
A maioria dos alimentos que consumimos está envolta em plástico, expondo-nos a substâncias químicas de alto risco, como PFAS e ftalatos. ALEAIMAGE/iStockphoto/Getty Images
https://edition.cnn.com/2026/09/30/health/hazardous-household-plastics-wellness
Sandee LaMotte
30 set 2026
[Nota do Website: Matéria que nos mostra a brutalidade e a crueldade desta visão de mundo capitalista e antropocêntrica que domina a ideologia do supremacismo branco eurocêntrico. Estamos totalmente inebriados por este ‘progresso’ que nos introjetam ‘goela abaixo’ e, acorrentados pela inércia, irresponsabilidade e inconsequência, não fazemos absoluta nada em defesa de nossos descendentes e da Vida em geral].
Quase 93% dos produtos químicos plásticos conhecidos, usados para embalar alimentos e fabricar roupas, brinquedos e outros produtos domésticos e de higiene pessoal comuns, representam um alto risco para a saúde humana, de acordo com uma nova investigação fornecida com exclusividade à CNN.
Os potenciais danos à saúde incluem câncer, alterações genéticas e toxicidade endócrina, reprodutiva e orgânica, afirmou Naima Fenderl, autora principal de “Plásticos Venenosos: Como os Produtos Químicos nos Plásticos do Dia a Dia Estão Prejudicando Sua Saúde”, lançado no dia 23 setembro último.
“Analisamos os efeitos que esses produtos químicos presentes no plástico podem causar ao organismo, juntamente com os níveis de exposição, para calcular o risco geral à saúde”, disse Fenderl, pesquisador da Environmental Justice Foundation (EJF), uma organização ambiental sem fins lucrativos com sede em Londres, responsável pela elaboração do relatório.
O relatório analisou a exposição a cinco categorias de plásticos que as pessoas usam quase todos os dias:
- Quase 92% dos produtos químicos encontrados em plásticos que entram em contato com alimentos representam alto risco para a saúde humana.
- Quase 89% dos brinquedos infantis continham plásticos de alto risco.
- Cerca de 93% dos têxteis e roupas foram fabricados com produtos químicos perigosos.
- Mais de 92% dos produtos domésticos comuns — como água engarrafada, utensílios de cozinha, talheres, ferramentas de jardinagem, artigos de higiene pessoal e material de escritório — continham substâncias químicas de alto risco.
- Quase 93% dos plásticos de higiene e médicos também continham substâncias químicas perigosas. Esses produtos incluem fio dental, absorventes internos e outros produtos menstruais, embalagens de comprimidos, adesivos transdérmicos e seringas, entre outros (nt.: só para se ter uma ideia, os comprimidos são feitos não de algas, mas de plásticos com ftalatos; da mesma forma todos os instrumentos de UTI, até infantis, são de PVC com ftalatos; e assim vai…).
“O relatório faz um trabalho brilhante ao apresentar informações sobre os plásticos do dia a dia de uma forma muito acessível”, disse o pediatra Dr. Philip Landrigan, diretor do Observatório Global de Saúde Planetária e do Programa de Saúde Pública Global e Bem Comum do Boston College.
“De repente, as pessoas começam a perceber como esses plásticos estão se infiltrando em suas vidas de maneiras que elas nem imaginavam”, disse Landrigan, que não participou da elaboração do relatório.
Não há dados suficientes para avaliar os danos potenciais.
No entanto, o que a ciência desconhece sobre os produtos químicos presentes nos plásticos de uso diário é igualmente preocupante, segundo o relatório. Quase 80% dos 3.552 produtos químicos presentes nos plásticos que as pessoas usam com frequência não possuem dados suficientes para determinar sua toxicidade ou os riscos de exposição (nt.: sempre lembrando de que estas moléculas são disruptoras endócrinas, ou seja, a dose é infinitesimal e não no conceito convencional da toxicidade estar relacionada à dose).
“Simplesmente não temos ideia do mal que esses produtos químicos podem estar causando a nós e aos nossos filhos”, disse Landrigan. “Nem sequer sabemos os nomes ou a composição de muitos dos produtos químicos presentes em produtos de consumo — presume-se que a indústria química tenha essas informações, mas elas não são disponibilizadas ao público.”
“Somos como o bêbado e o poste de luz, sabe? Estamos procurando as chaves debaixo do poste porque é lá que está a luz, e não fazemos a mínima ideia do que existe lá fora no resto do mundo.”
O American Chemistry Council, uma associação comercial do setor que representa empresas de fabricação de produtos químicos, disse à CNN por e-mail que o relatório da EJF deve ser visto com “considerável cautela”, pois omite fontes de dados importantes, como o banco de dados de aditivos plásticos do Conselho Internacional de Associações Químicas (ICCA), que é de acesso público .
