
Pessoas em um caiaque na costa de La Jolla Shores, Califórnia, em dezembro de 2025. Crédito: Kevin Carter/Getty Images
https://insideclimatenews.org/news/09012026/ocean-warming-breaks-record-for-ninth-straight-year
09 jan 2026
[Nota do Website: Notícia estarrecedora já que estamos efetivamente vivendo os reflexos aqui citados. Só que ninguém, mas ninguém mesmo, parece que não consegue ter capacidade cognitiva nem emocional de sensibilizar e se determinar a tomar ações que possa, ainda, reverter essa dramática realidade. Lastimável nossa omissão e negligência com o futuro dos que ainda nem nasceram].
Cientistas alertam que o acúmulo de energia nos oceanos está alimentando padrões climáticos extremos e desestabilizando os ecossistemas marinhos.
A cada segundo do ano passado, os oceanos da Terra absorveram o equivalente em energia a 12 bombas atômicas do tamanho da de Hiroshima.
O conteúdo de calor oceânico global (OHC/Ocean Heat Content, na sigla em inglês) aumentou pelo nono ano consecutivo em 2025, de acordo com um relatório publicado na sexta-feira na revista Advances in Atmospheric Sciences. O estudo — uma colaboração que envolveu mais de 50 cientistas de 31 instituições internacionais — mediu as flutuações de temperatura nos 2.000 metros superiores das águas do planeta, constatando os maiores aumentos no Atlântico Sul, no Pacífico Norte e no Oceano Antártico. O aquecimento das águas está ligado a padrões climáticos cada vez mais extremos, à morte de recifes de coral e à elevação do nível do mar.
Os oceanos da Terra atuam como o principal sumidouro de energia térmica do planeta. Absorvendo mais de 90% do excesso de calor retido pelos gases de efeito estufa, as temperaturas oceânicas servem como um indicador crucial das mudanças climáticas a longo prazo. “O conteúdo global de calor oceânico (OHC) é o melhor indicador isolado de que o planeta está aquecendo”, afirmou Kevin Trenberth, coautor e pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (NCAR).

“Medir o conteúdo de calor dos oceanos é provavelmente a melhor maneira de medir o aquecimento global como um todo”, acrescentou Michael Mann, diretor do Centro de Ciência, Sustentabilidade e Mídia da Universidade da Pensilvânia. O aumento total de energia oceânica no ano passado foi de 23 zettajoules — mais de 200 vezes o consumo de energia elétrica de todo o planeta.
O aquecimento foi generalizado, com 16% dos oceanos atingindo níveis recordes. Outros 33% das áreas registraram temperaturas entre os três anos mais quentes da história, e 57% entre os cinco anos mais quentes já registrados. Esse aquecimento contínuo foi impulsionado não apenas pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa, mas também por uma recente redução nos aerossóis de sulfato, que historicamente atuavam como um protetor solar refletor para o planeta.
Embora o aquecimento dos 500 metros superiores dos oceanos fosse visível já no final da década de 1970, o calor produzido pelo homem agora penetra até 2.000 metros abaixo da superfície. Segundo Trenberth, o calor leva cerca de 25 anos para chegar a essas profundidades, criando um efeito de aquecimento que provavelmente persistirá por séculos. Apesar de a temperatura média da superfície do mar ter sido menor do que em 2023 e 2024, este ano ainda foi o terceiro mais quente já registrado.

“O aquecimento dos oceanos leva a um ar mais quente e úmido, o que, por sua vez, leva a tempestades mais fortes”, disse John Abraham, professor de ciências térmicas da Universidade de St. Thomas, em Minnesota. À medida que a temperatura dos oceanos aumenta, a evaporação também aumenta, resultando em mais umidade na atmosfera. “Pense em um clima ‘turbinado’. Podemos esperar que nosso clima se torne mais extremo e imprevisível.”
De acordo com o estudo, chuvas de monção intensas que mataram mais de 1.350 pessoas no sul e sudeste da Ásia, inundações repentinas catastróficas ao longo do rio Guadalupe, no Texas, que causaram 138 mortes, e mais de 1.200 incêndios florestais que queimaram mais de cinco milhões de hectares no Canadá, podem ser todos relacionados ao acúmulo de calor oceânico a longo prazo. Enquanto isso, o aumento na frequência e intensidade das ondas de calor marinhas levou a níveis de massa recorde de baixa nas calotas polares da Groenlândia e da Antártida, contribuindo, por sua vez, para a elevação global do nível do mar.
Pesquisadores alertam que o aquecimento dos oceanos também representa uma séria ameaça aos recifes de coral. “Quando a temperatura da água do mar ultrapassa o limite de tolerância térmica dos corais, o sistema simbiótico entra em colapso”, disse Lijing Cheng, oceanógrafa da Academia Chinesa de Ciências e coautora do estudo.
Essenciais para a ecologia marinha, os recifes sustentam mais de 25% de todas as espécies marinhas conhecidas, apesar de cobrirem menos de 0,1% do fundo do mar. “Os corais expulsam as algas, perdem seus pigmentos coloridos e ficam com aparência ‘branqueada'”, disse Cheng, referindo-se a como a água mais quente é um importante indicador de estresse para os recifes.
A previsão permanece inalterada: o conteúdo de calor dos oceanos globais deverá aumentar ano após ano até que se atinjam emissões líquidas zero de gases de efeito estufa. Devido à quantidade de energia térmica armazenada nos oceanos da Terra, Trenberth alerta que a mudança é irreversível em uma escala de tempo humana.
Embora uma redução completa do dióxido de carbono não leve imediatamente ao retorno às temperaturas oceânicas anteriores a 1970, os pesquisadores enfatizaram a possibilidade de reverter a situação. “Embora esses dados mais recentes demonstrem a urgência da ação climática, ainda temos poder de ação”, disse Mann, observando que o aquecimento da superfície poderia se estabilizar se as emissões cessassem.
Abraham concordou, sugerindo que a solução para o aumento da temperatura dos oceanos é uma questão de vontade, e não de capacidade. “Podemos resolver esse problema hoje, com a tecnologia atual”, disse ele. “Há um otimismo real entre os cientistas.”
Tradução livre, parcial, de Luiz Jacques Saldanha, janeiro de 2026