02 nov 2026
[Nota do Website: Mais uma informação que vem caracterizando as corporações petroagroquímicas como, sem dúvida, criminosas. Parece que todas têm sido sistematicamente capciosas em esconderem os reais efeitos de suas ‘descobertas’ sintéticas em seus danos causados aos seres vivos, entre eles, os humanos. Tratar estes fatos como ‘crime corporativo’, não tem nada de exagerado ou irresponsável de como os ‘senhores do dinheiro’ e do lucro a qualquer custo, vêm agindo historicamente. Mesmo que seja sobre a vida de seus descendentes!].
E se, há 50 anos, soubéssemos o que sabemos hoje sobre o plástico? E se soubéssemos que minúsculos pedaços de plástico — microplásticos e nanoplásticos — podem entrar em nossos corpos, viajando do intestino para a corrente sanguínea e, em seguida, para todos os principais órgãos, incluindo pulmões, fígado, tecido muscular e até mesmo o cérebro? E se soubéssemos que esse processo poderia ser prejudicial e estar relacionado a todos os tipos de doenças crônicas, do diabetes à demência?
Se soubéssemos dessas coisas, o nosso mundo ainda seria o mesmo — um mundo onde o plástico, produzido em centenas de milhões de toneladas por ano, é essencial, onipresente e inescapável? Estima-se que mais de 9 bilhões de toneladas de plástico tenham sido produzidas desde 1950, com mais da metade desse total nos últimos 15 anos. A produção global deverá dobrar até 2050.
N o dia 02 de novembro, o Los Angeles Times divulgou uma nova reportagem que mostra que executivos da indústria do plástico sabiam, já em 1974, que os microplásticos podiam entrar no corpo de seres vivos, incluindo humanos, e acabar se depositando em seus órgãos.
Essa revelação tem o potencial de mudar praticamente tudo o que sabemos sobre a história dos plásticos e, em particular, sobre seus efeitos nocivos. A história em que acreditávamos até segunda-feira era de que a pesquisa sobre microplásticos só começou de fato nos últimos 20 anos, e que foi só recentemente que a conscientização e as evidências aumentaram. O termo “microplásticos” foi cunhado em 2004, e o primeiro alerta real foi dado em 2018, quando pesquisadores da Universidade de Viena descobriram microplásticos em fezes humanas. Desde então, descobrimos que uma pessoa comum pode ingerir o equivalente a um cartão de crédito em plástico por semana, que microplásticos são encontrados em placas arteriais e que a quantidade presente no cérebro pode ter aumentado em 50% em menos de uma década, entre outras coisas.
Graças ao Los Angeles Times e a um conjunto de documentos descobertos durante processos judiciais, agora sabemos que executivos de empresas como a Union Carbide (nt.: transnacional conhecida pelo desastre dramático em Bhopal, na Índia, foi absorvida por outra corporação, a Dow Chemical, entre 1999 e 2001) estavam suficientemente preocupados, há 50 anos, para descrever a ingestão e retenção de plástico no corpo como uma “história de terror”. Mas era uma história de terror que eles tinham bons motivos para acreditar ser real. E, no entanto, aparentemente, nada foi feito.
Ou talvez pior, uma verdade inconveniente foi suprimida em nome do lucro. Hoje, o setor movimenta quase um trilhão de dólares anualmente.
Tracy Woodruff, professora de epidemiologia e saúde populacional em Stanford, já comparou a notícia a escândalos anteriores envolvendo amianto e tabaco, nos quais setores inteiros da indústria enganaram os órgãos reguladores e o público em geral sobre a segurança de seus produtos.
A história começa em 1974. Uma conferência de emergência entre cientistas e representantes da indústria foi convocada após uma série de casos de cânceres raros entre trabalhadores de uma fábrica de PVC no Kentucky, seguida por casos semelhantes em outras fábricas na Virgínia Ocidental, Nova York e Pensilvânia. O cloreto de vinila e o policloreto de vinila eram usados em uma ampla variedade de aplicações, desde embalagens de alimentos e tubulações de água até sprays de cabelo e agrotóxicos, e os órgãos reguladores e fabricantes os consideravam totalmente seguros. Agora, já não tinham tanta certeza.
Entre os cientistas que apresentaram seu trabalho sobre PVC estava um alemão chamado Gerhard Volkheimer. Desde a década de 1950, Volkheimer vinha alimentando diversos animais com minúsculos pedaços de PVC em seu laboratório, no Charité de Berlim, um prestigiado hospital universitário. Ele também vinha alimentando humanos com um substituto do PVC — amido de batata — tendo descoberto que este se comportava de maneira muito semelhante. Sua pesquisa havia recebido pouca atenção.
