
O estudo descobriu que uma amostra de morangos continha 10 agrotóxicos “permanentes” diferentes. Universal ImagesGroup/Getty Images
https://edition.cnn.com/2026/03/11/health/PFAS-pesticides-california-produce-wellness
12 mar 2026
[Nota do Website: Para a maioria das pessoas é totalmente desconhecido que também temos, mesmo no Brasil do ‘grande’ agronegócio, aqueles que são ‘forever chemicals/químicos eternos’. Ou seja, contaminam de forma definitiva não só os produtos que plantam, mas todo o ambiente agrícola. Sem contar todo o povo, inclusive os ‘meritocratas’ que vivem nesses ambientes. Então quando tratamos todos eles que usam venenos como esses, de criminosos, deveríamos ampliar sua qualificação para considerá-los também uns estúpidos!].
Quase 40% das frutas e verduras não orgânicas cultivadas na Califórnia contêm traços de agrotóxicos que também são PFAS, ou ” químicos eternos”, de acordo com uma nova investigação.
A Califórnia fornece quase metade dos vegetais e mais de três quartos das frutas e nozes consumidas nos Estados Unidos.
As substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas, ou PFAS, são chamadas de “químicos eternos” porque suas fortes ligações moleculares de carbono com flúor podem levar anos, décadas ou até séculos para se decompor completamente no meio ambiente. Estima-se que existam quase 15.000 tipos de substâncias químicas fluoradas, ou PFAS, atualmente.
“O agrotóxico PFAS é o ingrediente ativo nesses produtos porque é eficaz para matar organismos – e é exatamente por isso que ele é tão preocupante para a saúde pública e o meio ambiente em geral”, disse Bernadette Del Chiaro, vice-presidente sênior de operações na Califórnia do Environmental Working Group (EWG), uma organização de defesa da saúde que produziu o relatório publicado na quarta-feira.
“Infelizmente, não há como conter o dano”, disse Del Chiaro. “Não podemos simplesmente prejudicar os esporos de mofo ou os insetos em um pêssego sem potencialmente prejudicar a criança que o come. O fato de estarmos pulverizando intencionalmente produtos químicos permanentes nos produtos que compramos no supermercado é realmente alarmante.”
Fabricados desde a década de 1940 para tornar os produtos antiaderentes, resistentes a manchas e repelentes à água, os PFAS tradicionais têm sido associados a câncer, obesidade, doenças da tireoide, colesterol alto, diminuição da fertilidade, danos ao fígado, disfunções hormonais e danos ao sistema imunológico, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). Vários desses produtos químicos podem causar danos em concentrações de um bilionésimo de grama (nt.: sempre lembrar que sendo um disruptor endócrino, ou seja, que imita hormônios, sua dose é em níveis infinitesimais para causar danos, já que agem nos mesmos níveis de hormônios naturais).
Os agrotóxicos PFAS mais recentes também apresentam impactos preocupantes nas células humanas e nos sistemas reprodutivo e nervoso de animais, embora os níveis de exposição sejam difíceis de determinar. Por exemplo, o fludioxonil, adicionado aos produtos agrícolas após a colheita para evitar o crescimento de mofo e bolor, demonstrou matar células humanas e danificar o DNA em testes de laboratório.
“Como não haverá chuva para lavar esse agrotóxico PFAS, isso começa a ser um pouco preocupante”, disse Nathan Donley, diretor de ciências da saúde ambiental do Centro para a Diversidade Biológica, uma organização sem fins lucrativos de defesa dedicada à preservação de espécies ameaçadas de extinção, com sede em Tucson, Arizona.
“Esses são os alimentos que realmente nos nutrem e que damos aos nossos filhos, então este é o último lugar onde você gostaria de ver esse tipo de contaminação”, disse Donley, que não participou da análise do EWG. “E acho que a maioria das pessoas não faz ideia de que isso está acontecendo.”
O relatório do EWG constatou os níveis mais elevados de fludioxonil em limões, acima de 1 parte por milhão, seguidos por pêssegos, nectarinas, peras, ameixas, mirtilos e damascos. Além disso, o fludioxonil foi encontrado em 90% das amostras testadas de nectarinas, pêssegos e ameixas.
