
28 jan 2026
[Nota do Website: Reflexão desse experiente jornalista inglês que nos coloca frente a frente com uma realidade quase intangível de nossos dias. Aqui está uma afirmativa de um dos fundadores do facebook que diz, com a maior desfaçatez, que sim, os ‘homens’ das Big Techs sempre souberam que estavam criando um processo viciante. E ponto final! No exato dia de hoje, 19.02.26, Zuckerberg depôs frente a um tribunal em LA/CA, exatamente sobre esse tema. É evidente que irá contestar seu ex-colega. Mas mesmo que dissesse a verdade, iria adiantar? O processo é diabólico, no sentido de algo que gera separatividade, e dantesco, por ser ainda incontrolável. Assim, a pergunta é: o que fazer se nós, individual e coletivamente, é que sustentamos com o nosso olhar, direto ao coração e a mente, o ‘ópio’ dessas mídias anti-sociais? Somos nós que devemos nos autoeducar para abdicar. Outro caminho, mesmo com a sua restrição, abrirá as portas do mundo escuro e fugidio do ‘proibido’. Não assim que fazemos com os nossos outros vícios?].
As críticas às redes sociais têm se concentrado principalmente no conteúdo, mas os algoritmos demoníacos que nos viciam deveriam ser o nosso alvo.
Algo importante está acontecendo nos Estados Unidos. Não, não é isso. Desta vez, nada a ver com ele. Começando na Califórnia, uma série de julgamentos terá início esta semana, nos quais a Meta e o YouTube são acusados de vender produtos prejudiciais por serem viciantes, como cigarros — ou talvez heroína. O Snapchat e o TikTok já fizeram um acordo.
Espera-se que nomes de peso sejam chamados para depor, incluindo o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg. Provavelmente, eles argumentarão que, no sentido tradicional, seus produtos não são viciantes. Embora isso possa ser difícil.
Antigamente, a ideia de vício em internet parecia absurda, como ser viciado em ver fotos de gatos ou assistir compulsivamente a Friends. Hoje? Estamos cansados demais para rir. O presidente dos EUA é um viciado, nos “impondo” uma nova ordem global uma vez por semana. O homem mais rico do mundo era tão viciado no Twitter que o comprou. Talvez seus filhos sejam viciados. Talvez você seja. Talvez eu seja. Quem não é?
Mas lá no alto escalão, eles sempre souberam. Nove anos atrás, um Zuckerberg novo e muito sério, um Zuckerberg de terno e gravata, que algumas pessoas achavam que poderia querer ser presidente, discursou para os americanos sobre suas preocupações com a crise dos opioides. Seus olhos se encheram de lágrimas, ele prometeu bilhões para ajudar. Apenas um dia antes, porém, em outra entrevista, um ex-executivo do Facebook havia acabado de revelar tudo.
Este era Sean Parker. Vocês se lembram do Parker? Justin Timberlake o interpretou em A Rede Social. Ele foi presidente do Facebook em determinado momento, mas já estava fora do jogo naquela época. Ele falou sobre o site explorar “uma vulnerabilidade na psicologia humana”, e de forma deliberada.
“Só Deus sabe o que isso está fazendo com o cérebro dos nossos filhos”, disse Parker, antes de descrever “um ciclo de feedback de validação social”, que era “exatamente o tipo de coisa que um hacker como eu criaria”. O truque, segundo ele, era dar aos usuários “uma pequena dose de dopamina”, o que os fazia voltar sempre. Além disso, ele disse que ele e Zuckerberg “sabiam disso conscientemente. E mesmo assim, fizemos”. Na época, uma confissão surpreendente. Mas hoje em dia? Bem, claro. Sem dúvida, Sean. E não é só o Facebook. São todos eles. Quase ninguém mais finge o contrário.
