Agrotóxicos: Estudo revela que pesticidas encontrados em 70% dos solos europeus prejudicam a vida benéfica.

Colêmbolos que habitam o solo – minúsculos artrópodes semelhantes a insetos da classe Collembola – são vulneráveis ​​a pesticidas. Imagem de Alandmanson via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

https://news.mongabay.com/2026/02/pesticides-found-in-70-of-european-soils-harming-beneficial-life-study/

Liz Kimbrough

06 fev 2026

[Nota do Website: Excelente informação já que não temos praticamente nenhuma conexão com toda a biodiversidade, invisível para nossos olhos, da vida que sustenta a própria vida. É triste como a ideologia do ‘agribusiness’ estadunidense domina, hoje, globalmente, toda a ‘ex-agricultura’, com sua doutrina da ‘modernização da agricultura’, sob o greenwashing da ‘revolução verde’ e com o cinismo de que iria ‘acabar com a fome no mundo’!].

  • Um novo estudo encontrou resíduos de agrotóxicos em 70% das amostras de solo em 26 países europeus, tornando a contaminação o segundo fator mais importante na definição da biodiversidade do solo, depois das propriedades básicas do solo.
  • Os agrotóxicos prejudicaram gravemente organismos benéficos, como fungos micorrízicos e nematoides, que ajudam as plantas a absorver nutrientes, e interromperam funções críticas do solo, incluindo os ciclos de fósforo e nitrogênio.
  • A contaminação por agrotóxicos se estendeu além das terras agrícolas, atingindo florestas e pastagens onde eles não são aplicados, provavelmente devido à deriva da pulverização, com alguns produtos químicos persistindo no solo por anos.
  • Os pesquisadores afirmam que as regulamentações atuais são inadequadas porque testam os agrotóxicos apenas em algumas espécies individuais, em vez de examinar os efeitos em comunidades inteiras do solo e nas funções ecossistêmicas que elas desempenham.

Para os agricultores, às vezes a maneira mais fácil de salvar uma colheita ou evitar danos catastróficos causados ​​por insetos é pulverizar um agrotóxicos. Mas essa prática comum está causando estragos no solo, de acordo com uma nova pesquisa publicada recentemente na revista Nature .

O estudo analisou o solo de 26 países europeus e constatou que a contaminação é generalizada para além das terras agrícolas e prejudica substancialmente os organismos benéficos do solo, essenciais para ecossistemas saudáveis.

Pesquisadores encontraram resíduos em 70% das 373 amostras de solo coletadas em campos agrícolas, pastagens e florestas. A contaminação surgiu como o segundo fator mais importante na formação dos padrões de biodiversidade do solo, superada apenas por propriedades básicas do solo, como textura e pH.

“Essa contaminação tem um grande impacto em vários organismos benéficos do solo, como fungos micorrízicos e nematoides, prejudicando sua biodiversidade”, disse Marcel van der Heijden, professor do Departamento de Biologia Vegetal e Microbiana da Universidade de Zurique e um dos principais autores do estudo, em um comunicado.

Os fungos micorrízicos formam parcerias com as raízes das plantas e geralmente ajudam as plantas a obter minerais e água do solo. Imagem de Wilhelm Zimmerling PAR via Wikimedia Commons (CC-BY SA 4.0).
Os fungos micorrízicos formam parcerias com as raízes das plantas e geralmente ajudam as plantas a obter minerais e água do solo. Imagem de Wilhelm Zimmerling PAR via Wikimedia Commons ( CC BY-SA 4.0 ).

Os fungos micorrízicos, que formam parcerias com as raízes das plantas para ajudar as culturas a absorverem água e nutrientes, estiveram entre os organismos mais afetados pela exposição a agrotóxicos. O fungicida bixafen (nt.: autorizado no Brasil e tem em sua fórmula química tanto o elemento cloro como o flúor… não será esse também um forever chemical?), comumente usado para combater fungos nocivos em culturas de cereais, mostrou-se especialmente prejudicial a vários tipos de organismos do solo estudados.

Os efeitos nocivos dos agrotóxicos em aves, abelhas e outros insetos estão bem documentados. No entanto, os impactos sobre os microrganismos do solo ainda são pouco compreendidos, segundo os autores do estudo, que afirmam que sua pesquisa fornece a primeira evidência quantitativa abrangente dos impactos deles na vida do solo europeu.

