
O estudo constatou que os danos causados por substâncias químicas tóxicas são frequentemente os mesmos em diversos organismos, desde invertebrados até seres humanos.
https://www.theguardian.com/science/2026/apr/26/toxic-exposure-climate-crisis-study#img-1
26 abril de 2026
[Nota do Website: Para os que têm alguma dúvida sobre os efeitos maléficos das substâncias artificiais e mesmo põem reticências de que estaríamos com visões alarmistas, essa informação amplia o que vem se conhecendo até aqui. Na matéria as questões climáticas passam a estar incluídas na pauta da infertilidade dos seres vivos, entre eles os humanos].
Pesquisadores descobrem efeito “alarmante” na fertilidade de espécies em todo o mundo devido a exposições simultâneas.
A exposição simultânea a substâncias químicas tóxicas e aos impactos das mudanças climáticas provavelmente gera um efeito aditivo ou sinérgico que aumenta os danos reprodutivos e pode contribuir para a queda global generalizada na fertilidade, segundo uma nova pesquisa revisada por pares.
A revisão da literatura científica analisa como os disruptores endócrinos, frequentemente encontrados no plástico, juntamente com os efeitos das mudanças climáticas, como o estresse térmico, estão relacionados à redução da fertilidade e da fecundidade em diversas espécies ao redor do mundo – incluindo humanos, animais selvagens e invertebrados.
Embora os danos reprodutivos de cada um desses problemas isoladamente sejam bem estudados, há pouca pesquisa sobre o que acontece quando os organismos vivos são submetidos a ambos. Juntos, os dois problemas provavelmente representam uma ameaça maior à fertilidade, e o efeito cumulativo é “alarmante”, disse Susanne Brander, autora principal do estudo e professora convidada da Universidade Estadual do Oregon.
“Você não está apenas sendo exposta a um, mas a dois fatores estressantes ao mesmo tempo, que podem afetar sua fertilidade, e, consequentemente, o impacto geral será um pouco pior”, disse Brander. O estudo analisou 177 pesquisas.
Shanna Swan, coautora do novo artigo, foi co-produtora de um estudo inovador de 2017 que descobriu que os níveis de espermatozoides entre homens em países ocidentais caíram mais de 50% ao longo de quatro décadas. A fertilidade humana tem diminuído a uma taxa semelhante, como demonstraram outras pesquisas .
O Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde da Universidade de Washington já havia constatado que o mundo estava se aproximando de um “futuro de baixa fertilidade”, com mais de três quartos dos países abaixo da taxa de reposição até 2050.
Os autores do novo estudo concentraram-se nos efeitos de substâncias e produtos químicos disruptores endócrinos, incluindo microplásticos, bisfenol, ftalatos e PFAS (nt.: químicos eternos). Acredita-se que essas substâncias causem uma série de problemas reprodutivos graves, desequilibrem os hormônios e sejam um fator potencial na queda da fertilidade.
Brander observou como os malefícios desses produtos químicos são frequentemente os mesmos em diversos organismos, de invertebrados a humanos. Os ftalatos, por exemplo, foram associados à alteração da forma dos espermatozoides em invertebrados, à espermatogênese em roedores e à redução da contagem de espermatozoides em humanos. Da mesma forma, acredita-se que os PFAS (perfluorados)(nt.: também conhecidos em inglês como ‘forever chemicals) afetem a qualidade do espermatozoide, e ambos estão ligados à disfunção hormonal (nt.: no caso dos PFAS -tipo Teflon, Tefal, Gore-Tex e outros- debilitam a tiroxina materna, imprescindível durante a fase inicial do embrião ao formar seu sistema nervoso central=cérebro). Esses produtos químicos são onipresentes em bens de consumo, portanto, os humanos são frequentemente expostos a eles regularmente.
Entretanto, pesquisas anteriores demonstraram como o aumento das temperaturas, a redução dos níveis de oxigênio e o estresse térmico, entre outros problemas associados às mudanças climáticas, podem agravar a infertilidade.
Foi comprovado que o estresse térmico afeta os hormônios humanos e está ligado à espermatogênese em roedores e touros. Pesquisas mostram que a temperatura também desempenha um papel na determinação do sexo em peixes, répteis e anfíbios. A espécie evoluiu para escolher qual sexo produzir, em parte, com base na temperatura, e o aquecimento global pode “forçar demais essa escolha em uma direção ou outra, o que anula esse benefício evolutivo”, disse Brander.
Da mesma forma, muitos disruptores endócrinos podem alterar a determinação sexual ambiental.
O estudo analisou alguns dos efeitos sobrepostos da exposição a substâncias químicas e das mudanças climáticas em grupos taxonômicos, desde invertebrados até seres humanos. Por exemplo, a exposição de aves ao aumento da temperatura, aos PFAs, aos organoclorados (nt.: principalmente agrotóxicos como o DDT, Aldrin e químicos como os PCB e mesmo a dioxina do Agente Laranja arma de guerra usado pelos EUA no Vietnã e países vizinhos) e aos piretróides (nt.: agrotóxicos que imitam o piretro natural, sendo a maioria clorados. Inseticida que se usa nas nossas casas e vendidos em supermercados sendo apresentados como ‘domissanitários’ e não como agrotóxico), individualmente, pode causar espermatozoides anormais, aumento da mortalidade de filhotes, testículos anormais e declínio populacional.
“O que acontece se eles forem expostos a mais de um desses fatores estressantes ao mesmo tempo? Essa questão foi pouco explorada. Mesmo que não haja muitos estudos que analisem esses fatores simultaneamente, se você tiver dois fatores diferentes que causam o mesmo efeito adverso, é provável que eles sejam cumulativos”, disse Brander.
Katie Pelch, cientista sênior da organização sem fins lucrativos Natural Resources Defense Council, que não participou do estudo, afirmou que os autores analisaram pesquisas de alta qualidade. Ela disse que gostaria de ver mais exemplos da sobreposição de impactos, mas concordou com a premissa geral.
“É provável que [múltiplos fatores de estresse] tenham um efeito aditivo, no mínimo, mesmo que tenham mecanismos de dano diferentes”, acrescentou Pelch.
A solução para os problemas sistêmicos envolveria o controle das mudanças climáticas e a redução do uso de substâncias químicas tóxicas. O estudo cita a redução global do uso de DDT e PCBs (nt.: esses produtos são bioacumulativos e mesmo que tenha havido redução na dispersão dos mesmos, ainda continuam atuando nos ambientes planetários) alcançada pela Convenção de Estocolmo como um exemplo de medida eficaz, mas muito mais é necessário, afirmou Brander.
“Há evidências suficientes em ambas as áreas para agirmos a fim de reduzir nosso impacto no planeta”, disse ela.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, abril de 2026