Saúde: Uma nova forma de identificar alimentos ultraprocessados ​​pode esclarecer as escolhas alimentares.

Cereal Kellogg’s Froot Loops em um depósito da Costco em Robinson Township, Pensilvânia. (Gene J. Puskar/AP)

https://www.washingtonpost.com/opinions/2026/03/10/utra-processed-foods-definition-health-diet

Leana S. Wen

10 mar 2026

[Nota do Website: Informação importante para os consumidores que estão completamente confusos com as artimanhas que as corporações criam para continuarem se aproveitando da sociedade com seus produtos. Sim, porque que além de não serem alimentos, são na verdade ‘venenos’. Talvez o mais conveniente será taxar as empresas que em vez de produzirem alimentos, produzem quaisquer ‘porcarias’ tentando impingir aos consumidores de que aquilo seria alimento].

Identificar alimentos não saudáveis ​​não é tão fácil quanto se imagina.

Há muitos motivos para criticar as políticas de saúde catastróficas do Secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., mas ele merece crédito por uma coisa: ele gerou um movimento real contra os alimentos ultraprocessados, que estão ligados a diversas doenças crônicas. Impulsionadas em parte pela defesa de Kennedy, legislaturas estaduais da Califórnia  ao  Texas estão se mobilizando para restringir produtos carregados de substâncias químicas nas escolas.

Eis o problema: nunca houve uma definição consensual do que se considera ultraprocessado. Um grupo de pesquisadores, no entanto, pode ter a solução.

Christina A. Roberto, diretora do Centro de Políticas Alimentares e Nutricionais da Universidade da Pensilvânia, explicou que os formuladores de políticas tendem a definir alimentos ultraprocessados ​​com base nos produtos químicos específicos que cada alimento contém. Isso pode parecer bastante razoável: identificar uma lista de corantes, conservantes e outros aditivos e rotular qualquer produto que os contenha como ultraprocessado.

Mas as empresas podem facilmente encontrar soluções alternativas para essa abordagem, Roberto me disse. “Há uma resposta muito previsível da indústria: ela vai inovar e evoluir constantemente, criando ingredientes que não estão na lista”, disse Roberto.

Por exemplo, depois que a Food and Drug Administration (FDA) proibiu o corante vermelho nº 2 na década de 1970 devido a preocupações com o câncer, os fabricantes passaram a usar o corante vermelho nº 3, que permaneceu em uso por quase cinco décadas, apesar de questionamentos semelhantes sobre sua segurança. E quando os países proibiram o bisfenol A (também conhecido como BPA) em mamadeiras porque ele poderia interferir nos hormônios, as empresas o substituíram por outros bisfenóis que podem ter efeitos comparáveis ​​no sistema endócrino.

Em um artigo recente da Nature Medicine, Roberto e dois coautores propuseram uma abordagem diferente: em vez de tentar definir o que se qualifica como ultraprocessado, defina o que não se qualifica.

Considere o iogurte. O método tradicional envolveria comparar seus ingredientes com uma longa lista de aditivos que poderiam representar riscos à saúde. Sob a abordagem alternativa, os pesquisadores especificariam como seria um iogurte não ultraprocessado. Além do leite e das culturas vivas, os ingredientes permitidos poderiam incluir frutas, nozes e adoçantes nutritivos, como o mel. Qualquer outro ingrediente, como amido modificado, dextrose ou corantes, classificaria automaticamente o produto como ultraprocessado.

Outro exemplo é o pão. Um pão não ultraprocessado pode conter ingredientes como farinha não branqueada, farinhas de grãos ou sementes, fermento, óleos prensados ​​de sementes ou nozes, manteiga, melaço, bicarbonato de sódio, ovos e leite. Adicione componentes fora desse conjunto definido e o produto será considerado ultraprocessado.

A mesma estrutura poderia ser aplicada em toda a cadeia de suprimentos alimentares. Roberto vislumbra a construção de um sistema baseado em categorias que espelhe a forma como os padrões nutricionais são implementados. Os alimentos seriam agrupados em categorias com base em como são produzidos e consumidos, e especialistas especificariam, para cada tipo de alimento, o que se qualifica como não ultraprocessado. Essas definições, atualizadas periodicamente conforme as práticas de fabricação evoluem, poderiam então ser usadas para estabelecer regras de aquisição e padrões para merenda escolar.

Com o tempo, os legisladores também poderiam distinguir níveis de risco dentro da categoria de ultraprocessados. Alguns desses produtos podem ser mais nutritivos do que outros. Um iogurte adoçado, por exemplo, pode fornecer proteínas e cálcio mesmo sendo ultraprocessado. Batatas fritas, por outro lado, tendem a ser ricas em sódio e gordura saturada, e oferecem pouco valor nutricional. Essas características adicionais — sódio, açúcar adicionado, gordura saturada — poderiam ser regulamentadas separadamente, somadas à definição de ultraprocessado.

A abordagem de Roberto apresenta diversas vantagens. Em primeiro lugar, tornaria muito mais difícil para as empresas contornarem a regulamentação por meio de pequenas reformulações, e alteraria seus incentivos. Em vez de encorajar as empresas a inventarem novos ingredientes que ainda não foram restringidos, recompensaria o desenvolvimento de alimentos não ultraprocessados.

Em segundo lugar, seria mais fácil de gerir para os reguladores, que não precisariam de acompanhar constantemente uma lista cada vez maior de aditivos. E, crucialmente, também poderia trazer clareza para os consumidores. Os consumidores preocupados com a saúde, que querem evitar alimentos ultraprocessados, muitas vezes têm dificuldade em identificá-los. Um sistema baseado em categorias, especialmente se combinado com requisitos de rotulagem, tornaria mais fácil distinguir quais alimentos cumprem os padrões e quais não cumprem.

No ano passado, o governo Trump anunciou que publicaria uma definição uniforme para alimentos ultraprocessados. Se Kennedy realmente deseja melhorar a dieta da nação, ele deveria considerar seriamente a proposta de Roberto, que ajudaria os consumidores a fazer escolhas informadas e eliminaria as brechas na legislação da indústria. Se ele não cumprir essa promessa, ela se tornará mais uma nota de rodapé em seu legado de profundos fracassos em saúde pública.

Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, março de 2026

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