Os pesquisadores examinaram como 63 agrotóxicos de uso comum afetaram arqueas, bactérias, fungos, protistas, nematoides e artrópodes do solo, revelando o que descreveram como impactos “complexos e generalizados” sobre os microrganismos do solo.

Os fungicidas (usados ​​para eliminar fungos) foram os compostos mais frequentemente detectados nas amostras de solo, representando 54% de todos os ingredientes ativos encontrados. Os herbicidas (direcionados a plantas) constituíram 35%, enquanto os inseticidas representaram 11%. O herbicida glifosato foi o ingrediente ativo mais comum detectado.

Embora os campos agrícolas apresentassem as maiores concentrações, os pesquisadores também descobriram contaminação em florestas e prados onde eles normalmente não são aplicados, o que, segundo eles, provavelmente se deve à deriva da pulverização de áreas tratadas próximas.

Os nematóides são organismos minúsculos, semelhantes a vermes, que desempenham um papel importante no ciclo de nutrientes do solo. Imagem de Vyzhdova V via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
Os nematóides são organismos minúsculos, semelhantes a vermes, que desempenham um papel importante no ciclo de nutrientes do solo. Imagem de Vyzhdova V. via Wikimedia Commons ( CC BY-SA 4.0 ).

Pesquisadores de 10 instituições participaram do estudo, incluindo o Centro Comum de Investigação da União Europeia, a Universidade de Vigo, na Espanha, e o instituto suíço de pesquisa agrícola Agroscope. Eles afirmam que os agrotóxicos alteraram fundamentalmente as comunidades do solo.

“Alguns organismos do solo, especialmente vários tipos de bactérias, se beneficiam do uso de agrotóxicos, provavelmente porque outros organismos são reduzidos”, disse Julia Königer, da Universidade de Vigo, primeira autora do estudo.

Além de alterar os organismos que vivem no solo, também interromperam funções críticas do solo. Ao examinar genes-chave envolvidos na ciclagem de nutrientes, os pesquisadores demonstraram que seus resíduos interferem na forma como o solo processa fósforo e nitrogênio.

“Isso sugere que a função natural do solo afetado está reduzida e que é necessária fertilização adicional para manter a produtividade”, disse van der Heijden.

A persistência de alguns deles agrava o problema. Como certos produtos químicos se decompõem lentamente, podem permanecer no solo por anos após a aplicação, causando impactos a longo prazo nos ecossistemas do solo.

“Nosso estudo mostra que os agrotóxicos representam um impacto ambiental humano muito significativo em nossos solos”, disse Maria JI Briones, da Universidade de Vigo, que co-liderou o estudo. “Muitas vezes, as pessoas nem sequer consideram a extensão dos efeitos dos pesticidas em organismos não-alvo.”

O uso de pesticidas na agricultura está causando grandes impactos nas comunidades microbianas do solo. Imagem de Winniepix via Flickr (CC BY 2.0).
Os pesquisadores descobriram que os impactos do uso de pesticidas no solo se estendem além das terras agrícolas. Imagem de Winniepix via Flickr ( CC BY 2.0 ).

A biodiversidade saudável do solo é fundamental para ecossistemas saudáveis. Os solos armazenam mais carbono do que a atmosfera e toda a vida vegetal e animal combinadas, tornando-os essenciais para a regulação do clima. Eles também contribuem para a produção de alimentos, controlam a erosão e regulam os recursos hídricos.

“Devido ao seu papel central no suporte a serviços ecossistêmicos essenciais, a importância da proteção da biodiversidade do solo, tanto em terras naturais quanto em terras produtivas, não pode ser subestimada”, disse Daniel Rath, cientista do solo do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (Natural Resources Defense Council), que não participou do estudo, ao Mongabay.

Os pesquisadores escrevem que as regulamentações atuais não são suficientemente rigorosas para proteger a biodiversidade. Eles afirmam que, atualmente, os órgãos reguladores os testam em apenas algumas espécies, como uma única espécie de minhoca, uma espécie de nematoide e uma espécie de colêmbolo, e medem parâmetros limitados, como as taxas de decomposição dos pesticidas em compostos menores.

Para melhor proteger a biodiversidade do solo, os autores do estudo afirmam que os órgãos reguladores devem examinar como eles afetam comunidades inteiras de organismos do solo e as funções críticas que eles desempenham, como a ciclagem de nutrientes e o armazenamento de carbono.

Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, fevereiro de 2026

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