
Os PFAS são usados em baterias de carro e ainda não existe um substituto pronto para uso. Fonte: © Iryna Inshyna/Shutterstock
https://www.chemistryworld.com/news/can-we-have-a-world-without-pfas/4023891.article
22 jul 2026
[Nota do Website: Matéria bem sucinta mais que traz uma profunda colocação de alguém que viveu dentro da produção e dispersão dessas moléculas sintéticas, consideradas ‘forever chemicals’/químicos eternos. Suas observações diretas e sem rodeios nos dão uma dimensão do que a humanidade vem vivendo e ainda viverá por muitas gerações depois da nossa que desacorrentou esse monstro!].
As substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS) são valorizadas pelos fabricantes por sua capacidade de repelir óleos e água, e estão presentes em diversos produtos, desde panelas antiaderentes a baterias e roupas. No entanto, elas raramente saem das notícias agora que a extensão da contaminação em todo o mundo está se tornando conhecida (nt.: destaque em negrito dado pela tradução para mostrar a extensão da problemática global quanto aos ‘forever chemicals’).
Sua excepcional persistência no meio ambiente fez com que fossem encontradas nas partes mais profundas do oceano e no alto Ártico, e associadas a uma série de problemas de saúde, incluindo câncer e problemas de fertilidade. Um estudo recente constatou que a União Europeia/UE poderia gastar € 100 bilhões (£ 85 bilhões) por ano e ainda assim limparia apenas uma fração da contaminação por PFAS.
O que são PFAS?
PFAS – também conhecidos como “químicos eternos” – são uma família de aproximadamente 15.000 substâncias químicas sintéticas amplamente utilizadas em produtos de consumo em todo o mundo desde a década de 1950. São uma classe de substâncias químicas que contêm pelo menos um grupo metil (–CF3) ou metileno (–CF2–) perfluorado. Elas não se degradam facilmente no meio ambiente porque a ligação carbono-flúor está entre as mais fortes que existem. As propriedades únicas dessas substâncias conferem características como repelência a óleo, graxa e água, além de resistência à temperatura e redução do atrito. Isso contribui para a criação de produtos antiaderentes e resistentes a manchas, por exemplo.
No entanto, os PFAS também são altamente móveis no meio ambiente e bioacumulam, além de sofrerem biomagnificação, ao longo da cadeia alimentar. O PFOA e o PFOS – as substâncias mais estudadas dentre essas – foram associados a sérios problemas de saúde, como distúrbios reprodutivos e de desenvolvimento, redução da função imunológica e certos tipos de câncer.
A Chemistry World conversou com Rudy Dams, ex-cientista da indústria na fabricante de PFAS 3M, que palestrou no 10º Congresso de Química da EuChemS. Ele afirmou que os PFAS não essenciais deveriam ser proibidos e o processo de descontaminação deveria começar agora, mas que ainda precisaremos conviver com esses produtos químicos para usos essenciais por algum tempo (nt.: destaque em negrito dado pela tradução para mostrar a emergência que a humanidade vive!).

Existem centenas de medicamentos, incluindo vários de grande sucesso comercial – o PROZAC é um deles – que contêm PFAS. Precisamos continuar a usá-los. Fonte: © Rudy Dams
Por que devemos nos preocupar com PFAS?
O maior problema com os PFAS é que esses materiais são persistentes, permanecendo na ecosfera da Terra por muito tempo. Eles também estão disseminados por todo o mundo. Alguns deles são gases de efeito estufa muito potentes ou prejudiciais ao sistema imunológico humano. Essa foi também a razão pela qual, como medida de precaução em 2000, a 3M interrompeu a produção de perfluorocarbonos de cadeia longa. Na minha opinião, ainda não há motivo para pânico generalizado, mas em algumas décadas, se continuarmos agindo como agora com os PFAS, poderemos ter um problema. Portanto, é hora de agir e encontrar soluções. Ainda precisaremos de PFAS em aplicações essenciais nos próximos anos, mas espero que, dentro de uma década, mais ou menos, tenhamos encontrado substitutos viáveis. Mas lamento dizer que, por enquanto, ainda não chegamos lá.
O que devemos fazer então?
Neste momento, devemos selecionar as aplicações essenciais onde os PFAS são críticos para a humanidade, por exemplo, na área da saúde, e onde não existem alternativas. Devemos eliminar todos os outros usos, visto que já dispomos de soluções pragmáticas livres de PFAS para essas aplicações.
