Agrotóxicos: As crianças da Europa herdarão a crise de saúde pública decorrente das novas aprovações de pesticidas na UE.

Fonte: Serviço Geológico dos EUA/Wikimedia

https://euobserver.com/240266/europes-children-will-inherit-public-health-crisis-from-new-eu-pesticide-approvals/

Faustine Bas-Defossez e Suzanne Astic

01 out 2026

[Nota do Website: Mais uma matéria que demonstra que mais que as indústrias agropetroquímicas seriam as responsáveis. Na verdade são os praticantes do agronegócio que não buscam soluções que são verdadeiras, eficientes e lucrativas. Temos em nosso website várias matérias que mostram isso. Não só para hortaliças, mas também para a malfadada soja, trágica ‘commoditiy’ que encanta o povo do agronegócio. A indústria só produz, mas quem viabiliza o envenenamento é quem compra e usa esses produtos].

A União Europeia já se orgulhou de liderar o mundo na proteção das crianças. Hoje, os legisladores, apoiados por grandes poluidores, estão traindo essa promessa em nome da “competitividade”. 

Em junho de 2026, Florence, Franck e Isabelle fizeram as malas e partiram para Bruxelas. Por quê? Porque todos os seus filhos sofreram danos graves devido aos agrotóxicos. 

Essas crianças suportaram dores físicas e procedimentos médicos complexos, incluindo repetidas sessões de quimioterapia. E suas famílias arcaram com os fardos financeiros e emocionais junto com elas.

Como Isabelle afirma: “Isso destrói uma família”. Sua própria filha luta contra a leucemia há sete anos.

E eles não estão sozinhos. Em 2024, quase uma em cada 20 crianças na UE foi exposta a níveis perigosos de agrotóxicos; isso representa 380 mil crianças. Agora, esses pais têm uma mensagem clara para os legisladores: priorizem a saúde pública e parem de desmantelar as regras que protegem as crianças contra substâncias nocivas. 

Em 2024, cerca de 316 mil toneladas de agrotóxicos tóxicos foram vendidas na UE para serem pulverizadas em nossas áreas rurais, colocando em risco não apenas a saúde dos agricultores, mas também poluindo o solo, o ar e a água.  

A Agência Europeia do Ambiente, em Copenhaga, reportou níveis ambientalmente inseguros de agrotóxicos em cerca de um quarto dos rios da Europa. Nas águas subterrâneas – que fornecem 65% da água que bebemos na Europa – foram detectados níveis inseguros em 11 a 18% dos corpos de água. 

No mesmo ano, o ácido trifluoroacético, “químico eterno/forever chemicals” nocivo que se forma quando os agrotóxicos ‘PFAS’ e os gases fluorados se decompõem, foi detectado em 94% das amostras de água potável testadas em 11 países da UE. 

Estamos rodeados pela poluição por agrotóxicos. Ela está presente até mesmo em nossas casas. 

Mas o que está acontecendo em Bruxelas?

Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia propôs um pacote legislativo que eliminaria proteções ambientais e de saúde fundamentais contra agrotóxicos na UE.

Entre outras alterações, a proposta – ironicamente denominada ” Lei Ômnibus de Segurança Alimentar e de Rações” – sugere a prorrogação indefinida das aprovações de agrotóxicos e o relaxamento das regras para permitir que eles já identificados como perigosos permaneçam no mercado da UE. 

Pense nisso, sem trocadilhos.

Essas propostas representam uma escolha política que prioriza os lucros de curto prazo das grandes empresas poluidoras em detrimento da vida das crianças, da saúde das pessoas e da natureza e dos ecossistemas de que precisamos para sobreviver.

A saúde humana está em risco, e as crianças correm um risco particular, pois absorvem substâncias com mais facilidade e têm menos capacidade de excretá-las. 

A exposição a agrotóxicos está associada ao desenvolvimento de câncer infantil, disfunções hormonais, comprometimento do neurodesenvolvimento (nt.: ou seja, retardo mental) e defeitos congênitos. Além disso, a exposição pré-natal e na primeira infância pode alterar o desenvolvimento de forma permanente, com consequências que podem ser irreversíveis e fatais.  

Nos termos da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, bem como do direito humano a um ambiente saudável declarado pela ONU , todos os países da UE devem comprometer-se a proteger as crianças dos danos ambientais e a garantir o mais elevado padrão de saúde possível.

Esses princípios devem orientar o trabalho das instituições da UE. 

No entanto, em vez de reforçar as proteções, a UE está a retroceder a um ritmo preocupante. Isto deve-se em grande parte ao intenso (e repetido ) lobbying de empresas multimilionárias, incluindo a indústria dos agrotóxicos. As gigantescas empresas químicas gastam agora 46 milhões de euros por ano apenas em atividades de lobbying junto da UE; um aumento de mais de 60% em relação a 2020. 

Faça com que faça sentido.

A incoerência da atual política da UE é preocupante. Por um lado, a Comissão Europeia celebra a sua nova Estratégia de Equidade Intergeracional – um quadro que visa garantir que as políticas atuais não prejudiquem as gerações futuras. Por outro lado, a mesma instituição procura ativamente flexibilizar os controlos sobre substâncias nocivas. 

Revogar regras que protegem as pessoas e o planeta só beneficia as grandes empresas poluidoras, indústrias que já lucram bilhões às custas da saúde infantil.

Além disso, uma avaliação independente concluiu que as medidas propostas pelas instituições da UE “não irão acelerar as inovações e as autorizações”. Em suma, estas propostas tornariam a Europa menos competitiva.

Organizações de defesa dos direitos da criança e da juventude alertaram que a desregulamentação expõe as crianças a riscos graves (e evitáveis) para a saúde. E a comunidade científica internacional enfatizou recentemente que avaliações robustas de risco ambiental não podem ser opcionais.

Em última análise, a Europa deve ampliar e acelerar o acesso a alternativas sem agrotóxicos. Deve também apoiar os agricultores nos seus esforços para abandonarem os agrotóxicos e adotarem um modelo mais sustentável e resiliente .

Então, o que pode ser feito? Primeiro, a UE deve acabar com o uso e a produção de agrotóxicos e apoiar os agricultores na transição para alternativas mais seguras. Segundo, é hora de os líderes responsabilizarem as grandes empresas poluidoras pelos danos que causam, em vez de transferir a conta para os contribuintes comuns e as famílias prejudicadas por essas substâncias tóxicas.

Os filhos de Florence, Franck e Isabelle estão entre as centenas de milhares de pessoas já afetadas por agrotóxicos. E mostram que suas vítimas não são apenas uma estatística.

O documento “Food and Feed Safety Omnibus” levanta questões fundamentais. Quem exatamente a política alimentar da UE pretende proteger? Quantas crianças mais precisam ser prejudicadas para que os políticos ajam? E que tipo de futuro as instituições da UE querem construir? 

As medidas de proteção contra agrotóxicos devem ser encaradas como obstáculos aos lucros a curto prazo, ou as crianças devem ter o direito de crescer em segurança? 

Os políticos devem rejeitar esta proposta abrangente e, em vez disso, trabalhar para apoiar a transição da UE para uma agricultura segura, sustentável e resiliente.

Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, outubro de 2026

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