Agrotóxicos: Viram arma química contra camponeses no Maranhão

Frasco de veneno produzido pela empresa alemã BASF e utilizado na agricultura de monocultura nas regiões da Amazônia e do Cerrado brasileiros (© Rogério Albuquerque/Arquivos RAMA)

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Salve a Floresta

05 jan 2026

[Nota da Website: Quando viemos afirmando como o agronegócio favorece uma posição assassina, mais um fato comprova tragicamente, essa realidade. O que nos deixa indignados é a ausência completa de todos os organismos públicos que deveriam proteger a sociedade. Mas não é isso que se contata. Passam assim a ser coniventes e parceiros desses criminosos].

Brasil: Com aviões e drones, agentes privados do agronegócio pulverizam veneno sobre suas lavouras de soja e milho sem respeitar qualquer limite de segurança. Há relatos de pulverização direta sobre rios e igarapés, sobre os plantios de pequenos agricultores, sobre suas casas e seus corpos. O objetivo dos ataques com veneno é expulsar os agricultores e tomar suas terras.

Em um calor de quase 40 graus de uma tarde de novembro de 2025, o trabalhador rural Francisco da Silva usava luvas de algodão. Faz muito calor em Timbiras, município no leste do Maranhão, onde ele vive. As altas temperaturas são comuns naquela região do Cerrado maranhense, e Francisco estava acostumado com isso. Mas desde que foi atingido por uma chuva de agrotóxicos, em abril de 2023, o calor hoje faz com que seu corpo ­­– principalmente as mãos ­– fique em carne viva. Por isso Francisco precisa das luvas de algodão, para se proteger do sol que ativa o efeito contínuo do veneno em seu organismo.

Mais de dois anos após ser atingido pelo veneno despejado com avião por um produtor milho vizinho ao seu território, Francisco nunca mais conseguiu trabalhar em seus plantios de alimentos. As mãos sem pele, cheias de feridas dolorosas, impedem que ele maneje enxada, pá, facão e outras ferramentas que sempre usou em seu ofício de agricultor. Francisco tentou se aposentar por invalidez pelo sistema previdenciário brasileiro, mas não conseguiu mais que uma ajuda provisória de meio salário mínimo por mês, cerca de R$ 750,00.

A história de Francisco não é isolada em sua comunidade, e nem no Maranhão, estado com o maior número de conflitos por terra no Brasil, segundo dados de 2024 da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Nesse contexto de disputa, em que muitos fazendeiros do agronegócio exportador tentam se apropriar ilegalmente das terras ocupadas há centenas de anos por povos e comunidades tradicionais, os agrotóxicos passaram a ser utilizados como armas químicas para expulsar os camponeses de seus territórios.

Com aviões e drones, agentes privados do agronegócio pulverizam veneno sobre suas lavouras de soja e milho sem respeitar qualquer limite de segurança. Há relatos de pulverização direta sobre rios e igarapés, sobre os plantios de pequenos agricultores, sobre suas casas e seus corpos. Ninguém escapa do veneno. Plantações inteiras são devastadas. Meses de cultivo de mandioca, abóbora, maxixe, pepino e hortaliças são destruídos em questão de minutos. Palmeiras de coco babaçu, que servem de sustento a milhares de famílias camponesas, também são atingidas pelo veneno e morrem. Nos corpos de homens, mulheres, crianças e idosos ficam as sequelas da intoxicação: dores de cabeça crônica, náuseas, vômitos, alergias, feridas que não saram nunca. 

Em 2021, a comunidade de Araçá, no município de Buriti, no Maranhão, foi literalmente banhada em veneno por três dias consecutivos. Uma criança de sete anos ficou gravemente intoxicada e teve o corpo queimado pelo agrotóxico. A violência foi cometida por sojicultores da família Introvini, conhecida no Maranhão pelas violências que cometem contra povos e comunidades tradicionais.

No quilombo Cocalinho, município maranhense de Parnarama, uma análise feita nas águas da comunidade entre 2021 e 2022 pela Campanha Nacional em Defesa do Cerrado e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) detectou a presença de nove tipos de agrotóxicos.

Em Timbiras há uma lei de 2024 que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos. Mas como a prefeitura e seus órgãos ambientais não fiscalizam, é como se a lei não existisse. As comunidades seguem sendo atacadas, inclusive à noite, por meio da pulverização com drones, como aconteceu em outubro de 2025 na comunidade Santa Vitória. 

Segundo dados da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão (Fetaema) e do Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da Universidade Federal do Maranhão (LEPENG/UFMA), até junho de 2025, 329 comunidades em 48 municípios do Maranhão foram atacadas com agrotóxicos. Estes números mostram um aumento das agressões em comparação com 2024, quando 231 comunidades em 35 municípios do Maranhão foram atingidas por veneno.

Maior consumidor de veneno do mundo

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, com mais de 755 mil toneladas de veneno utilizadas em 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), órgão do governo federal. Entre 2010 e 2024, foram registrados no país mais de 5200 tipos de agrotóxicos. Em novembro de 2025, enquanto acontecia o maior evento mundial sobre mudanças climáticas no mundo, a COP30, realizada em Belém, no Pará, na Amazônia brasileira, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) registrou mais 30 agrotóxicos no país.

Entre os ingredientes ativos mais utilizados no Maranhão entre 2009 e 2023 estão o glifosato, o 2,4-D, o mancozebe, a atrazina e o acefato, segundo dados do Relatório de Comercialização de Agrotóxicos/Brasil, 2025, divulgado pelo Ibama. O glifosato é considerado extremamente tóxico e provavelmente cancerígeno; já a atrazina (nt.: em materiais que já publicamos há alguns anos, esse herbicida é comprovadamente um disruptor endócrino) é proibida na Alemanha desde 1991 e desde 2004 na União Europeia.

Salve a Floresta tem olhado com especial atenção para o tema dos agrotóxicos no Brasil, especialmente pela relação direta que o assunto tem com o consumo europeu de commodities como soja e milho produzidas no Brasil, e que recebem grande parte do veneno pulverizado. Além disso, muitos desses agrotóxicos são produzidos por empresas europeias, como as alemãs Bayer-Monsanto e BASF e a suíça Syngenta.

Por isso, em 2024, juntamente com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Maranhão, de quem Salve a Floresta é aliada, fizemos uma petição para que o governo brasileiro proíba a pulverização aérea de agrotóxicos em todo o país. Hoje, apenas o Ceará, um dos 26 estados do Brasil, tem uma lei proibindo esta prática. A petição está com pouco mais de 74.500 assinaturas, e segue aberta a adesões. Acesse o site para saber mais e assinar

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