Bronzeadores e a destruição dos corais

Bronzeadores e a destruição dos corais. O bronzeador que mergulhadores, banhistas e crianças se farreiam nas espumas do mar para se protegerem dos raios do sol, está matando os recifes de corais em volta da Terra.

 

http://www.washingtonpost.com/news/energy-environment/wp/2015/10/20/after-sunscreen-protects-humans-it-massacres-coral-reefs/

tubro de 2015

O bronzeador que mergulhadores, banhistas e crianças que se esparramam pelas espumas das ondas do mar, usam para se protegerem dos raios do sol, está matando corais e recifes em volta do globo terrestre. Um nova pesquisa (a new study) detecta que mesmo uma simples gota, em uma pequena área, é tudo o que precisam estes químicos presentes nele, para se organizarem em seu ataque.

Este estudo, liberado no último dia 27 de outubro, foi conduzido nas Ilhas Virgem norte americanas e no Hawaii, vários anos depois de um encontro casual entre um grupo de pesquisadores em uma das praias caribenhas, Trunk Bay, e um fornecedor que esperava pelo dia da invasão de turistas. Expressando o que eles deixam para trás, disse aos cientistas – “há uma mancha de óleo que permanece por um longo tempo no mar”. Pois esse seu comentário acendeu um projeto de pesquisa.

Não somente esta pesquisa determinou que uma pequenina quantidade de bronzeador é tudo o que precisa para começar a danificar os delicados corais — a equivalência é como se fosse uma gota d’água em meia dúzia de piscinas olímpicas — mas também documentou três diferentes maneiras de como o ingrediente oxibenzona degrada o coral, roubando dele nutrientes vitais e os tornando fantasmagoricamente brancos.

[Cientistas dizem que o evento global do branqueamento corais está se alastrando]

Imagem anterior e posterior ao branqueamento na Samoa Americana. A primeira imagem foi feita em dezembro de 2014. A segunda em fevereiro de 2015, quando o XL Catlin Seaview Survey respondeu a um alerta do NOAA sobre branqueamento de corais. (Crédito: XL Catlin Seaview Survey)

Alice Lawrence, bióloga marinha, acessa o branqueamento no Airport Reef na Samoa Americana. (Crédito: XL Catlin Seaview Survey)

No entanto, não são só as multidões de banhistas os únicos seres a contribuírem para a falência dos recifes de corais, inclusive detectados fora das praias. São atletas que se besuntam de bronzeadores e protetores solar, antes de suas corridas; mães que cobrem seus filhos com eles antes de irem brincar fora e as pessoas que querem ‘pegar um solzinho’ no parque e depois voltam para casa e lavam seus corpos, tirando todo o produto de suas peles.

Os recifes de corais e a mudança climática
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Neste vídeo do serviço nacional de oceanos da NOAA, os cientistas explicam a pressão sobre os corais, causada pelas mudanças climáticas e o que podemos fazer sobre isso. (National Ocean Service/NOAA)

Cidades como Ocean City, Md. e Fort Lauderdale, Fla., têm construído emissários cloacais marinhos, levando as águas servidas para fora das praias públicas. Resulta então enviarem estes produtos de uso pessoal, com seu coquetel de produtos químicos, para dentro dos oceanos. Além de tudo, o esgotamento transborda quando há pesadas chuvas e espalha milhões de toneladas de esgoto misturado com água da chuva, direto nos rios e mananciais hídricos. Aí vão bronzeadores, protetores solar e produtos como os anticoncepcionais que contém substâncias químicas sintéticas que são disruptores endócrinos e que acabam alterando as formas de como os organismos se desenvolvem. Estes são os principais suspeitos numa pesquisa do por quê peixes machos como os achigãs estão desenvolvendo órgãos femininos.

Pesquisa de um novo estudo foi conduzido somente em duas ilhas. No entanto, ao redor do mundo, a cada ano, mais do que 14.000 toneladas de bronzeadores são despejados nos recifes de corais e muito deles “contêm entre 1 a 10% de oxibenzona,” dizem os autores. Estimam que isso coloca em risco por esta alta exposição, pelo menos a 10% dos recifes, avaliando estarem eles localizados em áreas populares de turismo.

“A maior evidência que temos são a das praias com grande quantidade de pessoas nas águas,” diz John Fauth, professor adjunto de biologia da University of Central Florida em Orlando, Flórida. “Entretanto outra forma de contaminação é através das águas residuais dos esgotos. As pessoas chegam da praia e vão para um chuveiro. Esquecem de que o bronzeador e/ou protetor vai para algum lugar.”