O relatório também deixa de levar em consideração os bancos de dados regulatórios dos Estados Unidos e da União Europeia, afirmou Kimberly Wise White, vice-presidente de assuntos regulatórios e científicos do American Chemistry Council (nt.: o impressionante é que esta vice-presidente é uma mulher! Será que é mãe?).
“A abordagem seletiva do relatório induz ao erro e caracteriza de forma duvidosa os produtos químicos como não regulamentados, ao excluir importantes marcos regulatórios da análise”, disse White. “Sem eles, este relatório serve mais para gerar manchetes do que para promover o avanço da ciência.”
O plástico está por toda parte.
O plástico está presente em praticamente todos os aspectos de nossas vidas. Mais de 80% dos produtos vendidos em supermercados nos EUA vêm embalados em plásticos descartáveis. Cerca de 60% das roupas são feitas de tecidos sintéticos à base de plástico, enquanto estima-se que 90% dos brinquedos que as crianças levam à boca e com os quais brincam sejam feitos de plástico — muitos dos quais contêm substâncias químicas nocivas à saúde.
Se considerarmos os milhares de itens domésticos comuns feitos de plástico — panelas, frigideiras, utensílios de cozinha, recipientes para armazenar alimentos e até mesmo móveis — bem como a miríade de substâncias químicas presentes no plástico em produtos de higiene pessoal e médicos, a exposição potencial é impressionante.
Em 2024, um grupo internacional de cientistas criou o PlastChem, um banco de dados abrangente e de última geração com todos os produtos químicos conhecidos presentes em plásticos. Dos 16.000 produtos químicos que os pesquisadores conseguiram identificar, 4.200 foram considerados “altamente perigosos” para a saúde humana e o meio ambiente. Outros mais de 10.000 não tinham dados disponíveis.
A Environmental Justice Foundation utilizou o banco de dados PlastChem para sua análise, reformulando as informações em um “contexto relevante para políticas públicas e do mundo real”, afirmou Jane Muncke, coautora do PlastChem, diretora-geral e diretora científica do Food Packaging Forum, uma fundação de pesquisa científica sem fins lucrativos com sede em Zurique, Suíça, em um e-mail. Ela não participou da elaboração do novo relatório.
A PlastChem agrupa substâncias químicas em 15 grupos prioritários que podem ser alvo de regulamentação. Esses grupos incluem bisfenóis como o BPA, que em altas concentrações estão associados à morte prematura; ftalatos, que estão ligados a milhares de mortes por doenças cardíacas em todo o mundo; e os “químicos eternos/forever chemicals” chamados PFAS, ou substâncias per e polifluoroalquilada , que pesquisas associaram a bilhões de dólares em custos de saúde somente nos Estados Unidos.
Muitos dos produtos químicos presentes no plástico também são disruptores endócrinos, interferindo nos hormônios do corpo e contribuindo para a obesidade, baixo peso ao nascer, diabetes gestacional, defeitos congênitos e distúrbios do neurodesenvolvimento, afirmou Martin Wagner, líder do projeto PlastChem e professor de biologia na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia em Trondheim.
“Os produtos químicos preocupantes que identificamos também são persistentes, ou seja, não se degradam facilmente no meio ambiente; bioacumulativos, o que significa que se acumulam no corpo ao longo do tempo; e móveis, o que significa que se espalham facilmente na água potável ou no ambiente aquático”, disse Wagner anteriormente à CNN.
No entanto, mais de 50% dos produtos químicos de alto risco conhecidos não são regulamentados por jurisdições importantes, como a União Europeia ou qualquer um dos vários tratados ambientais internacionais que visam produtos químicos essenciais, incluindo a Convenção de Basileia, a Convenção de Minamata, o Protocolo de Montreal, a Convenção de Roterdã e a Convenção de Estocolmo, disse Fenderl.
“Os Estados Unidos não ratificaram vários desses acordos internacionais que outros países ratificaram, incluindo as convenções de Basileia, Roterdã e Estocolmo”, disse ela. “Isso, na verdade, torna os consumidores americanos particularmente vulneráveis a esses riscos à saúde.”
Segundo o relatório, trata-se de um problema enorme que vem se agravando há décadas. Em 1950, os fabricantes produziam cerca de 2 milhões de toneladas métricas de plástico por ano; hoje, são produzidas mais de 430 milhões de toneladas métricas anualmente. Os cientistas projetam que a produção de plástico mais que dobrará até 2050, juntamente com 2 bilhões de toneladas métricas de aditivos químicos para plástico.
Globalmente, “atualmente, existem 325.000 substâncias químicas sintéticas nas mãos da indústria química”, disse Landrigan. “Nem todas estão no mercado, mas esse é o número total de substâncias inventadas e produzidas desde que a fabricação de produtos químicos decolou após a Segunda Guerra Mundial. No máximo, sendo generosos, temos informações toxicológicas sobre talvez 20% delas.”
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, setembro de 2026