Globalização: As origens e o destino da soberania digital

Cheng Xin/Getty Images

https://www.project-syndicate.org/onpoint/why-digital-sovereignty-requires-some-degree-of-protectionism-by-robin-rivaton-2024-06

Robin Rivaton

17 abr 2026

[Nota do Website: Uma matéria elucidativa e esclarecedora da situação do mundo digital em vários continentes, incluindo o Brasil, por exemplo. Para quem é da área, é um relato bem colocado quanto às realidades de países chave no mundo em contraposição ao poder econômico dos EUA].

Entre as principais economias mundiais, apenas a China e a Rússia conseguiram construir indústrias digitais que se distinguem das plataformas americanas. Uma vez que as empresas estrangeiras atingem uma massa crítica, as empresas locais têm pouco espaço para crescer, deixando a maioria dos países sem um caminho viável para a autonomia tecnológica.

PARIS — Em junho de 2023, o CEO da OpenAI, Sam Altman, visitou Nova Déli para falar com empreendedores e investidores. Questionado se três engenheiros indianos com US$ 10 milhões poderiam construir algo comparável à OpenAI, sua resposta foi direta: era “totalmente impossível” para startups com recursos limitados competir com empresas consolidadas no desenvolvimento de modelos fundamentais. Dezenove meses depois, a startup chinesa DeepSeek demonstrou que um modelo de ponta poderia ser treinado a uma fração do custo que muitos no Vale do Silício consideravam essencial.

Obviamente, Altman estava errado ao universalizar a estrutura de custos do Vale do Silício. Mas sua ideia principal ainda se mantém: construir uma indústria digital independente é extraordinariamente difícil.

Essa assimetria continua sendo uma característica definidora do cenário tecnológico global. Entre as principais economias do mundo, apenas duas — China e Rússia — conseguiram construir ecossistemas digitais significativamente isolados das plataformas americanas. Outras economias, como a Índia e o Brasil, possuem vastos contingentes de talentos, capital abundante e grandes mercados, mas nada que se aproxime do mesmo grau de autonomia tecnológica.

Essa diferença reflete a dinâmica econômica dos mercados digitais, onde atender um único usuário adicional de um mecanismo de busca, uma rede social ou um modelo de linguagem complexo custa praticamente nada. Reforçados pelos efeitos de rede, os custos marginais próximos de zero tendem a gerar monopólios naturais, à medida que os pioneiros acumulam usuários, dados, distribuição e talentos de engenharia mais rapidamente do que os concorrentes conseguem alcançá-los. Conforme os retornos se multiplicam, a diferença aumenta.

Na maioria dos mercados digitais, o primeiro a entrar no mercado é americano. Uma vez que uma plataforma desse tipo atinge uma massa crítica, a concorrência local torna-se estruturalmente improvável, não por falta de talento, mas porque os custos marginais próximos de zero deixam pouco espaço para alternativas viáveis. Quando um produto já é gratuito, treinado com uma quantidade muito maior de dados e profundamente integrado aos hábitos do usuário, a concorrência significativa é efetivamente inviabilizada. Nessas condições, a única maneira confiável de sustentar a concorrência doméstica é impedir que empresas estrangeiras estabeleçam domínio antes que as empresas locais consigam escalar.

A China fez exatamente isso, embora sua soberania digital não tenha sido inicialmente concebida como parte de uma estratégia industrial. No início dos anos 2000, o governo chinês se concentrou principalmente no controle do fluxo de informações, em vez de cultivar campeões tecnológicos nacionais. Em 2009, o Google ainda detinha 40% do mercado de buscas na China.

Na época, a principal preocupação das autoridades chinesas era limitar a dissidência política, não reduzir a dependência econômica, de modo que empresas estrangeiras podiam deter participações significativas em empresas de tecnologia nacionais. O Yahoo, por exemplo, investiu US$ 1 bilhão no Alibaba em 2005, adquirindo uma participação de 40% naquela que já era uma das empresas mais promissoras da China.

