
O processo judicial marca um conflito entre o movimento “Make America Healthy Again” (Tornar a América Saudável Novamente) do secretário de saúde RFK Jr. e elementos do movimento MAGA (Make America Great Again – Magna Progressista) no governo Trump. Fotografia: Pablo Martínez Monsiváis/AP
https://www.theguardian.com/environment/2026/jan/24/lawsuit-epa-pesticide-isocycloseram
24 jan 2026
[Nota do Website: Matéria do The Guardian que nos interessa profundamente já que estamos vivendo tudo o que é relatado aqui porque o agronegócio domina a mídia convencional e também o congresso nacional. E o que se vê aqui nos EUA, com a EPA, o mesmo ocorre agora, inclusive sem a presença da Anvisa -que aprovou esse agrotóxico no Brasil- por ser somente o Ministério da Agricultura=dominação absoluta do agronegócio, com a ‘reforma’ feita por esse congresso, quem decide quanto aos registros e liberações de agrotóxicos. Ele que faz, praticamente sozinho, tudo quanto aos venenos. Também entre nós, mais vale o dinheiro do que a sobrevivência de todos, incluindo os praticantes das ‘agronegociatas’!].
Grupos afirmam que a EPA não considerou adequadamente os efeitos adversos à saúde das crianças quando aprovou o agrotóxico.
Grupos de saúde pública estão processando a Agência de Proteção Ambiental (EPA) por sua aprovação do inseticida PFAS, um “químico eterno/forever chemicals” que, segundo pesquisas da indústria, provavelmente reduz o tamanho dos testículos, diminui a contagem de espermatozoides e prejudica o fígado em ratos (nt.: além de interferir na fase embrionário, a formação de tiroxina, nas tiroides materna, necessária para a formação do sistema nervoso central do feto, podendo levar a um possível retardo mental do nascituro).
O agrotóxico isocicloseram (nt.: permitido no Brasil, como inseticida e nematicida e serve para várias culturas. Nome comercial da Syngenta: Plinazolim. Tem cloro e flúor na formulação química, dois halogêneos que deslocam o iodo da tiroxina) é usado em plantações de alimentos e pode representar uma ameaça especialmente para crianças e fetos em desenvolvimento, mas a EPA não levou esses riscos em consideração em sua avaliação de segurança, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, um dos autores da ação judicial.
O processo judicial representa o mais recente episódio de uma controvérsia em curso sobre o uso de substâncias químicas permanentes em agrotóxicos, que defensores da saúde pública descobriram durante o governo Biden e que se intensificou sob o governo Trump.
O programa de agrotóxicos também causou atritos entre o movimento Make America Healthy Again (MAHA), alinhado a Robert F. Kennedy Jr., que se opõe amplamente ao uso de agrotóxicos, e elementos do MAGA no topo do governo Trump alinhados com as indústrias de agrotóxicos e produtos químicos.
Grupos ambientalistas atribuem a culpa pela decisão de aprovar o agrotóxico à liderança do escritório de segurança química da EPA, que agora inclui ex-lobistas da indústria. Donley afirmou que os grupos “lutarão com todas as forças para garantir que esses agrotóxicos, que permanecerão no organismo por muito tempo, não envenenem os filhos dos nossos netos”.
“A aprovação deste agrotóxico perigoso evidencia como os manipuladores da indústria que comandam o escritório de produtos químicos da EPA estão fazendo pouco caso da fiscalização química”, disse Donley.
Os PFAS são uma classe de cerca de 16.000 substâncias químicas normalmente usadas na fabricação de produtos resistentes à água, manchas e calor. São chamados de “químicos eternos/forever chemicals” (nt.: os mais conhecidos são Teflon, Tfal, Scotchgard, goretex e outros) porque não se decompõem naturalmente; acumulam-se e estão associados a câncer, doenças renais, problemas hepáticos, distúrbios imunológicos, defeitos congênitos e outros problemas de saúde graves.
O agrotóxico é utilizado em culturas como maçãs, laranjas, alface, espinafre, tomates, brócolis, pimentões, pepinos, pêssegos, amêndoas, trigo e aveia, bem como em gramados e campos de golfe (nt.: GUARDEM OS NOMES DOS ALIMENTOS QUE COMEMOS CRÚS!!!).
Um porta-voz da EPA afirmou em comunicado ao The Guardian que a agência não comenta processos judiciais em andamento, mas que “está empenhada em combater os PFAs e proteger a saúde das crianças”.
“Munidos de ciência de ponta, estamos tornando a América saudável novamente, cumprindo nossa missão principal de proteger a saúde humana e o meio ambiente”, disse o porta-voz.
