
https://undark.org/2026/01/21/opinion-climate-sufficiency-politics
21 jan 2026
[Nota do Website: Uma matéria que nos traz um questionamento por demais fundamental. Algo que não se vê sendo ventilado pela grande mídia nacional. A questão aqui proposta é sobre suficiência. Ou seja, qual o limite do bem viver, com os limites da racionalidade para que todos nós, os habitantes desse planeta, realmente possamos viver hoje com sustentabilidade. Conceito esse que foi apropriado pelas grandes transnacionais para continuarem, ao adjetivarem o desenvolvimento de nossas vidas permita, enganosamente, de forma que continuem fazendo o que sempre fizeram. Sempre sem limites e infinitamente. Mas a grande dúvida é: quem e como se definirá, social e coletivamente, quais são esses limites. Tanto para os indivíduos como para todos os organismos privados e públicos. Essa é a derradeira questão].
O conceito de estabelecer limites sustentáveis para o consumo enfrenta um desafio político à medida que começa a influenciar as políticas públicas.
Durante grande parte da última década, os debates ambientais foram dominados por uma única pergunta: quão rápido podemos descarbonizar — ou seja, reduzir os gases de efeito estufa emitidos por atividades como aquecer nossas casas, nos locomover e produzir alimentos e bens? A urgência é justificada. Mas, à medida que as políticas climáticas amadurecem, outra questão, mais incômoda, começa a surgir. Reduzir as emissões de carbono é essencial, mas é apenas uma parte de um desafio ambiental mais amplo, moldado pelo quanto as sociedades produzem e consomem em geral. Mesmo em um futuro com baixas emissões de carbono, quanto será suficiente?
Essa questão está no cerne de um crescente corpo de pesquisas sobre “suficiência”, frequentemente enquadrado pela ideia de corredores de consumo. O conceito é simples na teoria: as sociedades devem garantir um nível mínimo de consumo que assegure uma vida digna para todos, ao mesmo tempo que estabelecem um limite máximo além do qual o consumo comprometa os limites planetários, como a estabilidade climática, ecossistemas saudáveis, uso da terra e sistemas de água doce. Entre esses limites, existe um corredor onde as pessoas podem viver bem sem desestabilizar os sistemas dos quais a vida depende. Essa estrutura vincula sustentabilidade à equidade, reconhecendo que pessoas que vivem na pobreza não devem ser solicitadas a consumir menos, enquanto aquelas com pegadas ecológicas muito maiores podem precisar reduzir seu consumo.
A suficiência deixou de ser uma ideia marginal. Pesquisadores climáticos estimam agora que mudanças em setores como construção, transporte e agricultura poderiam reduzir as emissões globais em 40 a 70 por cento até meados do século. Na Europa, formuladores de políticas e pesquisadores estão começando a explorar como essas ideias podem ser integradas às políticas de habitação e construção, incluindo a imposição de limites ao tamanho per capita de novas residências em países mais ricos. Grupos da sociedade civil e institutos de pesquisa foram além, desenvolvendo opções políticas concretas para aplicar a lógica da suficiência a edifícios, transporte e uso de energia.
Mas, à medida que governos e pesquisadores começam a transformar a suficiência da teoria em política, surge uma questão mais complexa. Quem decide onde devem ser definidos os limites mínimo e máximo, e para quem?
Essa questão é importante porque os limites ambientais não são apenas decisões técnicas — são decisões políticas. Em muitas democracias, as medidas de sustentabilidade enfrentam cada vez mais resistência, não porque as pessoas rejeitem a proteção ambiental por completo, mas porque a percebem como algo imposto de cima para baixo. Nesse clima político, a suficiência pode tanto intensificar as suspeitas de excesso de burocracia quanto oferecer uma maneira de reconectar a política ambiental com a tomada de decisões democráticas.
Os limites não são fatos neutros à espera de serem descobertos. Eles refletem julgamentos sobre o que conta como necessidade, excesso e justiça. Se esses julgamentos forem feitos por decreto tecnocrático em vez de deliberação democrática, a suficiência corre o risco de reforçar uma narrativa familiar e politicamente poderosa: a de que a sustentabilidade corrói a liberdade e marginaliza a voz pública.
Neste clima político, a suficiência pode tanto aprofundar as suspeitas de excesso de burocracia, quanto oferecer uma maneira de reconectar a política ambiental com a tomada de decisões democráticas.