É isso que torna a trajetória digital da China tão instrutiva. Não havia um plano diretor para que empresas como a Tencent ou a ByteDance se tornassem gigantes da tecnologia, nem um roteiro claro para a construção de uma internet autossuficiente para o consumidor. O Grande Firewall foi construído para fins políticos; suas consequências econômicas foram, a princípio, incidentais.

Muralhas chinesas e cercas russas

Após os tumultos de Ürümqi em julho de 2009, em Xinjiang, a China intensificou drasticamente o controle da internet. O Facebook e o Twitter foram bloqueados, enquanto o YouTube — que já sofria restrições intermitentes — tornou-se permanentemente inacessível. Sem querer acatar as exigências de censura do governo, o Google efetivamente se retirou do mercado chinês.

O vácuo resultante na esfera digital da China não foi preenchido da noite para o dia. Em vez disso, foi gradualmente ocupado por plataformas nacionais, lideradas pelo crescente ecossistema de mídia social da Tencent e pela infraestrutura digital mais ampla do Alibaba. O WeChat, lançado em 2011, ajudou a consolidar esse cenário fragmentado em uma única plataforma integrada.

As empresas americanas se viram excluídas. Até hoje, a participação de 40% do Yahoo no Alibaba — que valia bem mais de US$ 100 bilhões em seu auge e acabou gerando cerca de US$ 40 bilhões em retornos — permanece um dos erros de cálculo geopolíticos mais caros da história corporativa, deixando o Yahoo fora do mercado que ajudou a construir.

Assim que as empresas chinesas atingiram escala no mercado interno, fizeram algo que as plataformas americanas raramente foram obrigadas a fazer: reconstruir por si mesmas porções cada vez maiores de sua infraestrutura tecnológica. O projeto, conhecido como de-IOE, visava substituir os mainframes da IBM, os bancos de dados da Oracle e o armazenamento da EMC nos setores bancário e industrial.

Essa mudança, impulsionada por preocupações com a segurança nacional, foi reforçada por políticas públicas. Em 2014, uma diretriz governamental estabeleceu a meta de colocar 75% da tecnologia utilizada pelo setor bancário sob controle nacional até 2019. O resultado foi um ecossistema desenvolvido internamente — do AliSQL ao OceanBase e além — que conferiu à China uma autonomia muito maior em toda a cadeia de valor, desde aplicativos e infraestrutura em nuvem até softwares corporativos essenciais. Em outras palavras, a escalabilidade veio primeiro, e a soberania, depois.

A Rússia alcançou um resultado semelhante por meios diferentes. Tal como na China, o envolvimento inicial do Estado no setor não foi impulsionado principalmente pela política industrial. O motor de busca Yandex surgiu no final da década de 1990 e foi incorporado como uma empresa independente em 2000, enquanto a plataforma de redes sociais VKontakte foi lançada em 2006, muito antes da promulgação das leis de soberania digital.

A sobrevivência dessas empresas não foi simplesmente resultado de planejamento estatal. As barreiras linguísticas deram aos serviços locais uma vantagem inicial sobre as plataformas americanas, já que os fundadores russos visavam usuários cuja experiência digital já estava moldada por suas próprias sensibilidades culturais, hábitos e padrões de busca.

Esse ecossistema digital doméstico foi posteriormente institucionalizado pela Lei da Internet Soberana de 2019 e ainda mais consolidado pelas sanções econômicas que se seguiram à invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Mas a proteção não começou como uma política industrial explícita. Barreiras linguísticas e regulatórias foram suficientes para criar espaço para o crescimento de empresas locais.

Sem dúvida, o caminho da Rússia rumo à soberania digital foi menos deliberado do que o da China, e não foi tão longe. Ainda assim, a lição estrutural é semelhante: quando um mercado está, mesmo que parcialmente, protegido das plataformas americanas dominantes, a capacidade doméstica pode emergir.

Como a Índia e o Brasil ficaram de fora

Com uma população de 1,4 bilhão de pessoas, uma das maiores comunidades de desenvolvedores de língua inglesa do mundo e uma cultura empreendedora bem estabelecida, a Índia deveria ter produzido seus próprios campeões digitais dominantes globalmente. Assim como a China, o país vivenciou um boom da tecnologia móvel impulsionado por smartphones, o que lhe permitiu superar a era dos PCs.