Para lidar com a contaminação histórica e atual, devemos começar a implementar a remediação em todo o mundo. Por remediação, quero dizer não apenas a captura ou remoção de PFAS do solo, das águas subterrâneas, da água potável e do ar, mas também a mineralização dos PFAS, devolvendo-os à sua forma original, que eram fluoretos inorgânicos. E, por último, mas não menos importante, a reciclagem desses fluoretos para reinserção em processos industriais. Isso é fundamental – precisamos fechar o ciclo do flúor. Essa é a solução a curto prazo. A longo prazo, a solução é encontrar alternativas e substituir o máximo possível de PFAS.
O que é considerado um PFAS essencial?
Rudy Dams, ex-cientista da 3M, afirma que alguns PFAS ainda são essenciais e incluem aplicações essenciais para a humanidade e onde não há alternativa, como, por exemplo, na área da saúde, em medicamentos e dispositivos médicos. Existem centenas de medicamentos, incluindo vários de grande sucesso comercial – o Prozac é um deles – que contêm PFAS. Precisamos continuar usando-os. Se você perguntar a hospitais, cirurgiões ou médicos que utilizam dispositivos médicos como cateteres, stents, implantes e similares, eles dirão que, por enquanto, não podemos prescindir dos PFAS.
O mesmo se aplica ao mercado de energia. Na Europa, queremos migrar para energias renováveis e abandonar os combustíveis fósseis. As baterias desempenharão um papel importante nessa transição, e contêm vários PFAS essenciais, como fluoropolímeros ou alguns eletrólitos. Portanto, as gerações futuras poderão depender de PFAS ou de alternativas aos PFAS, mas precisamos encontrar essas alternativas o mais rápido possível.
Por que deveríamos fazer isso?
Moro em Zwijndrecht, na Bélgica, uma das chamadas áreas críticas de contaminação por PFAS, esses “químicos eternos”. Minha família e eu vivemos aqui há mais de 40 anos. Sou avô de cinco netos. Quero garantir que meus filhos e netos continuem a viver em um ambiente seguro, livre de PFAS, se possível.
E quanto às importações que contêm PFAS?
Esse é um ponto crucial. Se a UE restringir ou mesmo proibir a fabricação e o uso de PFAS na Europa, mas não proibir as importações da China, Índia, EUA ou outros países, não teremos resolvido nada para as gerações futuras. Não se esqueça de que esses materiais são persistentes e podem percorrer longas distâncias na água e no ar. Portanto, produzir PFAS fora da Europa não impediria que eles retornassem ao meio ambiente europeu e não ofereceria uma solução permanente. Além disso, as emissões e o gerenciamento de resíduos são rigorosamente regulamentados na Europa, muito mais do que em outras partes do mundo. Assim, a produção fora da Europa pode resultar em grandes concentrações de PFAS simplesmente porque as leis ambientais não são tão rigorosas em outros lugares. A poluição por PFAS não conhece fronteiras.
Quem você acha que deveria pagar pela limpeza dos PFAS?
Essa é uma pergunta muito boa, mas difícil. Em todo o mundo, a limpeza de PFAS terá um custo astronômico. Precisamos de abordagens pragmáticas que priorizem os pontos críticos onde há contaminação severa da água potável e das áreas agrícolas. Não podemos esquecer que a principal forma de exposição da população em geral aos PFAS é por meio da água potável e dos alimentos – precisamos cuidar disso o mais rápido possível.
Imagino que nós, o público em geral, vamos pagar por isso com preços mais altos, já que, por exemplo, as empresas de água precisam instalar filtros ou outros meios para remover o máximo possível de PFAS. Por outro lado, a remediação de áreas contaminadas por emissões industriais deveria ser financiada pela própria indústria. É o que a 3M está fazendo atualmente em Zwijndrecht, investindo milhões de euros nisso.
Meu desejo é que a questão dos PFAS seja resolvida o mais rápido possível, mas não podemos jogar tudo fora. Por um curto período, talvez uma década, teremos que continuar convivendo com uma quantidade limitada de PFAS essenciais, e teremos que aceitar isso. E espero que, em breve, tenhamos substitutos que nos permitam criar um mundo melhor e mais seguro para as futuras gerações.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, julho de 2026