Agricultura: A indústria de carne bovina americana percebeu seu impacto climático há décadas

Gado bovino pasta em uma área fechada na fazenda Gehrke em Elgin, Illinois, em 5 de abril de 2008. Foto do Departamento de Agricultura dos EUA/Flickr

https://www.nationalobserver.com/2025/03/21/news/american-beef-industry-climate-impact

Georgina Gustin

21 mar 2025

[NOTA DO WEBSITE: Quando estamos destruindo toda a Amazônia, mais o Pantanal e o Cerrado por causa das famigeradas ‘commodities’, entre elas a carne bovina, toda a mídia nacional, ’empreendedores’, governos e políticos das três esferas da União, e a população completa e irresponsavelmente alheia à vida real, louvam o ‘‘ por trazer dividendos para o país. Mas vamos ser honestos, poucos se locupletam desses ‘dividendos’, no entanto é toda a humanidade que colhe os efeitos deletérios de toda essa loucura do supremacismo branco, antropocentrista, dominado pelo capitalismo mais indigno e cruel. Mas a população que está subjugada pelas teia das redes sociais, não tem noção do que está permitindo que se faça com a sobrevivência do futuro de todos].

A indústria de carne bovina americana sabia que a criação de gado era uma fonte significativa de emissões que causavam o aquecimento do planeta já em 1989, mas se esforçou para desacreditar os esforços públicos para reduzir o consumo de carne bovina nos anos seguintes, de acordo com uma nova pesquisa.

O impacto da indústria pecuária nas mudanças climáticas se tornou amplamente conhecido com um relatório bombástico das Nações Unidas publicado em 2006, chamado Livestock’s Long Shadow, que foi o primeiro grande esforço para calcular as emissões de gases de efeito estufa da produção pecuária. O relatório deixou claro que reduzir as emissões da produção de gado e laticínios era crucial para desacelerar a crise climática.  

Mas dois estudos recentes, um deles publicado na terça-feira, dizem que a indústria pecuária americana estava ciente de seu impacto climático muito antes de meados da década de 2000 e, assim como a indústria do petróleo — que estava ciente de seus impactos décadas antes de seus primeiros reconhecimentos públicos — tentou ofuscar seu papel no aquecimento da atmosfera.

“Não conseguimos avaliar há quanto tempo a indústria da carne está envolvida na obstrução climática”, disse Jennifer Jacquet, autora principal de ambos os novos estudos, cujo trabalho anterior monitorou os esforços da indústria para se distanciar de seus impactos climáticos.

Jacquet, professora de ciência ambiental e política na Universidade de Miami, observou que o relatório da ONU de 2006 representou um ponto de inflexão, não apenas tornando o público ciente do impacto climático da pecuária, mas também alertando a indústria de que ela poderia ser potencialmente alvo de regulamentação. O relatório disse que as emissões climáticas da pecuária — que vêm da conversão de florestas em pastagens, cultivo de ração, arrotos de vacas que emitem metano e armazenamento de esterco — eram cerca de 18% do total global, mais até do que o setor de transporte.  

Após a publicação do relatório, a indústria pecuária financiou pesquisas que desafiaram as descobertas do relatório da ONU. Pesquisadores da ONU revisaram o número para 14,5 por cento em um relatório subsequente, e alguns disseram que foram pressionados por lobistas da indústria a reexaminar as descobertas do relatório inicial. 

Mas Jacquet e seus colegas começaram a suspeitar que a indústria pecuária provavelmente estava ciente de suas emissões bem antes do relatório da ONU, então ela começou a pesquisar registros do governo e os próprios arquivos da indústria. 

“Eu realmente não entendia a história da ciência, então comecei a pesquisar sobre isso”, ela diz. 

Em 1989 — um ano depois de James Hansen, da NASA, ter dito ao Congresso que as mudanças climáticas representavam uma ameaça global — a Agência de Proteção Ambiental/EPA realizou um workshop com foco nas emissões de metano da pecuária e, logo depois, publicou um relatório, “Reduzindo as Emissões de Metano da Pecuária”. O relatório disse que a pecuária era uma grande fonte de metano e estimou que uma redução de 50% nas emissões globais da pecuária renderia enormes benefícios para estabilizar esse gás de efeito estufa especialmente potente. Escondido em um apêndice estava a seguinte sugestão: “A redução das emissões de metano de ruminantes deve ser buscada como parte de uma investigação geral sobre alternativas para reduzir o aquecimento global futuro e seus impactos”.

Os números atuais dizem que a agricultura é a maior fonte de emissões antropogênicas, ou causadas pelo homem, de metano — cerca de 40 por cento — e a maior parte disso vem da pecuária. Embora não seja tão abundante na atmosfera quanto o dióxido de carbono, a capacidade de retenção de calor do metano é 80 vezes maior em um período de tempo mais curto.

Jacquet e seus coautores observam que representantes da indústria de carnes e laticínios compareceram ao workshop da EPA de 1989, incluindo um membro da National Cattlemen’s Association. Vários meses e um punhado de reuniões de planejamento depois, a associação, que é o maior lobby de carne bovina do país e agora conhecida como National Cattlemen’s Beef Association, ou NCBA, desenvolveu um “ Plano Estratégico sobre o Meio Ambiente” para combater problemas de relações públicas antecipados ou regulamentações relacionadas às mudanças climáticas. O plano incluía sugestões para alcançar “influenciadores-chave” com pesquisas e mensagens positivas sobre os benefícios ambientais da indústria.

