
Muitas das substâncias químicas descobertas estão ligadas ao câncer, doenças neurológicas, danos reprodutivos e prejuízos ao desenvolvimento infantil. Fotografia: Stefania Pelfini la Waziya/Getty Images
https://www.theguardian.com/us-news/2026/aug/23/personal-care-products-unlabeled-toxic-chemicals
23 ago 2026
[Nota do Website: Uma matéria como essa mostra como não podemos evitar de chamar todas as corporações, principalmente as imensas e grandes, de efetivamente serem criminosas e, tristes, continuarem impunes! Se cada um de nós, reles consumidores despreparados, está entrando em contato com esses absurdos, como as ‘Anvisas da vida’ não sabem disso! Será que são analfabetas e por isso não sabem ler o que lemos??].
Mesmo produtos rotulados como ‘eco’, ‘verde’ ou ‘natural’ podem conter compostos perigosos, incluindo PFAS.
Produtos comuns de higiene pessoal contêm, em sua maioria, substâncias químicas tóxicas não rotuladas, segundo resultados de um novo estudo revisado por pares. Os testes realizados em mais de 110 itens, desde xampus a loções para bebês, encontraram evidências de substâncias químicas tóxicas não rotuladas em cerca de 85% deles.
Muitos continham múltiplos ingredientes conhecidos por serem cancerígenos ou prejudiciais à saúde, e até mesmo 26% dos produtos rotulados como “ecológicos”, “verdes” ou “naturais” continham pelo menos um composto perigoso. Os produtos apresentavam, em média, mais de três vezes a quantidade de substâncias químicas listadas nos rótulos.
Não está claro se os produtos foram adulterados intencionalmente ou contaminados acidentalmente. De qualquer forma, as descobertas levantam novas questões sobre a segurança de produtos de uso diário que já estão sob escrutínio devido aos seus riscos à saúde, e os autores afirmam que o estudo destaca a necessidade de uma fiscalização mais rigorosa, incluindo testes obrigatórios.
Jenna Hua, uma das principais autoras do estudo e colaboradora da Million Marker, uma empresa de São Francisco que oferece testes domiciliares para exposição a substâncias químicas tóxicas, afirmou que os pesquisadores sabiam que encontrariam algumas substâncias químicas não rotuladas, mas mesmo assim ficaram “chocados” com as descobertas.
“Eu gasto meu dinheiro e quero um bom produto – por que estou sendo enganado?”, perguntou Hua.
Entre os produtos químicos detectados, encontravam-se disruptores endócrinos (nt.: destaque dado pela tradução) e carcinógenos como ftalatos, parabenos, PFAS e formaldeído. Muitos desses mesmos produtos químicos são, por vezes, adicionados intencionalmente a produtos de higiene pessoal e estão associados a câncer, doenças neurológicas, danos reprodutivos e prejuízos ao desenvolvimento infantil, entre outros problemas. Estudos realizados nas últimas décadas demonstraram que os produtos químicos presentes em produtos de higiene pessoal podem ser absorvidos pelo organismo.
Os 113 itens testados foram comprados em grandes varejistas, como Target e Amazon. Eles incluem produtos para bebês, hidratantes, sabonetes, xampus, pasta de dente, produtos de higiene feminina, sabonetes líquidos, produtos de limpeza e outros itens de uso diário.
Alguns ingredientes podem ser adicionados ilegalmente, formar-se devido a uma reação química não intencional entre os ingredientes ou provir de embalagens plásticas que frequentemente liberam compostos nos produtos, escreveram os autores. Os tóxicos não declarados mais comuns se enquadram no termo genérico “fragrância” ou “perfume” nas listas de ingredientes dos produtos. “Fragrância” pode incluir qualquer uma das 1.200 substâncias químicas perigosas, e a legislação dos EUA não exige que as empresas sejam mais específicas.
A situação é complicada para algumas pequenas empresas que realmente se esforçam para produzir produtos limpos. Algumas compram, sem saber, matérias-primas contaminadas ou são enganadas por fornecedores. Hua disse que a Million Marker conversou com algumas dessas empresas que querem limpar seus produtos, mas também temem processos judiciais abusivos por causa da contaminação.
Esses cenários poderiam ser evitados com leis mais rigorosas que ajudassem os pequenos produtores bem-intencionados a evitarem armadilhas e a criarem condições equitativas.
“É preciso haver regulamentação e testes para garantir a segurança”, disse Hua. A Million Marker está arrecadando fundos ativamente para realizar mais testes.
Os pesquisadores utilizaram uma análise química não direcionada, que busca evidências de milhares de substâncias, em vez de uma lista limitada de compostos predeterminados. A análise identificou 303 substâncias químicas que os autores consideraram estar presentes com certeza, embora o número real possa ser maior. Essas substâncias foram comparadas com um banco de dados de substâncias químicas perigosas da Agência de Proteção Ambiental (EPA).
Dos 26% dos produtos que continham substâncias que contradiziam as alegações de marketing, os produtos químicos sintéticos estavam presentes naqueles que se diziam “100% naturais”; os ftalatos estavam em produtos rotulados como “livres de ftalatos”; e os alérgenos conhecidos estavam em produtos comercializados como “hipoalergênicos”.
“É muito difícil para o consumidor individual saber o que contém os produtos, mesmo que seja extremamente consciente e leia os rótulos”, disse Kristen Knox, cientista pesquisadora da organização sem fins lucrativos de saúde pública Silent Spring, que também testa produtos de higiene pessoal em busca de substâncias químicas tóxicas, mas não participou desta pesquisa. “Os consumidores não têm acesso a um laboratório.”
Knox afirmou que as descobertas e o desafio para os consumidores destacaram uma falha fundamental no sistema regulatório.
“A abordagem dos EUA à regulamentação de produtos químicos é presumir que tudo é seguro, a menos que haja evidências de danos, em vez de realizar testes prévios para garantir a segurança”, disse ela. Uma pesquisa anterior da Silent Spring estimou que os ingredientes listados em produtos de higiene pessoal liberam 5.000 toneladas de compostos orgânicos voláteis em residências americanas a cada ano, e constatou que muitos desses produtos são comercializados para mulheres negras.
Em 2022, um grupo de saúde pública encontrou benzeno, uma substância química altamente cancerígena, em 27% dos 663 produtos testados, incluindo alguns em níveis que representavam risco de vida. Isso desencadeou grandes recalls por parte da Procter & Gamble, Bayer, CVS e outras empresas, de marcas como Old Spice e Pantene.
Não existe uma forma infalível de evitar ingredientes não declarados, mas algumas medidas simples podem reduzir a exposição. Evitar qualquer produto que inclua “fragrância” ou “perfume” é um bom ponto de partida.
Produtos com menos embalagens plásticas apresentam menor risco de contaminação por plastificantes tóxicos, como BPA ou ftalatos. Optar por produtos com menos ingredientes e ingredientes comprovadamente naturais reduz o risco de problemas como reações químicas indesejadas, mas, como demonstra o estudo, não o elimina completamente.
Um bom recurso é o banco de dados Skin Deep do Environmental Working Group/EWG, que avalia a lista de ingredientes de milhares de produtos, embora não inclua ingredientes não rotulados. No entanto, ele pode ajudar a tomar decisões informadas.
Hua afirmou que reduzir a quantidade de produtos de higiene pessoal e evitar os piores, como produtos para unhas, são medidas de proteção fáceis que os consumidores podem tomar.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, agosto de 2026