Apesar disso, nós, críticos, temos nos concentrado principalmente no conteúdo; nas coisas que você vê. Isso faz sentido, porque, mesmo que as plataformas sejam os cigarros, o conteúdo é o alcatrão que mata. O conteúdo leva crianças à automutilação e ao isolamento, leva adultos à loucura, provoca brigas sobre banheiros para transgêneros no seu jantar de Natal. Possivelmente, como visto de forma triste em Mianmar, pode até causar genocídios.
Do ponto de vista legal, porém, lidar com conteúdo é terrivelmente difícil. A fiscalização torna-se ridícula; políticos e ativistas se irritam com a censura. Alguns, como o próprio Trump, citam a Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos, mesmo que grande parte do mundo persista em sua inexplicável incapacidade de ser americana. E claro, embora o conteúdo possa ser desagradável, não houve sempre precedentes para isso? Violência em filmes, pornografia, teorias da conspiração, política suja; nada disso é novo. Então, como lidar com novas ameaças sem atropelar antigas liberdades? Ninguém sabe.
Mas foque na entrega, e de repente você terá uma resposta. Porque, na verdade, o verdadeiro problema não é a nossa incapacidade de largar esses malditos celulares? Esta semana, defendendo a proibição das redes sociais para adolescentes, Alice Thomson escreveu comoventemente sobre a destruição da infância: as crianças que ficam em casa, as amizades desfeitas, as bolas de futebol que não são jogadas. Mas não é um simples olhar que causa esse dano, não é? São horas e horas. É o verme mental, a rolagem incessante em busca de mais.
Sem controle, isso só piora. Aliás, já piorou. Ao escrever sobre seu próprio vício em redes sociais no início deste mês, Sathnam Sanghera fez a observação surpreendente e tardia de que as redes sociais deixaram de ser sociais. As atualizações de amigos, observou ele, foram substituídas por vídeos estranhos e conteúdo gerado por inteligência artificial. Há uma nova mania vazia nisso; uma rotina implacável e apática.
Os picos de dopamina de Parker, suponho, poderiam ao menos ser comparados ao soma consumido em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; explosões de êxtase que deixam um desejo insaciável por mais. Nosso admirável mundo novo, porém, é ainda mais sombrio. Hoje em dia, o êxtase nunca chega. Em vez disso, você rola a tela sem parar, em constante déficit, sem nunca se saciar. Porque, de alguma forma, os algoritmos parecem ter descoberto que isso te prende ainda mais. “Eles parecem não ver mais sentido na vida”, disse o autor Jonathan Haidt a Thomson, sobre as crianças de hoje. Mas, ansiando por um sentido, eles rolam a tela sem parar.
Em breve, aposto, as IAs também farão isso. Hoje, nos preocupamos com os melhores amigos digitais; amigos substitutos criados para bajular e encantar com tanta eficácia que os jovens jamais buscarão amigos de verdade. Mas e quando eles também aprenderem a manipular e provocar, deixando você incapaz de largar o celular até obter a aprovação deles? Nossa crise de saúde mental online pode estar apenas começando.
O conteúdo importa, como eu disse. Em meio a todas as nossas preocupações com censura e proibições, porém, me pergunto se focar na forma como o conteúdo é distribuído não seria a solução. Não é o que você vê. É a sua compulsão em continuar vendo, e isso vem deles, não de você. Foi assim que eles construíram o sistema. E fizeram isso de propósito, e continuam fazendo, e me ocorre que não há argumento plausível, sob nenhuma perspectiva, contra simplesmente fazê-los parar.
Então, preocupe-se menos com o quê. Pense, em vez disso, no como. Largar o celular é obviamente o melhor ponto de partida, mas não dizemos simplesmente aos viciados em heroína para largarem a seringa. Ataque os mecanismos. Os alvos. As sequências de uso. As transmissões intermináveis. Todos esses truques demoníacos criados para roubar sua paz e mantê-lo viciado, e que funcionam tão diabolicamente bem. Elimine-os e talvez todos os outros problemas desapareçam.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, janeiro de 2026