas do café estavam lotadas, com clientes bebendo café em canecas de vidro verde, tendo recortes de jornais antigos e desbotados nas paredes atrás delas, além de uma foto quase obrigatória de John Wayne.
“Quando você chega a uma cidade pequena e aperta a mão de alguém, essa é a sua palavra”, disse Lori Reed, sentada com amigos, com os cabelos cor de damasco presos por uma presilha cravejada de strass. “Aqui você está vendo cinco, seis gerações. Nossas famílias estão no alto da colina. Você não fala a menos que esteja falando sério.”
Reed mora no Wyoming agora, mas sua família está aqui há muito tempo, disse ela. Seus amigos ainda moram aqui e, como muitas pessoas, relutam em criticar abertamente a maior empresa da cidade. Mas os moradores de Haigler se sentem decepcionados e amargurados. Não lhes foi prometido emprego ou um impulso econômico formal, mas era isso que esperavam — e era isso que as autoridades do condado e dos Blackshirt disseram que aconteceria. Em vez disso, os trabalhadores do confinamento vieram de fora da região e muitos deles moram em Wray, Colorado, do outro lado da fronteira, gastando seus rendimentos com moradia e serviços por lá.
“Eric trouxe gente da Austrália”, disse Reed, enfatizando o ponto. Reed chama o confinamento de “fábrica de metanfetamina” — por causa do metano.
Behlke nega que os Blackshirt tenham contratado alguém da Austrália.
Korrie Bush diz que agora vai depender do seu emprego de meio período no corpo de bombeiros. No início do mês, ela teve que fechar a loja de pneus e conveniência que havia aberto na rodovia 34, esperando um aumento na clientela vinda do confinamento de gado. Mas os caminhões de cascalho que entram e saem do confinamento o dia todo, entregando o material para os novos currais de concreto, raramente paravam em sua loja.
“Administrei-a com orgulho durante três anos”, disse ela. “Vendemo-la há duas semanas.”
Bush tem sentimentos contraditórios. Amigos organizaram um leilão beneficente para ajudar sua família quando seu marido foi diagnosticado com câncer de garganta. A banda Blackshirt doou uma televisão.
“Eles ajudaram minha família”, disse ela, pegando sua xícara de café, com uma tatuagem de cavalos negros galopando em seu antebraço. “Mas não ajudaram meu negócio.”
Dan Leinin se encontra regularmente no café com um grupo de amigos. Pecuarista de longa data, ele diz que mora “a oito quilômetros ao sul daquele buraco fétido”.

Leinin, assim como outros, se ressente do fato de as autoridades do condado terem dado sinal verde para a construção do confinamento de gado perto de Haigler. “Eles dizem que não podiam impedir”, disse ele, com um sorriso fácil no rosto que contradizia seus sentimentos. “Nós questionamos isso.”
Leinin diz que muitas coisas o incomodam. O cheiro. (“Eu crio gado. Gado fede”, disse ele. “Dizem que não cheira mal. Acredite em mim, cheira. Temos um rancho a 14 quilômetros ao norte e sentimos o cheiro lá também.”) O aumento do tráfego de caminhões. A perda do céu noturno.
“Estamos acostumados com a escuridão por aqui”, disse ele.
Mas eis o que mais o incomoda: “Bem, a quantidade!”, exclamou ele, referindo-se ao grande número de animais.
A cerca de seis quilômetros e meio a leste de Haigler, há mais uma placa indicando o condado, esta surgindo em meio a um gramado, ao lado de uma grande ravina.
“Após o massacre dos búfalos e o fim das caçadas aos indígenas, os fazendeiros se mudaram para esta parte da região do Rio Republican em 1875”, diz o texto. “Em 1881, este cânion era conhecido como Cânion da Trilha do Texas, e um posto de controle foi estabelecido aqui em 1883-84, onde o gado era inspecionado para verificar marcas e doenças. Diz-se que 150.000 cabeças de gado passaram por aqui em 1886, o último ano das jornadas de gado pela trilha.”
Até o final deste ano, a Blackshirt pretende ter essa quantidade de animais em um único confinamento. Eles entrarão e sairão em currais ao longo de uma extensa rede de estradas que, um século e meio depois, ainda são o coração da indústria pecuária americana. Esses irmãos genéticos do búfalo selvagem se alimentarão de milho floculado de alta tecnologia, beberão água de bebedouros automáticos de grande volume e ficarão em pé sobre trechos de concreto até estarem prontos para o abate.
Os fazendeiros cujos ancestrais estão enterrados na colina agora se perguntam o que restou deste lugar para eles.
“Todo mundo por aqui diz que a gente tem que conviver com isso”, disse Leinin. “Eles estão aqui.”

Nota do Website: Para se conhecer a realidade brasileira, anexamos o vídeo que mostra, conforme a mídia, onde exalta os 5 maiores confinamentos do país: https://www.youtube.com/watch?v=kzT6yqcruTw
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, agosto de 2026