Estudos mostram que a oposição a políticas climáticas, como impostos sobre combustíveis e carbono, é frequentemente motivada menos pelo ceticismo climático do que pela desconfiança nas instituições e pela percepção de injustiça. Quando os limites ambientais são percebidos como imposições de cima para baixo, podem provocar resistência antiautoritária, mesmo quando os próprios objetivos ambientais gozam de amplo apoio.
As viagens aéreas trazem essas tensões à tona de forma contundente. A aviação é responsável por aproximadamente 2,5% das emissões globais de dióxido de carbono, com sua contribuição para o aquecimento global subindo para cerca de 4% quando certos efeitos atmosféricos, como rastros de condensação, são considerados. Voar também é profundamente desigual. Uma pequena minoria de viajantes frequentes é responsável por uma parcela desproporcional das emissões da aviação, enquanto grande parte da população mundial nunca voa.
Do ponto de vista da suficiência, a aviação é uma candidata óbvia à redução de emissões. As propostas políticas incluem taxas para passageiros frequentes que aumentam o custo de cada voo adicional realizado por ano, bem como orçamentos pessoais para voos, concebidos para conter viagens excessivas, protegendo, ao mesmo tempo, viagens ocasionais e essenciais. Mas o desafio não é apenas como reduzir as emissões. É como decidir quais viagens são legítimas e quem tem o poder de tomar essa decisão.
A pandemia da Covid-19 ofereceu uma visão reveladora de como essas decisões podem se desenrolar. Em março de 2020, governos de todo o mundo restringiram a aviação. No Reino Unido, autoridades desaconselharam todas as viagens internacionais não essenciais, enquanto a União Europeia impôs uma restrição temporária a viagens não essenciais para o bloco. Essas categorias muitas vezes não refletiram as realidades vividas no terreno. Pesquisas recentes documentaram o custo humano dessas políticas, com trabalhadores migrantes visitando familiares, casais binacionais se reencontrando e pessoas retornando para cuidar de parentes vendo suas necessidades reduzidas a definições burocráticas rígidas.
A lição não é que os limites sejam inerentemente ilegítimos. É que a legitimidade depende do processo. É aqui que a suficiência chega a uma encruzilhada política. Definida burocraticamente, corre o risco de se tornar mais um exemplo citado pelos críticos do “excesso” ambiental. Mas, definida democraticamente, poderia ajudar a reconstruir a confiança em vez de corroê-la.
Há cada vez mais evidências de que os cidadãos são capazes de lidar seriamente com os limites ambientais quando lhes é dada a oportunidade. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) documentou centenas de assembleias de cidadãos sobre o clima em todo o mundo. Análises desses processos mostram que os participantes frequentemente apoiam medidas orientadas para a suficiência, particularmente em setores como o de transportes. Por exemplo, uma convenção nacional de cidadãos sobre o clima na França apresentou uma solução criativa ao propor limites para voos domésticos onde existissem alternativas ferroviárias menos poluentes.
A ideia de suficiência é frequentemente apresentada como um convite a viver com menos. Na realidade, trata-se de uma exigência para decidirmos juntos o que realmente precisamos para viver bem em um planeta com recursos finitos.
A deliberação não elimina a discordância, nem garante resultados ambiciosos. Mas torna as concessões visíveis e passíveis de contestação. Ela transforma a sustentabilidade de um projeto de conformidade em um de autogestão coletiva. Nesse sentido, a suficiência não é apenas uma proposta ambiental, mas um teste democrático.
A ideia de suficiência é frequentemente apresentada como um apelo para viver com menos. Na realidade, trata-se de uma exigência para decidirmos juntos o que realmente precisamos para viver bem em um planeta finito — o que, para alguns, significa, na verdade, viver com mais. A tecnologia e os modelos econômicos podem nos ajudar a entender o que é fisicamente possível, mas não podem nos dizer o que é socialmente aceitável ou moralmente justo. Esses julgamentos pertencem à esfera pública.
Para que a sustentabilidade ambiental seja bem-sucedida, ela precisa ser entendida não apenas como um projeto técnico, mas como uma conquista política. Os limites mais difíceis que enfrentamos não são apenas ecológicos, mas também democráticos. O sucesso da suficiência dependerá menos de onde os limites forem estabelecidos do que da disposição das sociedades em confrontar a questão do “suficiente” — coletivamente, abertamente e com cuidado.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, janeiro de 2026