
(Imagem: Adobe Stock)
https://www.truthdig.com/articles/roundups-surprising-connection-to-industrial-meat/
Seth Millstein
28 jul 2026
[Nota do Website: Novamente se constata que os lucros estão acima da saúde de todos os seres vivos. Enquanto dominar essa visão de mundo de que qualquer ação que traga, facilmente, o lucro, tudo justificaria, mesmo que isso traga agressão à Vida].
Assim como as mudanças climáticas, o desmatamento e a gripe aviária, a proliferação do glifosato é impulsionada pela produção pecuária industrializada.
Durante anos, a Bayer e a gigante de biotecnologia que adquiriu, a Monsanto, enfrentaram acusações de que o glifosato, o ingrediente ativo do seu popular herbicida Roundup, causa câncer. A saga resultou em mais de 100 mil processos judiciais, bilhões de dólares em acordos, um caso na Suprema Corte e diversas ações do governo Trump. Mas, em meio a essa avalanche de atividades legais, poucos pararam para fazer uma pergunta fundamental: por que estamos pulverizando tanto glifosato, afinal?
Em muitos casos, a resposta está na pecuária. Nos EUA, uma quantidade significativa de glifosato é aplicada no cultivo de alimentos para animais de criação, não para consumo humano. Embora o presidente Donald Trump tenha defendido o glifosato como crucial para a segurança alimentar, essa é uma caracterização excessivamente ampla. Na verdade, o glifosato tornou a produção de carne mais barata, pois a redução de ervas daninhas diminui o custo da ração para o gado. Alguns estudos constataram que o glifosato também reduz as emissões de gases de efeito estufa provenientes de culturas forrageiras, possibilitando o plantio direto.
Em junho, a Suprema Corte emitiu uma importante decisão a favor da Monsanto em relação ao glifosato. Um jardineiro do Missouri, que usava Roundup há cerca de duas décadas, desenvolveu linfoma não Hodgkin e processou a Monsanto por não incluir um aviso de risco de câncer em seus produtos Roundup, argumentando que isso viola uma lei estadual sobre omissão de advertência. O tribunal de primeira instância ordenou que a empresa lhe pagasse mais de US$ 1 milhão em indenização, mas a Suprema Corte anulou essa decisão, citando a Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas (FIFRA).
De acordo com a FIFRA (Lei Federal sobre Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas), a Agência de Proteção Ambiental (EPA) tem autoridade final, sobrepondo-se aos estados, sobre o que os rótulos que os agrotóxicos devem conter. Como a EPA já havia decidido que o glifosato não é cancerígeno e, portanto, não exige um aviso sobre o risco de câncer, a Suprema Corte anulou a decisão do tribunal estadual de que a Monsanto havia errado ao não incluir tal aviso no Roundup vendido no Missouri.
O debate sobre o glifosato
O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo. Ele age inibindo a capacidade das plantas de produzir certos aminoácidos necessários para o seu crescimento. É um herbicida não seletivo, o que significa que é letal para a maioria das espécies vegetais com as quais entra em contato; no entanto, algumas importantes culturas forrageiras — principalmente o milho e a soja — foram geneticamente modificadas para resistir ao glifosato. Isso permite que os agricultores dessas culturas apliquem glifosato em suas plantações, eliminando as ervas daninhas sem prejudicar as culturas forrageiras. Com menos ervas daninhas, as plantações prosperam e os agricultores colhem safras maiores.
Além disso, o glifosato é usado como dessecante em algumas culturas, como o trigo, para acelerar o processo de secagem; dessa forma, a cultura pode ser seca uniformemente, o que facilita a colheita com uma colheitadeira.
O glifosato não se acumula na cadeia alimentar, mas se a exposição direta ao glifosato pode ou não causar câncer em humanos é tema de intenso debate. A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) concluiu, há mais de 50 anos, que a resposta é não. Embora traços de glifosato possam permanecer em plantações pulverizadas com ele, a EPA afirma que sua toxicidade para humanos é baixa nessas quantidades e estabeleceu limites máximos permitidos para produtos alimentícios.
O glifosato é o herbicida mais utilizado no mundo.
A agência reiterou essas conclusões durante suas reavaliações subsequentes da substância química, realizadas a cada 15 anos, conforme exigido pela lei federal. Essa determinação da EPA foi fundamental para a decisão da Suprema Corte em junho.
Em 2015, no entanto, a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) reclassificou o glifosato como uma substância de Categoria 2A, categoria para substâncias “provavelmente cancerígenas para humanos“. Um estudo de metanálise de 2019 também constatou que a exposição ao glifosato aumentou em 41% as chances de desenvolver câncer, especificamente linfoma não Hodgkin, e os órgãos reguladores da Califórnia classificaram o glifosato como carcinogênico em 2017.
Em sua decisão sobre o glifosato, a Suprema Corte reconheceu a conclusão da IARC de que o glifosato é provavelmente cancerígeno; no entanto, acabou por acatar a decisão da EPA e observou que a agência encomendou diversas revisões sobre a potencial carcinogenicidade do glifosato em resposta à decisão da IARC e ainda assim chegou à mesma conclusão.
