
Imagem: ©Revista Anthropocene
28 nov 2025
[Nota do Website: Matéria que nos mostra como a ciência, com seus inquestionáveis talentos de criatividade, pode sim sair da tragédia, apresentada como inexorável, da dependência, no mundo moderno como está, e da escravidão às resinas plásticas sintéticas. Aqui demonstra como os laboratórios podem buscar alternativas em meios naturais. Claro que aqui não se está discutindo a ideologia do descartável e da visão de ciclo único para aquilo que é industrializado. Mas, mesmo que não esteja, é uma situação comportamental que não pode ser esquecida nem negligenciada].
A invenção do bioplástico de última geração superou a capacidade de algumas embalagens plásticas convencionais em repelir água e oxigênio.
Um novo filme que pode ser feito a partir de resíduos alimentares amplamente disponíveis é tão eficaz quanto os plásticos convencionais na proteção dos alimentos contra umidade e oxigênio, afirmam seus inventores.
O novo material foi produzido combinando celulose da polpa de madeira e quitina de cascas de crustáceos ou cogumelos, e baseia-se em pesquisas anteriores da equipe para desenvolver uma alternativa ao plástico derivado do petróleo que possa prolongar a vida útil de produtos frescos.
Em seus dez anos de trabalho até o momento, eles fizeram progressos, desenvolvendo materiais que se tornaram sucessivamente mais resistentes e menos permeáveis. No entanto, eles têm lutado para superar um obstáculo significativo: à medida que a umidade aumenta, o material que inventaram torna-se mais permeável tanto ao oxigênio quanto à água, ameaçando o conteúdo em seu interior.
Desta vez, eles tentaram uma abordagem diferente, adicionando, em primeiro lugar, um novo ingrediente, o ácido cítrico, à mistura, e combinando os três ingredientes usando um método chamado “reticulação”, que une os elementos firmemente para formar uma rede densa. “A reticulação demonstrou ser eficaz no controle da sensibilidade à umidade de biopolímeros em alta umidade, geralmente reduzindo o inchaço na presença de vapor de água”, explicam em sua pesquisa.
O resultado dessa matriz de celulose-quitina-ácido cítrico de três partes foi uma fina folha de plástico, adequada para cobrir alimentos. Em seguida, eles precisavam testar a resistência desse material semelhante a um filme, expondo-o a diferentes níveis de umidade e calor.
O mais surpreendente é que seus experimentos mostraram que, em níveis de umidade de 80% — típicos de alguns países tropicais —, o filme de base biológica era ainda menos permeável ao oxigênio do que algumas embalagens plásticas convencionais, como o EVOH (álcool etileno-vinílico), comumente usado para embalar produtos frescos.
De forma impressionante, em comparação com o tereftalato de polietileno (PET), um dos plásticos mais utilizados em embalagens de alimentos, a permeabilidade ao vapor de água no plástico de base biológica foi apenas ligeiramente superior. E, quando comparado com outros produtos bioplásticos, como o ácido polilático e o acetato de celulose, o novo material mostrou-se pelo menos duas ordens de magnitude mais resistente ao oxigênio, afirmam os pesquisadores.
Tudo isso sugere um potencial concorrente sério para as embalagens plásticas convencionais — e, se depender de fluxos de resíduos alimentares, esse novo material também poderá ajudar a enfrentar esse crescente problema global.
O que não fica tão claro no estudo é até que ponto ele seria eficaz para resolver o problema da poluição plástica, visto que o artigo não explora a rapidez com que esse material se biodegrada, nem se isso pode acontecer naturalmente ou se exigiria processos de compostagem industrial que demandam mais recursos.
Os pesquisadores sugerem que isso resolve o problema, afirmando: “Estamos usando materiais que já são abundantes na natureza e se degradam nela para produzir embalagens que não poluem o meio ambiente por centenas ou até milhares de anos.”
Se isso for verdade, então, juntamente com os esforços para reduzir a dependência de embalagens descartáveis desnecessárias, a invenção deles poderá ajudar a mudar o cenário do lixo plástico.
Meredith et. al. “Transforming Renewable Carbohydrate-Based Polymers into Oxygen and Moisture Barriers at Elevated Humidity.” ACS Applied Polymer Materials. 2025.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, dezembro de 2025