Embora a Índia tenha produzido engenheiros excepcionais — muitos dos quais, como Sundar Pichai, da Alphabet , e Satya Nadella, da Microsoft, agora lideram grandes empresas de tecnologia nos EUA —, o país não criou uma plataforma digital globalmente dominante. A Flipkart, empresa de comércio eletrônico de maior sucesso na Índia, vendeu uma participação majoritária para o Walmart em 2018 por US$ 16 bilhões. A plataforma de transporte por aplicativo Ola nunca conseguiu estabelecer uma supremacia decisiva sobre sua maior concorrente americana, a Uber, e posteriormente sofreu uma forte desvalorização. E o Paytm, apesar de ter se tornado um dos aplicativos financeiros mais baixados do mundo em seu auge, nunca se tornou tão essencial para a economia quanto o Alipay na China.

O único sucesso real veio de fora do mercado privado. A Interface Unificada de Pagamentos (UPI) da Índia é um verdadeiro sucesso em termos de infraestrutura, mas, como um sistema administrado pelo governo, não compete diretamente com os sistemas já estabelecidos nos EUA. Em essência, o Estado obteve sucesso onde os empreendedores privados falharam, criando um sistema público de pagamentos que as plataformas estrangeiras não conseguiram substituir facilmente.

Em contrapartida, todas as tentativas de fundadores indianos de competir diretamente em mercados de consumo abertos esbarraram na mesma restrição: as plataformas americanas surgiram antes que as alternativas locais amadurecessem, e os efeitos de rede fizeram o resto. Embora a fragmentação, os desafios de monetização, a governança e os níveis de renda também tenham desempenhado um papel importante, a abertura impediu que as empresas locais tivessem a demanda protegida que permite o surgimento de plataformas privadas dominantes.

O Brasil oferece outro exemplo revelador. Embora tenha produzido verdadeiros campeões digitais, estes foram frequentemente adquiridos por empresas estrangeiras antes de alcançarem escala regional ou global. O Buscapé, principal plataforma de comparação de preços do país, foi adquirido pelo conglomerado sul-africano Naspers em 2009. O iFood, desenvolvido no estúdio de startups mobile Movile, tornou-se o principal serviço de entrega de comida da América Latina, mas acabou sendo absorvido pela Prosus, braço de investimentos da Naspers listado na bolsa holandesa, que agora detém uma participação majoritária.

Nem todas as empresas seguiram esse caminho. A Totvs permaneceu uma empresa líder em software empresarial, mas nunca alcançou a escala de uma plataforma voltada para o consumidor final. Enquanto isso, o MercadoLibre — a plataforma de e-commerce de maior sucesso na região — foi fundada na Argentina e entrou no mercado brasileiro como concorrente estrangeira.

Empreendedores brasileiros identificaram oportunidades, desenvolveram produtos competitivos e alcançaram uma escala significativa. Mesmo assim, não conseguiram impedir que o capital estrangeiro, seja americano ou sul-africano, assumisse o controle justamente quando suas empresas se tornavam valiosas. Em vez de produzir campeões nacionais, o mercado aberto de capitais e o ambiente digital deixaram as empresas brasileiras sob controle estrangeiro, com grande parte do valor sendo realizado no exterior.

Assim como na Índia, quando o Estado construiu a infraestrutura digital em vez de esperar que surgissem campeões privados, os resultados foram notavelmente diferentes. O Pix, lançado pelo Banco Central do Brasil em 2020, rapidamente se tornou o sistema de pagamento instantâneo mais utilizado no país, demonstrando que a soberania digital é possível quando um país controla uma camada fundamental da economia digital que empresas estrangeiras não podem simplesmente sobrepujar com capital ou escala.

Mas a proteção do mercado não basta. Sem controle interno sobre as empresas que surgem dentro do espaço protegido, os ganhos serão apropriados por outros.

O Dilema da Europa

A mesma dinâmica está agora se desenrolando na IA. A DeepSeek, por exemplo, foi fundada em Hangzhou em 2023. Nesse mesmo ano, a China introduziu regulamentações para IA generativa, exigindo que os serviços voltados para o público se registrassem na Administração do Ciberespaço, o que levou à remoção de aplicativos não conformes das lojas de aplicativos nacionais.