Volkheimer afirmou na conferência que, em apenas duas horas após a ingestão, o PVC podia ser encontrado no sistema linfático, no sangue e em órgãos, incluindo o cérebro, os pulmões, o fígado e os músculos. Ele encontrou plástico no líquido cefalorraquidiano, que protege o cérebro e circula pela coluna vertebral, e no leite materno. O PVC era capaz de atravessar a placenta, da mãe para o feto. Ele também descobriu que certas substâncias e condições — cafeína e nicotina, sono, juventude — aceleravam e aumentavam o volume de plástico absorvido ou “persorvido” pelo intestino.
Outros cientistas que estiveram presentes disseram ao The Times que não se lembravam da apresentação de Volkheimer. Documentos obtidos pelo jornal mostram, no entanto, que executivos da indústria estavam prestando muita atenção. Executivos da Firestone Plastics, da Shell e da Union Carbide — posteriormente adquirida pela Dow Chemical — discutiram a pesquisa de Volkheimer nas semanas, meses e anos seguintes à conferência.
Foi o diretor assistente de segurança da Union Carbide quem descreveu a pesquisa como uma “história de terror” em uma carta a outros executivos. Menos de um ano depois, ele buscava evidências para contestar o artigo de Volkheimer. Encontrou-as em um estudo de Harvard de 1947, financiado pela indústria do plástico, que demonstrava que animais podiam ser alimentados com partículas de PVC sem adoecer. O diretor assistente afirmou que o artigo “apoiava o uso de PVC em embalagens de alimentos” e “compensaria parte do dano causado pelo artigo de Volkheimer”.
Internamente, pelo menos durante as duas décadas seguintes, a indústria continuou a falar sobre Volkheimer e suas pesquisas, citando-os. As evidências sugerem que levaram a sério a possibilidade de seus produtos se acumularem no corpo humano, com efeitos desconhecidos, mas provavelmente tóxicos.
Como observa o The Times, isso contrasta fortemente com a atitude atual da indústria, que recomenda cautela ao aceitar a crescente literatura científica sobre microplásticos sem questioná-la.
“A mídia está se movendo mais rápido do que a ciência nessa questão”, disse o presidente da Associação Americana de Fabricantes de Plástico em um anúncio pago no The Washington Post no ano passado.
“Nossa opinião é que precisamos deixar a ciência liderar.”
Nesta fase, acho prematuro chamar o que o Los Angeles Times descobriu de “acobertamento”. Certamente, com base nas evidências apresentadas, não há razão para acusar as empresas de plástico de irregularidades do tipo perpetradas pelos fabricantes de substâncias químicas PFAS/’forever chemicals‘ (substâncias per e polifluoroalquiladas). Processos judiciais demonstraram que empresas como a DuPont e a 3M enganaram sistematicamente o público e os órgãos reguladores ao longo de 50 anos sobre a segurança de substâncias químicas como o Teflon. Testes internos de segurança revelaram que as substâncias químicas PFAS eram extremamente tóxicas, até mesmo fatais para seres vivos, mas os fabricantes continuaram afirmando que seus produtos eram seguros, ocultando seus próprios dados, em violação da lei. Em um memorando enviado aos funcionários em 1980, a DuPont minimizou as preocupações com a toxicidade de seu PFAS C8, afirmando que não era mais perigoso do que “sal de cozinha”.
Prevê-se que as responsabilidades da indústria relacionadas aos PFAS sejam iguais ou superiores aos 206 bilhões de dólares que as grandes empresas de tabaco foram obrigadas a pagar, e os custos de limpeza em todo o território dos Estados Unidos também deverão atingir centenas de bilhões de dólares.
Os microplásticos, com razão, são um dos principais alvos da cruzada “Make America Healthy Again” do Secretário Robert F. Kennedy Jr. Em abril, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos anunciou um novo programa inovador chamado STOMP (Systematic Targeting of Microplastics – Alvo Sistemático de Microplásticos). O STOMP tem três objetivos: desenvolver novas tecnologias para quantificar a contaminação por microplásticos, determinar os danos que causa aos seres humanos e encontrar maneiras de eliminar os microplásticos do corpo humano. Dado o quão preocupados os executivos da indústria de plásticos estavam com a pesquisa de Volkheimer, poderíamos esperar que eles tivessem realizado suas próprias pesquisas para verificar se ele estava certo.
As empresas realizam estudos internos, incluindo estudos de toxicidade, o tempo todo. Em sua busca por respostas e para proteger os americanos da exposição a microplásticos, Kennedy tem o dever de exigir mais informações das empresas de plástico, incluindo registros históricos, e de usar todos os poderes à sua disposição para obtê-las. Se as empresas de plástico esconderam uma “história de terror” e permitiram que a situação piorasse muito, elas devem ser responsabilizadas.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, novembro de 2026