Kelly Ryerson, uma defensora da Maha que discutiu questões semelhantes com funcionários da EPA, criticou duramente a agência por aprovar mais um agrotóxico Pfas e sugeriu que isso não estava alinhado com os valores da Maha.
“É mais um exemplo de como os lobistas da indústria química que controlam a EPA priorizam os lucros corporativos e a desregulamentação em detrimento da fertilidade masculina em nosso país, e é mais um agrotóxico que afeta nossa capacidade de procriar e a capacidade dos filhos de nossos netos de procriarem”, disse Ryerson.
A EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) escreveu em sua avaliação de risco à saúde humana para a substância que a exposição alimentar a longo prazo em ratos parece levar à “redução do tamanho dos testículos, aumento da incidência e gravidade da degeneração tubular nos testículos, redução de espermatozoides e detritos celulares no epidídimo” (nt.: destaque em negrito onde poderá afetar aos homens).
A EPA também aprovou o agrotóxico, apesar de os reguladores australianos terem constatado que ele induzia malformações esqueléticas em fetos de ratos, e outras pesquisas terem demonstrado que o produto químico pode ser cancerígeno.
Pelo menos 60% dos ingredientes ativos aprovados para uso em agrotóxicos comuns em nível federal nos últimos 10 anos se enquadram na definição mais amplamente aceita de PFAs, segundo uma análise de dados da EPA de 2023.
Embora o isocicloseram em si permaneça no meio ambiente por pelo menos centenas de anos, sabe-se também que ele se degrada em 40 substâncias químicas Pfas menores, algumas das quais são ainda mais persistentes.
Isso também cria riscos para a vida selvagem. Donley observou que a própria pesquisa científica da EPA prevê que o agrotóxico teria efeitos adversos significativos em mais de 1.000 espécies ameaçadas de extinção. Ele também é altamente tóxico para os polinizadores, que podem ser expostos a níveis 1.500 vezes superiores à dose letal do agrotóxico apenas por coletarem néctar e pólen perto de campos tratados.
A substância foi aprovada mesmo assim porque o processo de avaliação de risco “é como um queijo suíço” e cheio de suposições erradas sobre o risco, disse Donley. Ele alegou que a EPA não cumpriu uma exigência da Lei de Proteção da Qualidade dos Alimentos (Food Quality Protection Act) de levar em consideração a segurança infantil, o que obriga a reduzir o limite de risco à saúde em dez vezes.
O mandato inclui uma exceção à regra de segurança infantil, caso evidências científicas demonstrem que ela é desnecessária, afirmou Donley. No entanto, a EPA baseou-se amplamente em pesquisas científicas da indústria, e há uma carência de revisões independentes, o que, segundo Donley, significa que a EPA desconhece os riscos para as crianças. A EPA também não levou em consideração o estudo australiano que encontrou deformações esqueléticas em ratos.
Entretanto, a agência não considera os efeitos cumulativos das exposições. As pessoas estão expostas a dezenas de substâncias potencialmente perigosas, incluindo os PFAs, que são pulverizados em plantações de alimentos ou utilizados em outros fins.
“Existe essa suposição de que todos estão expostos a esse produto químico em um ambiente isolado, quando na realidade estamos todos expostos a uma mistura dessa substância, o que pode aumentar substancialmente o risco”, disse Donley.
Todas as decisões sobre agrotóxocos passam pelos quatro cargos mais altos do escritório de segurança química e prevenção da poluição da EPA, disse Donley. Kyle Kunkler, ex-lobista da Associação Americana de Soja, pró-agrotóxicos, dirige o escritório de agrotóxicos da EPA. Ele trabalha sob a supervisão de dois ex-lobistas do Conselho Americano de Química, uma associação comercial do setor. Eles são supervisionados por um quarto lobista do setor, Douglas Troutman, que foi recentemente confirmado para liderar o escritório de produtos químicos após o apoio do Conselho Americano de Química.
Ryerson afirmou que a liderança da EPA estava “desconectada” do que a maioria dos republicanos deseja, e ela ainda suspeitava que Trump não estava ciente do processo decisório diário da agência.
“Tenho receio de que ele só esteja ouvindo a opinião do lobby dos agrotóxicos”, disse Ryerson. “Acho que se isso fosse apresentado a ele, ele diria: ‘Por que permitiriam algo que afeta os testículos dos americanos?’” (nt.: será que Trump realmente tem algum interesse nesse assunto? Ou será ingenuidade de quem tem essa ideia?).
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, janeiro de 2026