
Foto de J. Scott Applewhite (Copyright AP Photo/J. Scott Applewhite)
29 jan 2026
[Nota do Website: Essa matéria nos mostra como a ideologia do ‘agronegócio/agribusiness’ tomou conta do mundo com sua doutrina de que ‘negócio é negócio’: tudo é ‘commodity/mercadoria’, nunca alimento. A chamada produção de alimentos deixou de existir para que os negócios estivessem acima de tudo e de todos. Mesmo se sabendo e se reconhecendo de que sendo venenos, os tidos como ‘insumos modernos’ e dentre eles os agrotóxicos, estão liberados, apesar de lesarem todos os seres vivos, entre eles, os próprios ‘produtores rurais’ e seus descendentes].
Uma nova pesquisa critica o procedimento de avaliação de risco da União Europeia, que avalia os agrotóxicos em silos em vez de se concentrar no impacto do efeito “coquetel” – a combinação de vários de seus resíduos presentes em frutas e vegetais.
Treze países europeus estão vendendo maçãs em mercados e supermercados com uma quantidade preocupante de resíduos de agrotóxicos, comumente conhecidos como “coquetéis de agrotóxicos”, de acordo com um relatório de uma ONG que insta a União Europeia a regulamentar a exposição a esses produtos químicos.
Bélgica, Croácia, República Checa, Dinamarca, França, Alemanha, Hungria, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Polónia, Espanha e Suíça reportaram contaminação em maçãs, de acordo com o último relatório da Rede de Ação contra Pesticidas (PAN) Europa, critica o procedimento de avaliação de risco da UE por analisar os agrotóxicos isoladamente e ignorar o efeito do “coquetel”.
“Um dos resultados mais impressionantes é que 85% das maçãs testadas continham resíduos de múltiplos agrotóxicos”, disse Gergely Simon, ativista da PAN Europe. “A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) foi incumbida há 20 anos de desenvolver uma metodologia para regulamentar os efeitos combinados deles, mas ainda não cumpre essa obrigação legal.”
O relatório destaca que, se essas maçãs fossem vendidas como alimento processado para bebês, 93% delas excederiam o limite legal da UE para níveis de agrotóxicos em crianças menores de 3 anos.
“Os pais jovens não têm consciência de que alimentar os filhos com frutas e vegetais frescos convencionais aumenta significativamente a exposição deles a agrotóxicos, às vezes mais de 600 vezes”, disse Simon. “As autoridades públicas deveriam informá-los e promover prioritariamente os alimentos orgânicos.”
O relatório condenatório surge num momento em que as regras da UE para lidar com “coquetéis de agrotóxicos” permanecem indefinidas, com vários grupos de campanha a instar a Comissão Europeia e a EFSA a acelerarem a avaliação do risco cumulativo dos agrotóxicos.
Embora a questão da avaliação dos efeitos combinados de múltiplos agrotóxicos tenha sido reconhecida pela primeira vez em 2005, foi apenas em 2020 que a EFSA realizou uma avaliação piloto dos efeitos combinados na tireoide e no sistema nervoso.
Desde 2021, a Comissão Europeia e a EFSA têm trabalhado para expandir as avaliações de risco cumulativo para mais grupos de agrotóxicos, com o objetivo de integrá-las totalmente na legislação até 2030.
Um porta-voz da EFSA disse à Euronews que o trabalho de avaliação do problema do “coquetel de agrotóxicos” é “complexo”, envolvendo grandes conjuntos de dados, novas ferramentas de software e ampla colaboração com parceiros da UE e internacionais.
“Estamos atualmente preparando orientações sobre como realizar a avaliação de risco cumulativo ‘prospectivo’ – antes da autorização do uso pretendido do agrotóxico – no contexto de pedidos de níveis máximos de resíduos”, disse o porta-voz.
Um exercício piloto com países da UE está previsto para o final de 2026, para permitir que especialistas nacionais testem a ferramenta e a metodologia que estão sendo desenvolvidas pela agência alimentar da UE, afirmou o porta-voz da EFSA.
Agrotóxicos e “químicos eternos”
O estudo científico da PAN Europe foi realizado entre 1 e 20 de setembro de 2025, período durante o qual os pesquisadores selecionaram de três a cinco amostras de diferentes maçãs convencionais produzidas localmente em supermercados ou mercados, totalizando 59 amostras de maçãs cultivadas em todo o país, de acordo com o relatório.
Os resultados revelaram que 71% das amostras de maçã continham pelo menos um resíduo da categoria de agrotóxicos mais tóxicos da UE, 64% continham pelo menos um resíduo de agrotóxicos PFAS, também conhecidos como “químicos eternos/forever chemicals“, e 36% continham um agrotóxico neurotóxico.
O fludioxonil (nt.: fungicida autorizado no Brasil para sementes e para frutas pós-colheita!!! Daí, provavelmente, na Europa, as maças estarem contaminadas com esse químico eterno!!), um agrotóxico PFAS, foi encontrado em quase 40% das amostras (nt.: destaque dado pela tradução para mostrar o volume de maçãs contaminadas), de acordo com o relatório, que observou que o produto químico perigoso foi classificado como disruptor endócrino (nt.: destaque dado pela tradução para mostrar que esse veneno altera o sistema endócrino de todos os seres vivos e pode feminizar os fetos machos) na UE em 2024.
“Deveria ter sido proibido, mas os Estados-membros da UE têm bloqueado a sua entrada há um ano. É tóxico para o fígado e os rins dos seres humanos e dizima peixes e anfíbios em ambientes aquáticos”, afirmou a PAN Europe em comunicado de lançamento do relatório.
Em dezembro de 2025, a Comissão propôs alterações que enfraqueceriam a regulamentação de agrotóxicos, permitindo que as aprovações durassem indefinidamente e eliminando a exigência de sua reavaliação de toxicidade, com base em novas evidências científicas a cada 10 a 15 anos.
A proposta também permitiria que os países da UE ignorassem as descobertas científicas mais recentes ao avaliar os riscos dos agrotóxicos (nt.: para nosso website isso é criminoso! Imagina-se que isso é na Europa! Daí a alteração da legislação brasileira de hoje quando trata os agrotóxicos de maneira totalmente leviana).
“Há cada vez mais evidências científicas de que a exposição a agrotóxicos através dos alimentos está relacionada à infertilidade e, possivelmente, ao câncer”, disse Simon. “A exposição constante dos cidadãos a misturas de substâncias tóxicas através dos alimentos, do ar ou da poeira não é levada em consideração; essa importante questão precisa ser abordada pelos órgãos reguladores.”
A Euronews solicitou um posicionamento da Comissão Europeia, mas não recebeu resposta até a publicação da notícia.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, janeiro de 2026