Existem várias razões possíveis para que as duas organizações tenham chegado a conclusões diferentes. Elas utilizaram conjuntos de dados distintos: a EPA baseou-se principalmente em estudos regulatórios não publicados, enquanto a IARC baseou-se principalmente em estudos revisados por pares. A EPA concentrou-se no risco que o glifosato representa para o público em geral, enquanto a IARC também analisou o risco enfrentado por profissionais com exposição acima da média ao composto (nt.: vale ressaltar que o herbicida atua sobre todos os vegetais e nós, como outros animais, temos necessidade de vegetais -como a flora intestinal- para podermos absorver os nutrientes do que nos alimentamos).
Vale ressaltar que a IARC não avalia o quão carcinogênico um composto é, ou qual o nível de risco de câncer que ele acarreta. Em vez disso, ela analisa apenas a quantidade de evidências que comprovam sua carcinogenicidade, mesmo que o nível de risco real seja baixo (nt.: para muitos cientistas ele age como um disruptor endócrino e assim suas doses são infinitesimais em seus efeitos, da mesma maneira como atuam os hormônios naturais). Também é importante notar que, em 2025, um estudo amplamente citado que alegava não haver ligação entre o glifosato e o câncer foi retratado após a descoberta de que partes dele haviam sido escritas por funcionários da Monsanto (nt.: aqui mostra a conivência da EPA e agora da Suprema Corte dos EUA).
Independentemente disso, a Bayer foi alvo de mais de 100.000 processos judiciais alegando que o glifosato presente no Roundup causou câncer em pessoas expostas à substância. Em 2020, a empresa pagou US$ 10 bilhões para encerrar alguns desses casos e, em fevereiro, concordou com um acordo adicional proposto de US$ 7,25 bilhões para processos pendentes e futuros que alegam que o glifosato causou câncer. Esse último acordo ainda não é definitivo e está tramitando nos tribunais.
O papel da pecuária na proliferação do glifosato
Um elemento do debate sobre o glifosato que recebeu consideravelmente pouca atenção, no entanto, é o papel desproporcional que a pecuária desempenha em seu uso e popularidade.
Isso pode parecer contraintuitivo; afinal, o glifosato é um composto aplicado em plantas, não em animais. Mas, na verdade, as culturas às quais o glifosato é aplicado nos Estados Unidos são cultivadas principalmente para alimentar animais em fazendas de gado. Dos quase 90 mil toneladas de glifosato aplicadas anualmente em plantações de milho e soja nos Estados Unidos, 50 mil toneladas são destinadas à alimentação animal.
O debate sobre se o glifosato causa ou não câncer continua em andamento, mas o que é inegável é o enorme impulso que o controverso herbicida proporcionou à pecuária.
Existe outra ligação entre o glifosato e os animais que raramente é mencionada nas conversas sobre o produto químico: em 2020, a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) determinou que o glifosato representa um enorme risco para os animais selvagens e que provavelmente causará ferimentos ou morte em 93% dos animais e plantas abrangidos pela Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção.
O governo Trump apoia o glifosato.
A decisão da EPA, de décadas atrás, de que o glifosato não representa risco de câncer para humanos, desempenhou um papel central no debate público em torno do herbicida. Mas o próprio Trump também teve um papel importante, já que adotou uma posição fortemente favorável ao glifosato durante seu segundo mandato e tomou diversas medidas para apoiar sua produção.
A questão de se o glifosato causa ou não câncer ainda está em debate.
No ano passado, o governo Trump apresentou um parecer à Suprema Corte incentivando-a a aceitar o processo que foi decidido em junho deste ano. Quando a Suprema Corte acatou o pedido, o governo enviou um advogado para apresentar os argumentos ao lado da equipe jurídica da Bayer.
Em fevereiro, Trump assinou uma ordem executiva com o objetivo de impulsionar a produção de glifosato, declarando o herbicida “fundamental para a segurança econômica e nacional americana”. Essa ordem incumbiu o secretário da agricultura de “garantir um fornecimento contínuo e adequado de fósforo elementar e herbicidas à base de glifosato” e concedeu imunidade legal aos produtores de glifosato, desde que ajam de acordo com a ordem.
Essas ações enfureceram os membros do movimento Make America Healthy Again (MAHA), muitos dos quais esperavam que o Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., um opositor de longa data dos agrotóxicos sintéticos, reprimisse seu uso. Ele não o fez.
Em resumo
A saga do glifosato não acabou. O acordo proposto pela Bayer, no valor de US$ 7,25 bilhões, ainda está sob análise judicial e, embora os recentes desdobramentos dificultem a responsabilização da Bayer, especialistas afirmam que pode haver outros argumentos legais para aqueles que desejam processar a empresa. Além disso, a reavaliação mais recente da EPA sobre as propriedades potencialmente cancerígenas do glifosato ainda está em andamento, após uma decisão judicial federal em 2022 que considerou inadequada a avaliação anterior sobre os efeitos do glifosato na saúde.
Mas, independentemente do que o futuro reserva para o glifosato, é importante lembrar o que impulsiona seu uso. Assim como o surto de moscas-varejeiras, as mudanças climáticas, o desmatamento e a gripe aviária, a proliferação do glifosato nos EUA e em outros países é alimentada pela produção industrial de gado e pelo nosso apetite persistente por carne e laticínios.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, agosto de 2026