A NCBA não respondeu aos pedidos de entrevista. 

Embora o relatório da EPA não tenha feito nenhuma recomendação explícita para reduzir o consumo de carne bovina, grupos de defesa logo o fizeram. No início da década de 1990, um grupo chamado Greenhouse Crisis Foundation, que consistia em uma ampla gama de organizações sem fins lucrativos e grupos da sociedade civil, sugeriu que os consumidores reduzissem o consumo de carne. O presidente do grupo, Jeremy Rifkin, publicou um livro chamado Beyond Beef: The Rise and Fall of the Cattle Culture em 1992, pedindo às pessoas que reduzissem o consumo de carne bovina em 50%. Rifkin então se tornou o chefe da Beyond Beef Coalition, que organizou protestos em restaurantes McDonald’s em todo o país, entre outras ações.

A associação de pecuaristas respondeu, diz o novo estudo, com um esforço orquestrado para rejeitar o livro, a coalizão e tentativas de influenciar a nutrição ou a política ambiental de maneiras que pudessem restringir o consumo de carne bovina ou laticínios. Junto com outros grupos da indústria, formou uma “Food Facts Coalition”, que tentou desmascarar as alegações feitas no livro de Rifkin e lançou uma campanha para não “culpar as vacas”. Rifkin foi atacado em programas de entrevistas e acabou cancelando uma turnê do livro. Um executivo da associação descartou a coalizão por ter uma “agenda social radical”. Outros grupos da indústria contrataram pesos pesados ​​de RP para elaborar campanhas, incluindo uma chamada “Beyond Belief”. O Beef Industry Council, em 1992, lançou a campanha “Beef. It’s What’s for Dinner”. 

“Esta campanha não é sobre carne bovina, é sobre o desejo de Rifkin de policiar os estômagos americanos”, disse Rick Perry, então comissário de agricultura no Texas, com grande produção de gado, de acordo com uma reportagem de jornal. “Será preciso mais do que polícia estomacal para convencer o público de que o hambúrguer é responsável por tudo, desde discriminação sexual até racismo.”

A associação de pecuaristas negou que estivesse por trás dos ataques de Rifkin. Mas ficou claro imediatamente que qualquer sugestão de redução da ingestão de carne entre os consumidores americanos seria recebida com grande resistência da indústria, que disparou com sucesso a retórica da “polícia da carne” que reverbera hoje. 

Em um estudo separado, publicado esta semana, Jacquet e outra pesquisadora da Universidade de Miami, Loredana Loy, traçam os esforços da indústria da carne para descarrilar as tentativas de grupos de defesa de persuadir o público a comer menos carne como uma estratégia climática. Essas tentativas incluem a campanha Beyond Beef e outras, incluindo Diet for a New America e Meatless Monday

Olhando para registros de 1989 a 2023, os pesquisadores descrevem como a indústria contratou cientistas para produzir relatórios minimizando o impacto climático da carne e empreendeu campanhas, como “#yes2meat”, na esteira de um grande relatório que recomendava que as pessoas em países ocidentais comessem menos carne para a saúde pessoal e planetária. A estratégia da indústria foi tão bem-sucedida, escrevem Loy e Jacquet, que grupos de defesa ajustaram suas próprias campanhas, ou reprimindo suas sugestões — por exemplo, passando de sugestões para cortar o consumo de carne pela metade para sugerir que as pessoas “comam mais plantas” — ou cortando suas campanhas completamente.

“Houve uma redução da ambição”, diz Jacquet.

O estudo diz que a indústria pecuária adotou uma abordagem diferente da indústria de petróleo e gás, que tentou convencer o público de que só estava continuando a desenvolver combustíveis fósseis porque os consumidores os pediam. A indústria pecuária, por outro lado, tentou convencer os consumidores de que suas escolhas alimentares não fariam diferença. 

Para isso, Jacquet e seus colegas atribuíram uma consequência climática às tentativas da indústria de dificultar as recomendações alimentares — para ver, de fato, quão impactante teria sido o conselho de comer 50% menos carne se a campanha Beyond Beef tivesse ganhado força.

Eles descobriram que se os consumidores americanos tivessem cortado o consumo de carne bovina pela metade a partir de 1992 e substituído por outros alimentos, incluindo outras carnes, até 13 gigatoneladas de gases que causam o aquecimento global poderiam ter sido evitadas entre 1992 e 2023. Essa “opção de baixa tecnologia e imediatamente disponível de reduzir pela metade o consumo de carne bovina e de vitela nos EUA”, eles escrevem, teria sido até 80 vezes mais eficaz na redução das emissões de gases de efeito estufa do que todas as medidas tomadas para conter as emissões de metano das indústrias de petróleo e gás em um período de tempo semelhante.

“Como seria nosso consumo hoje?” Jacquet se perguntou. “Poderia ser radicalmente diferente.”

Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, março de 2025

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