O trabalho foi publicado neste mês de outubro de 2015, no periódico Archives of Environmental Contamination and Toxicology. Fauth fez este estudo em uma coautoria com Craig Downs do Haereticus Environmental Laboratory, organização sem fins lucrativos de Clifford, Va., além de Esti Kramarsky-Winter, pesquisador do Departamento de Zoologia junto à Tel Aviv University no Israel.

Suas descobertas seguem o trabalho da National Oceanic and Atmospheric Administration/NOAA de duas semana atrás quando informava que o mundo está no meio de um terceiro momento de embranquecimento global dos recifes. Advertem de que a poluição está minando a saúde dos corais, tornando-se incapazes de se recuperarem destes efeitos.


(Reuters)

“O uso de produtos contaminados com oxibenzona necessita ser avaliada com seriedade em ilhas e áreas onde a conservação dos recifes de corais é um fato crítico,” disse Downs. “Já perdemos 80% dos recifes de corais caribenhos. Qualquer esforço, mesmo que pequeno, para reduzir a poluição com oxibenzona, pode significar que o recife sobreviva a um longo e quente verão ou que áreas degradadas se recuperem.”

Os recifes de corais são mais do que um mostruário exótico de cores sobre o leito do oceano. O National Marine Fisheries Service, uma divisão da NOAA,  atribui seu valor para a pesca norte americana em $100 milhões de dólares. Abrigam as desovas dos peixes que os humanos comem além de protegerem das tormentas, quilômetros de extensão da costa.

“Economias locais também recebem bilhões de dólares pelas visitas aos recifes através dos passeios, usando equipamentos de mergulho, além da pesca recreativa, hotéis, restaurantes e outros negócios localizados próximos dos ecossistemas dos recifes,” declarou a NOAA em seu website. “Globalmente, os recifes de corais provêm um benefício líquido de $ 9,6 bilhões, a cada ano, face os retornos do turismo e da recreação, além de $ 5,7 bilhões, por ano, pela pesca.”

Oxibenzona está misturada a mais de 3.500 produtos bronzeadores/protetores, mundo a fora, incluindo marcas populares como Coppertone, Baby Blanket Faces, L’Oreal Paris, Hawaiian Tropic e Banana Boat. Efeitos adversos sobre os corais já começam em concentrações abaixo de 62 partes por trilhão. Existem bronzeadores alternativos sem oxibenzona, incluindo um produto chamado Badger Natural Sunscreen e dezenas de outros declarados pela organização sem fins lucrativo Environmental Working Group/EWG.

Medições de oxibenzona na água do mar, dentro dos recifes de corais, tanto no Hawaii como nas Ilhas Virgens dos EUA, detectaram concentrações que giraram de 800 partes por trilhões a 1,4 partes por milhões,” de acordo com os autores. Isso fica 12 vezes acima das concentrações necessárias para danificarem o coral.

“Este estudo leva à nossa consciência a ameaça raramente percebida quanto à saúde da vida de nossos recifes… produtos químicos presentes nos bronzeadores/protetores solares dos visitantes e na roupas dos residentes, são tóxicos para os jovens corais “, disse Pat Lindquist, diretor-executivo da Napili Bay and Beach Foundation em Maui. “Este conhecimento é fundamental para nós quando considerarmos nossas ações para mitigarmos estas ameaças ou melhorarmos nossas práticas que atualmente temos.”

Tradução livre de Luiz Jacques Saldanha, novembro de 2015.

 

Post scriptum: O Dr.Joseph Mercola em seu artigo: http://articles.mercola.com/sites/articles/archive/2015/11/04/how-sunscreen-harms-coral-reefs.aspx, sugere 4 recomendações:

“Quatro Dicas para Aproveitar Seguramente o Sol sem Prejudicar sua Saúde ou o Ambiente

Para aproveitar continuamente os efeitos positivos da exposição ao sol, sem ficar queimado, recomendo estas simples dicas seguras:

    1. Proteger a face e os olhos, usando um chapéu de abas largas ou um boné. A pele ao redor destas áreas é muito mais fina do que outras do corpo e está sob maior risco para danos cosméticos à luz e a rugas prematuras. Se estiver muito quente para se colocar mesmo que uma roupa leve e se o período de estar fora for longo,  certificar-se usar produtos naturais de amplo espectro sobre a pele – estes produtos muitas vezes contêm zinco.
    2. Limitar exposição inicial ao sol e trabalhar lentamente a entrada nele. Se a pele for muito clara que tende a queimar facilmente, limitar a exposição inicial a apenas alguns minutos, especialmente se estiver em pleno verão. Quanto mais curtida a pele fica, mais se pode ficar no sol sem se queimar.
    3. Formular protetores solares internos com antioxidantes benéficos . A astaxantina, um potente antioxidante, pode ser utilizada tanto interna como topicamente para proteger a pele do sol. Outros antioxidantes úteis (antioxidants) incluem proantocianidinas (nt.: flavonóides vegetais tipo taninos condensados), resveratrol (nt.: polifenol encontrado nas sementes das uvas, na casca da uva preta e no vinho tinto, além do que hoje se sabe que a hortaliça Rumex acetosa, com o nome popular de Azeda/Azedinhae o licopeno (nt.: presente no tomate). Comer de forma saudável é também muito importante. Alimentos frescos, crus e não processados libera nutrientes que o organismo necessita para manter o equilíbrio dos ácidos graxos na pele, ômega-6 e do ômega-3, que está na primeira linha de defesa contra a queima do sol. Vegetais frescos e crus também provêm o corpo com abundância de antioxidantes poderosos que irão auxiliar na luta contra os radicais livres causados pelos danos do sol e que pode levar à queima da pele e ao câncer.
    4. Umidificar naturalmente a pele. Antes do banho de sol, aplicar gordura de coco orgânica (coconut oil) ou ‘Aloe vera‘ sobre a parte exposta da pele ao sol.

Tradução livre de Luiz Jacques Saldanha, novembro de 2015.

Efeitos Toxico-patológicos do Filtro de UV de Protetor Solar, – Oxibenzona (Benzofenona-3) -, sobre Coral ‘Planulae’ e Células Primárias Cultivadas, bem como Sua Contaminação Ambiental no Hawaii e nas Ilhas Virgens Norte Americanas

http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs00244-015-0227-7

  • C. A. Downs 
  • , Esti Kramarsky-Winter
  • , Roee Segal
  • , John Fauth
  • , Sean Knutson
  • , Omri Bronstein
  • ,Frederic R. Ciner
  • , Rina Jeger
  • , Yona Lichtenfeld

Sumário

A benzofenona-3 (BP-3; oxibenzona) é um ingrediente presente nos bronzeadores e produtos de cuidado pessoal que protegem contra os efeitos danificadores dos raios ultravioletas. A oxibenzona é um contaminante emergente de preocupação nos ambientes marinhos—gerados pelos banhistas e pelos esgotamentos das águas residuais das residências e dos municípios, bem como dos barcos e navios. Examinamos os efeitos da oxibenzona sobre a forma larval (plânula) do coral Stylophora pistillata, como também sua toxicidade in vitro às células deste coral e de seis outras espécies de coral. A oxibenzona é foto-tóxico; efeitos adversos são exacerbados com a luz. Seja na escuridão ou na luz, a oxibenzona transformou as plânulas de um estado móvel para uma condição deformada séssil. As plânulas exibiam um aumento na taxa de branqueamento do coral em resposta ao incremento nas concentrações da oxibenzona. Também é genotóxica aos corais, exibindo uma relação positiva entre as lesões do DNA-AP e o aumento das concentrações da oxibenzona. A oxibenzona é um disruptor endócrino esquelético; induzia a ossificação da plânula, encapsulando a plânula inteira em seu próprio esqueleto. A LC50  (nt.: em inglês – letal concentration 50 – representa qual a concentração que mata 50% da população estudada) da exposição da plânula à oxibenzona na luz para uma exposição de 8- a 24-h foi de 3,1 mg/L e 139 µg/L, respectivamente. As LC50s para oxibenzona no escuro, para o mesmo tempo, mostrou ser de 16,8 mg/L e 779 µg/L. Níveis deformados de EC20 -24 h- (nt.: em inglês – effect concentration – concentração com efeito máximo do produto) da exposição à plânula ao oxibenzona foram de 6,5 µg/L na luz e de 10 µg/L na escuridão. As concentrações letais – LC50s – à células de coral (4 h, na luz) para 7 diferentes espécies de coral giraram de 8 a 340 µg/L, ao passo que as LC20s (4 h, na luz) para as mesmas espécies variaram de 0,062 a 8 µg/L. A contaminação dos recifes de corais por oxibenzona nas Ilhas Virgens norte americanas variou de 75 µg/L a 1,4 mg/L, ao passo que nos locais havaianos foram contaminados entre 0,8 e 19,2 µg/L. A oxibenzona coloca em perigo a conservação dos recifes de corais e ameaça a resiliência deles às mudanças climáticas.

Tradução livre de Luiz Jacques Saldanha, novembro de 2015.

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