“A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos também considera o fludioxonil uma substância química disruptora endócrina que prejudicou o sistema reprodutivo de animais”, disse Varun Subramaniam, analista científico do EWG e coautor do relatório.
Em resposta, a EPA disse à CNN por e-mail que “a EPA avalia todos os agrotóxicos, novos e existentes, com base em padrões científicos rigorosos para garantir que os produtos no mercado mantenham os americanos e nosso abastecimento de alimentos seguros e saudáveis, sem riscos excessivos de danos. Fungicidas como o fludioxonil mantêm o abastecimento de alimentos dos Estados Unidos seguro, abundante e acessível.”
Apesar das preocupações com a saúde e o meio ambiente, o uso deles, os PFAS ,nos Estados Unidos tem crescido nas últimas décadas, disse Donley.
“A nova geração de agrotóxicos são os da família dos PFAS, e isso é realmente assustador”, disse ele. “Num momento em que a maioria das indústrias está abandonando os PFAS, a indústria de agrotóxicos está redobrando a aposta. Definitivamente, estamos indo na direção errada.”
A CropLife America, que representa a indústria de agrotóxicos, disse à CNN por e-mail que alguns são “fluorados propositalmente” para obter maior durabilidade, resistência ao calor e à água, melhor aderência às superfícies das folhas e maior proteção contra pragas.
“Todos eles, independentemente da composição química, estão sujeitos à mesma revisão científica rigorosa e aos mesmos requisitos de dados previstos na Lei Federal de Inseticidas, Fungicidas e Rodenticidas, na Lei Federal de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos e nos regulamentos e políticas de implementação da EPA”, diz o comunicado.
Combinações de substâncias químicas PFAS
Utilizando dados de testes de 2023 coletados pelo Departamento de Regulamentação de Pesticidas da Califórnia, a análise do EWG encontrou 17 deles, de PFAS diferentes, em 40 dos 78 tipos de frutas e vegetais não orgânicos. Ao todo, 37% das 930 amostras continham substâncias químicas preocupantes, segundo o relatório.
A bifentrina (nt.: não é PFAS, mas sim um piretroide), que ataca o sistema nervoso dos insetos e é considerada um possível carcinógeno para humanos, foi encontrada em morangos, mirtilos, amoras, couve, aipo, acelga chinesa e vagem, de acordo com o relatório. O pentiopirade (nt.: não é PFAS, mas carboxamida), que interrompe a respiração dos fungos e é tóxico para a vida aquática, foi encontrado em morangos, pêssegos, ameixas, vagem, aipo, cenouras e pimentões. A lambda-cialotrina (nt.: não é PFAS, mas piretroide), que mata os insetos de fome e é letal para as abelhas, foi encontrada em cerejas, nectarinas, pêssegos, ameixas, alface e brócolis.
De acordo com os testes, era comum encontrar múltiplos produtos químicos persistentes em cada tipo de fruta ou verdura. Os morangos, por exemplo, estavam contaminados com 10 PFAS diferentes. As cerejas e os pêssegos continham sete substâncias químicas diferentes; as uvas, o aipo e a couve, seis; e o espinafre, cinco.
“O que sabemos sobre os PFAS é que o todo costuma ser maior que a soma das partes”, disse Subramaniam. “A exposição a um coquetel de agrotóxicos costuma ser muito mais perigosa do que a exposição a cada um deles individualmente, nas mesmas quantidades.”
A Agência Ambiental dos EUA avalia os agrotóxicos comparando os benefícios potenciais de produzir mais colheitas com os possíveis danos à saúde, muitas vezes concluindo que os níveis de exposição humana a eles são bastante baixos, disse Donley.
“No entanto, a EPA não está investigando o que acontece quando um ser humano é exposto a 10 deles em sua dieta por 20 anos seguidos”, disse ele. “Essa é uma grande incógnita, porque ninguém sabe, nem mesmo a EPA, já que essas misturas complexas nunca foram testadas antes.”
Adicionar mais pesticidas PFAS, não menos.
Até o momento, o governo Trump aprovou dois PFAS para uso em alface, laranjas, tomates, amêndoas, ervilhas e aveia, e está considerando aprovar um terceiro PFAS para combater ervas daninhas em plantações de milho, soja e trigo. No final de fevereiro, a EPA também anunciou que está considerando uma isenção emergencial, sem revisão de segurança, para o uso de um PFAS no arroz.