Em julho de 2024, a OpenAI bloqueou o acesso à API para desenvolvedores na China. O acesso restrito aos principais modelos americanos deu às empresas chinesas mais espaço para experimentar e aprimorar seus sistemas. Com a proteção doméstica deixando de ser apenas defensiva, empresas como Alibaba, Moonshot, MiniMax e ByteDance conseguiram passar rapidamente da imitação à implementação antes que as empresas estrangeiras pudessem estabelecer domínio.

A União Europeia adotou a abordagem oposta. Os produtos de IA americanos entraram rapidamente nos mercados europeus e, apesar de alguns atritos regulatórios, não enfrentaram barreiras estruturais comparáveis. Consequentemente, as startups europeias agora competem por usuários que já têm acesso a produtos apoiados por empresas que investiram bilhões de dólares em infraestrutura computacional e desenvolvimento de modelos. Até mesmo a Mistral AI, o principal laboratório de IA da Europa, busca escala por meio de parcerias, em vez de competir diretamente com as grandes empresas americanas já estabelecidas.

Isso, por si só, é revelador. O que a Mistral frequentemente oferece aos clientes europeus não é apenas inovação de ponta, mas também soberania, abertura e controle. Quando até mesmo essa proposta depende de parcerias com fabricantes de chips americanos, a discrepância entre a retórica da UE e sua posição industrial torna-se difícil de ignorar.

Os legisladores europeus passaram anos tentando lidar com a dependência digital por meio de regulamentações, incluindo o Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD), a Lei dos Mercados Digitais e, mais recentemente, a Lei da Inteligência Artificial. Embora a Lei dos Mercados Digitais possa conter alguns abusos de poder de mercado, nenhuma dessas legislações cria as condições de demanda protegidas de que as empresas líderes nacionais precisam. Os custos de conformidade podem desacelerar as empresas já estabelecidas, mas não revertem a dinâmica de pioneirismo que garantiu sua posição no mercado.

A janela de oportunidade para criar campeões digitais abre cedo, fecha rapidamente e geralmente exige algum tipo de espaço de mercado protegido para o desenvolvimento da capacidade nacional. A China restringiu a concorrência estrangeira e só mais tarde incorporou essa posição à sua estratégia industrial; a Índia tinha o talento, mas não a proteção; e o Brasil tinha o talento, mas não os controles de capital. A Europa, por sua vez, dedica muito mais energia a debater a ética da IA ​​do que a criar as condições industriais necessárias para competir.

Isso não significa que a Europa deva imitar a China ou a Rússia. Significa simplesmente que a soberania exige certo grau de preferência. A UE pode optar por proteger camadas específicas do seu mercado — dados, setores regulamentados, compras públicas e infraestruturas críticas — e aceitar os custos de curto prazo de uma menor abertura como preço da capacidade a longo prazo. Alternativamente, pode permanecer aberta e aceitar um certo nível de dependência estrutural da tecnologia americana.

O que a UE não consegue fazer, apesar de uma década de tentativas, é regular a soberania digital sem alterar as condições de acesso ao mercado. Essa tensão não é nova. Em sua decisão Schrems II de 2020, o Tribunal de Justiça da União Europeia invalidou o Privacy Shield, o principal acordo de transferência de dados entre a UE e os EUA, sob o argumento de que a legislação de vigilância dos EUA e a falta de um mecanismo eficaz de reparação judicial não atendiam aos padrões da UE, em particular aos estabelecidos pelo RGPD e pela Carta dos Direitos Fundamentais.

Lamentavelmente, em vez de chegar à conclusão óbvia, a UE negociou um novo quadro em 2023, baseando-se em compromissos executivos da administração do ex-presidente dos EUA, Joe Biden, cujo destino sob Trump permanece incerto. Para um bloco disposto a derrubar seu próprio quadro de transferência de dados por motivos de soberania, terceirizar a política digital para outro governo não é uma abordagem sustentável. Mais cedo ou mais tarde, a Europa terá que escolher entre abertura e dependência, ou essa escolha será feita por ela.

Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, abril de 2026

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *