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28 jul 2025
[Nota do Website: Estudo interessante que nos remonta a trabalhos como os do médico Stanlislav Grof com seus estudos sobre a técnica terapêutica chamada por ele de ‘holotrópica’. Por sua técnica há a libertação de nossa imaginação, quando acessamos a informações simbólicas importantíssimas para a compreensão de nós mesmos. Que bom que a ciência racionalista ocidental está se abrindo para esses caminhos que para ela parecem tão originais. Por que não nos abrirmos para as culturas tradicionais onde essas realidades são tão ‘reais’?].
Exames cerebrais capturam a formação da memória em bebês, levantando novas questões sobre por que as pessoas esquecem seus primeiros anos.
Uma nuvem vermelha, uma dor lancinante e os sons do verão — esses são fragmentos da minha memória mais antiga, quando pisei em um caco de vidro em um parque aquático de Toronto, aos seis ou sete anos de idade. Não me lembro de muita coisa daquele dia, mas uma cicatriz no meu pé testemunha o que aconteceu.
Quando perguntamos a adultos sobre sua primeira lembrança, de um evento específico da infância, a resposta geralmente não é anterior à pré-escola. Isso se aplica tanto a um estudante universitário quanto a um avô, sugerindo que a falta de lembranças de bebês ou crianças pequenas em adultos não é apenas resultado do esquecimento normal que ocorre com o passar do tempo. A lacuna em nossa memória autobiográfica de quando éramos bebês é conhecida como “amnésia infantil”.
Há duas explicações possíveis para esse fenômeno. Uma delas é que bebês não conseguem armazenar memórias. O lento desenvolvimento do hipocampo, uma região em forma de cavalo-marinho localizada profundamente no cérebro, pode ser o responsável. Essa região, crucial para a memória, cresce e se transforma ao longo da infância, portanto, pode ainda não estar disponível para bebês. Nesse contexto, bebês não são tão diferentes de casos famosos de amnésia, como os de Henry Molaison e Lonni Sue Johnson, que sofreram danos no hipocampo na idade adulta que os tornaram incapazes de armazenar memórias.
Outra possibilidade é que o cérebro infantil possa armazenar memórias, mas eventualmente perdemos o acesso a elas. Estudos recentes em camundongos mostram que o hipocampo não só é capaz de armazenar memórias no início da vida, como também pode retê-las na idade adulta. Por exemplo, cientistas conseguiram recuperar uma memória que, de outra forma, seria esquecida estimulando neurônios no hipocampo que estavam ativos durante uma experiência inicial.
Mas e os humanos? Meu laboratório está em uma aventura quixotesca há uma década para estudar bebês acordados com ressonância magnética funcional (RMF), uma forma de imagem cerebral que pode medir a atividade de regiões profundas do cérebro, como o hipocampo. Embora essa tecnologia seja usada para estudar a formação da memória em adultos e seja segura para bebês, ela nunca havia sido usada anteriormente para estudar a memória de bebês.
Por que isso aconteceu? Bebês se movimentam muito, não seguem instruções e têm pouca capacidade de atenção — tudo isso dificulta a coleta de dados confiáveis sobre eles. Como resultado, a maioria das pesquisas com fMRI em bebês foi realizada enquanto eles dormiam. Mas isso não era uma opção para nossas investigações, pois as memórias são baseadas em experiências da vida desperta. Por meio de mais de 400 sessões e inúmeros insights de famílias, aprimoramos técnicas inovadoras para manter bebês acordados, tranquilos, felizes e engajados.
Em um estudo recente, uma equipe do meu laboratório, liderada por Tristan Yates, agora pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Columbia, usou esse método para descobrir que o hipocampo infantil pode armazenar memórias a partir de cerca de um ano de idade. Mostramos aos bebês fotografias de rostos, objetos e cenas, uma de cada vez, durante a fMRI. Logo depois, testamos a memória deles mostrando cada uma dessas fotografias, agora familiares, juntamente com uma nova imagem do mesmo tipo. Se o bebê olhasse por mais tempo para a fotografia que tinha visto antes, rotulávamos essa imagem como lembrada; caso contrário, ela era esquecida.
Com esse comportamento documentado, analisamos os dados cerebrais quando as fotografias foram mostradas pela primeira vez e descobrimos que o hipocampo estava mais ativo quando os bebês viam imagens das quais pareciam se lembrar mais tarde. Esse resultado sugere que o hipocampo infantil pode criar memórias após apenas uma breve experiência. Os efeitos foram mais evidentes após os 12 meses de idade, em bebês que tinham uma memória geral mais forte e na sub-região do hipocampo mais importante para a lembrança de eventos específicos (chamada memória episódica) em adultos.
Nossas descobertas corroboram a ideia de que as pessoas armazenam memórias quando são bebês, às quais não conseguem mais acessar posteriormente. Mas o trabalho também levanta outras questões: quanto tempo duram essas memórias hipocampais? Testamos por alguns minutos, mas a amnésia infantil se desenvolve ao longo de anos. Quão sofisticada é essa capacidade de memória infantil? Testamos fotografias individuais, mas as memórias episódicas envolvem eventos complexos com múltiplas pessoas, lugares e coisas interagindo no espaço e no tempo (por exemplo, lembre-se das suas últimas férias).
As perguntas mais profundas e provocativas dizem respeito a por que as memórias mais antigas da maioria das pessoas ocorrem entre os quatro e os cinco anos de idade (ou mais tarde), se elas já estão armazenadas no cérebro a partir do primeiro ano de vida. O que torna essas memórias mais antigas inacessíveis? Existem truques ou práticas para acessá-las? Seríamos capazes de entendê-las?
Responder a essas perguntas ajudará a esclarecer mais de um século de curiosidade científica. Revelar como os cérebros mais jovens aprendem e memorizam pode contribuir para o avanço da compreensão da aquisição da linguagem e dos transtornos do desenvolvimento, além de ter implicações para a parentalidade e a educação infantil. De forma mais geral, o funcionamento misterioso da memória no início da vida pode conter pistas sobre por que perdemos a memória novamente mais tarde, no curso normal do envelhecimento e em doenças neurológicas como o Alzheimer.
Reserve um momento para refletir: qual é a sua lembrança mais antiga? Como você sabe que ela é real? Pode até haver memórias antigas guardadas no seu cérebro.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, agosto de 2025