Uma das razões para isso é que a EPA não considera os novos com um único átomo de carbono fluorado como PFAS ou “químicos eternos”, embora sejam definidos dessa forma pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico — da qual os Estados Unidos são membro fundador.
A definição da OCDE foi endossada por mais de 150 dos principais pesquisadores de PFAS, é utilizada pela União Europeia e por quase metade dos estados dos EUA, e foi especificamente incluída em versões anteriores da Lei de Autorização de Defesa Nacional.
“A OCDE não é um órgão regulador e não tem qualquer jurisdição sobre este assunto”, disse um porta-voz da EPA à CNN. Além disso, a rejeição, pela EPA, de um único composto de carbono fluorado como PFAS “está fundamentada em uma revisão científica de alto padrão e apoia as obrigações legais da agência de proteger a saúde humana e o meio ambiente”.
Muitos dos produtos químicos que não se enquadram na definição de PFAS da EPA são “incrivelmente persistentes”, disse Donley. “O tetrafluoreto de carbono, por exemplo, tem uma meia-vida atmosférica de 50.000 anos, e acredita-se que o TFA tenha uma meia-vida aquosa de várias centenas de anos.”
O ácido trifluoroacético, ou TFA, surge quando PFAS, agrotóxicos, produtos farmacêuticos e outros químicos industriais se biodegradam, e está “aumentando irreversivelmente” em todo o mundo, de acordo com uma revisão de 2024. Este produto químico de longa duração danificou o fígado e demonstrou toxicidade reprodutiva em estudos com animais, tendo já sido encontrado no sangue humano. No entanto, poucas pesquisas foram realizadas sobre os seus riscos para a saúde humana.
Independentemente disso, o TFA está presente globalmente no solo e na água potável e bioacumulou-se nas plantas. Atualmente, a extensão em que as concentrações de TFA são “ordens de magnitude maiores” do que as de outras substâncias per e polifluoroalquiladas, e o TFA está se tornando rapidamente uma ameaça para o planeta, concluiu a revisão de 2024.
Evitando agrotóxicos PFAS
Evitar completamente os PFAS é difícil — eles têm sido adicionados há décadas a sacos de pipoca, caixas de pizza, panelas antiaderentes, produtos de limpeza doméstica, fio dental, cosméticos, xampus, protetores solares e roupas, carpetes e estofados resistentes à água e manchas — e a lista continua. Devido à sua longa meia-vida, mesmo os PFAS mais antigos, que foram eliminados gradualmente ou proibidos, persistem no solo e na água potável.
De fato, vários produtos químicos PFAS foram detectados no sangue de 98% dos americanos e podem ficar armazenados por anos em diferentes órgãos do corpo, de acordo com um relatório das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina.
Quando se trata de evitar os tais PFAS mais recentes, os produtos orgânicos contêm menos substâncias químicas e são uma excelente opção sempre que possível, afirmou Stephanie Eick, professora assistente de saúde ambiental e epidemiologia da Escola de Saúde Pública Rollins da Universidade Emory, em Atlanta.
“Se você não tem condições de comprar produtos orgânicos, o melhor é lavar bem os vegetais em água corrente e usar uma escova em itens mais resistentes, como cenouras, batatas e pepinos”, disse Eick, que não participou do estudo do EWG.
Todos os produtos, mesmo os orgânicos, devem ser lavados antes de serem descascados para evitar a transferência de sujeira e bactérias da faca para a fruta ou o vegetal. Após a lavagem, seque-os com um pano limpo ou papel-toalha, de acordo com a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA).
Não há necessidade de usar água sanitária, sabão ou produtos de limpeza específicos para frutas e verduras — elas são porosas e podem absorver esses produtos químicos, afirmou a FDA.
Remova as folhas mais externas do repolho, alface e outras folhas verdes e lave cada folha cuidadosamente — mas não use água em alta pressão, pois isso pode danificá-las. Especialistas recomendam usar água em baixa pressão e mais quente que a temperatura dos vegetais, além de uma peneira para secá-los. Não se esqueça de lavar a peneira depois. A exceção são as folhas verdes embaladas que já passaram por uma “tripla lavagem”, que, segundo a FDA, não precisam de uma lavagem adicional.
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, março de 2026