Agricultura: Agronegócio – até Banco Mundial vê a crise

Print Friendly, PDF & Email
Colheita Soja

https://outraspalavras.net/terraeantropoceno/agronegocio-ate-banco-mundial-ve-a-crise/

Ricardo Abramovay

14/06/2024

[NOTA DO WEBSITE: Imagina-se! O Banco Mundial fazendo infelizmente não uma auto crítica, mas uma crítica a um dos ramos do qual foi um fortíssimo vetor e incrementador, o ‘agribusiness'. Nascido nos e que entre nós foi, subservientemente, traduzido em . E faz uma avaliação honesta do que sua cobertura ideológica, econômica e política, mesmo que não conste sua responsabilidade no texto abaixo, indo até o reconhecimento de que esse seu filhote que conspurcou a verdadeira como a cultura no campo que gera saúde e nutre os seres, como caso humanos, está, vejam só, adoecendo as pessoas. Só com essa constatação, o famigerado agronegócio que insistimos em denominar como ‘agronecrócio', já deveria ser imediatamente não só interrompido, mas banido da face da terra. E como mostra, sua permanência levará a humanidade a uma situação dramática e perigosa. A pergunta que se deveria fazer ao Banco Mundial é: muito bem, vocês constataram isso e agora como irão mudar essa sua visão de mundo que se espraiou por todo o Mundo?].

Modelo agroalimentar oferece calorias mas nega alimentos saudáveis e devasta meio ambiente, diz relatório. Adoece as pessoas e produz emissões que contribuem para a crise do clima. Na presidência do G20, Brasil tem condições inéditas para mudar este rumo.

O sistema que nos alimenta está também alimentando a crise climática global. A frase inicial do excelente relatório que o Banco Mundial acaba de lançar (Recipe for a Liveable Planet) reflete um avanço científico que marca cada vez mais a abordagem dos problemas contemporâneos pelas organizações multilaterais. Muito mais que estudar o setor agropecuário, a indústria de máquinas e insumos, a transformação industrial e o consumo, o trabalho do Banco Mundial faz uma apreciação valorativa, um julgamento de natureza ético-normativa sobre a maneira como a humanidade está usando os recursos materiais, energéticos e bióticos para preencher suas necessidades alimentares. Este é o sentido e a ambição embutida no uso da expressão “sistema agroalimentar”, ao longo do texto.

Logo em sua introdução o trabalho reconhece que o “sistema alimentar mundial teve sucesso em alimentar uma população crescente”, mas acrescenta, a seguir, que ele “não conseguiu promover objetivos ótimos no que se refere à nutrição e à saúde”. A atenção com a oferta de calorias e proteínas fez-se em detrimento da produção de alimentos saudáveis. As consequências sobre a saúde humana exprimem-se no fato de que, no século XXI, seis dos dez mais importantes determinantes de morte e doença estão ligados à alimentação. E na origem destes produtos estão práticas produtivas cujos custos ecossistêmicos (estimados em US$ 20 trilhões, no relatório), caso incorporados ao sistema de preços, superariam de longe o próprio valor da alimentação global. Em outras palavras, o mundo está destruindo serviços ecossistêmicos dos quais depende a própria vida para obter um conjunto de bens que, cada vez mais, são vetores das doenças que mais matam na atualidade.

O trabalho do Banco Mundial parte da diferença, no interior do sistema agroalimentar, entre países de renda alta, de renda média e os de renda baixa. Dos dez países com as maiores emissões agroalimentares, sete são de renda média (China, , Índia, Indonésia, Rússia, Paquistão e Argentina), dois de alta renda (EUA e Canadá) e um de baixa renda (Congo). A maior parte das emissões do sistema agroalimentar vem dos países de renda média (68% do total). Os países de alta renda respondem por 21% das emissões agroalimentares, mas são os maiores emissores per capita. E os de baixa renda contribuem com apenas 11% do total, mas são aqueles em que as emissões mais crescem.

Por volta de 82% das emissões dos países de baixa renda vêm do sistema agroalimentar. Metade deste total se origina na destruição florestal. Nos países de renda média o desmatamento entra com 17% das emissões agroalimentares. China e Índia quase não têm emissões vindas de desmatamento. As exceções, nos países de renda média, são Brasil e Indonésia que, ao início da terceira década do milênio tinham no desmatamento mais de 50% de suas emissões totais, padrão semelhante aos países de baixa renda. Na Indonésia, o desmatamento caiu drasticamente. No balanço entre a recente redução da devastação na , contrabalançada pelo aumento da destruição do , ainda não é possível saber se permanece este padrão em que o Brasil se tornou o único, entre os países de renda média, em que metade das emissões vem de desmatamento.

O desmatamento sozinho corresponde a 11% das emissões globais. 90% da terra anteriormente florestada converte-se em lavouras ou pastagens. Entre um quarto e um terço deste desmatamento liga-se a apenas sete atividades: gado, óleo de palma, , cacau, borracha, café e plantios madeireiros. Se o grande desafio do sistema agroalimentar fosse a produção crescente de calorias e proteínas, talvez este desmatamento fosse incontornável. Não sendo este o caso, o desmatamento zero é condição necessária e oportunidade inigualável para um sistema agroalimentar que reduza suas emissões e contribua para regenerar a . Segundo o Banco Mundial um terço das oportunidades para reduzir as emissões do setor agroalimentar concentra-se em proteção, manejo e regeneração florestal. E não há país com mais favoráveis condições para aproveitar esta oportunidade que o Brasil, segundo o Banco Mundial.

Mas o fim do desmatamento é apenas o ponto de partida para a redução das emissões agroalimentares. Uma das revelações mais importantes do relatório do Banco Mundial é o crescimento das emissões alimentares geradas fora da atividade especificamente agropecuária. Fertilizantes químicos, uso de combustíveis fósseis em máquinas agrícolas, mas também industrialização, transportes e usada para cozinhar dobraram suas emissões nos últimos trinta anos. O peso das emissões alimentares não agrícolas já supera globalmente o das emissões da agricultura. Quando o Brasil zerar o desmatamento este será um importante desafio, como já o é para a China. E é bom lembrar que parte crescente desta industrialização alimentar se converte em produtos ultraprocessados, vetores da pandemia global de .

Outro desafio fundamental está nas emissões vinculadas ao consumo de carne bovina e de leite, que representam um quarto das emissões do setor agroalimentar e recebem um terço dos subsídios agrícolas globais. Boa parte do mundo (inclusive nos países de renda média) tem um consumo de carne bovina que vai além do necessário à saúde humana.

A presidência brasileira do G20 colocou a luta contra as desigualdades e contra a fome (junto com o combate à crise climática e a reforma da governança global) como seus objetivos centrais. O trabalho do Banco Mundial mostra que atingir estas finalidades não supõe apenas ampliar a produção de alimentos. É no Brasil que o setor agroalimentar reúne as melhores condições para oferecer à sociedade produtos que beneficiem a saúde e contribuam para o fortalecimento dos serviços ecossistêmicos dos quais todos dependemos.

Gosta do nosso conteúdo?
Receba atualizações do site.
Também detestamos SPAM. Nunca compartilharemos ou venderemos seu email. É nosso acordo.