Sistema Cantareira atinge volume zero em 2014 mes de junho20140515 0003 406x270 Água: o que há em comum entre Sikri, Ilha de Páscoa e São Paulo

 

No século XVI o poderoso Akbar, rei dos Moghols, ergue uma monumental cidadela em Sikri, a 30 quilômetros de Agra, na Índia, e a denominou a “Cidade da Vitória”. Isto porque pouco antes um profeta sufi previra a Akbar o nascimento de três filhos nesse lugar, o que realmente aconteceu nos anos seguintes. Algo, no entanto, o profeta não previu, ou não revelou. Quinze anos após transferir para lá o seu séquito de cinco mil mulheres – das quais trezentas esposas -, mil soldados e seus cavalos, Akbar teve que abandonar aqueles “jardins do paraíso”, deixando a fortaleza aos poucos herdeiros do profeta, por um único motivo: escassez de água.

Na mesma época, as tribos da Ilha de Páscoa estavam em seu auge, com uma população de 30 mil habitantes e uma dedicação incondicional a talhar e erguer centenas de gigantescas estátuas de pedra, os moais. Presume-se que essas rochas eram transportadas pela ilha com o uso de troncos de árvores. A competição em torno dos moais acabou por extinguir as florestas gerando, dentre outros problemas, uma severa escassez de água doce. Esse fato, aliado à erosão causada por práticas inapropriadas de agricultura, levou a população à guerra civil e ao canibalismo. Em menos de duzentos anos a população foi reduzida a apenas cem sobreviventes, vivendo em estado de miséria.

Um ano antes do nascimento de Akbar, era fundada no Brasil a Vila de São Paulo da Piratininga. Em região aquinhoada com vastos recursos hídricos, a cidade de São Paulo sobreviveu a Sikri por quinhentos anos. Em 1872 houve o primeiro censo demográfico no Brasil, revelando que dos seus 10 milhões de habitantes, 31 mil viviam na cidade de São Paulo, em franca expansão até ultrapassar a marca de 11 milhões de habitantes em 2011. Em 2014, a cidade enfrenta a pior crise hídrica de sua história.

Essa crise não se limita à cidade de São Paulo, atinge uma ampla região. Dezenove municípios paulistas efetuam racionamento de água, dos quais doze ficam na região de Campinas. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) estima que 3 mil postos de trabalho já tenham sido fechados em decorrência da falta d’água. Agricultores já irrigam em alguns casos somente 30% do que antes da crise hídrica. A Secretaria da Agricultura estima em caráter preliminar que a estiagem já tenha reduzido as safras de café em 25% e de cana e algodão em 10%.

De três destinos bem diferentes, há um ponto comum entre Sikri, Ilha de Páscoa, e São Paulo: em certo momento de suas histórias, enfrentaram crises ambientais sem precedentes, das quais Sikri e a Ilha de Páscoa saíram perdedoras. Que lições podemos tirar dessa crise? Como manter São Paulo em sua trajetória de êxito e desenvolvimento? A resposta começa por qualificativos que podem parecer óbvios, mas não são nada triviais: que o sucesso seja construído em bases duráveis, ou seja, que o desenvolvimento seja sustentável.

Hoje há amplo consenso sobre as condições necessárias e suficientes para que a sociedade se sustente indefinidamente. A organização de origem sueca The Natural Step** propôs essas condições em 1989 e diversos atores públicos e privados vêm buscando adequar-se a elas em todo o mundo, com diversas intensidades de resultados positivos, dependendo de seu estágio de evolução no tema. Essas condições estabelecem que uma sociedade sustentável não polui sistematicamente, não destrói sistematicamente o seu ambiente e não impede as pessoas de satisfazer suas necessidades fundamentais.

Parece simples e óbvio. E de fato é. Se examinarmos situações de colapso ambiental tais como Sikri e a Ilha de Páscoa, veremos que ocorreram como resultado da violação sistemática de uma ou de várias dessas condições. E o que tem isso a ver com São Paulo?

Consideremos alguns poucos exemplos de violações que a nossa sociedade ocasiona, e que tem provável relação com a dramática crise que atravessamos. Nossos corpos hídricos são sistematicamente poluídos, diminuindo a disponibilidade de água limpa. As florestas remanescentes no Brasil vem sendo degradadas de forma crescente, gerando variações da umidade trazida ao Sudeste e Sul do Brasil pelas nuvens que vêm da Amazônia. A nível local, solos menos permeáveis não absorvem água, com consequente aumento da demanda por irrigação e menos geração de chuva. O acúmulo de gases de efeito estufa de origem antrópica vem ocasionando alterações nos ventos de alta altitude que distribuem a umidade do ar, reduzindo a chuva em alguns lugares e aumentando em outros. A lista poderia seguir, pois os exemplos são abundantes.

A recomendação? Primeiro, precisamos aprender a viver sem aumentar as taxas de poluição e degradação ambientais, e sem impedir que nossos semelhantes tenham o fundamental para uma vida digna. Precisamos também restaurar o que vem sendo destruído. É preciso reconhecer o imenso custo que incorreremos ao tolerar padrões insustentáveis para perceber que será mais razoável agir desde já. Precisamos preservar e restaurar as matas ciliares, precisamos de solos porosos e biodiversos, precisamos reduzir ao mínimo o uso de agrotóxicos, precisamos parar de tratar corpos d’água como depósito de lixo. É importante levarmos em conta que cada um de nós no fundo sabe no que poderia contribuir, como consumidor e como cidadão.

Precisamos, enfim, envidar certos esforços que gostaríamos de não precisar encarar. Temos que reconhecer, entretanto, que se continuarmos a violar as condições que tornariam saudável o nosso ambiente, não há porque achar que a natureza será mais tolerante. Precisamos com urgência tratar das causas do problema para evitar uma tragédia social, ambiental e econômica.

* Os autores são consultores em sustentabilidade estratégica na hapiterra.com

** Publicado originalmente no site www.thenaturalstep.org.br/pt-br/brazil e retirado do site Página 22.